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“Portugal ainda é um país muito pró-europeu”

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CALMA. O analista da Schroders está tranquilo. “Para nós, investidores que conhecem Portugal, não devem estar preocupados” com um Governo socialista

reuters

Azad Zangana, o economista da Schroders para a Europa, recomenda aos investidores que invistam em ativos portugueses. E frisa que o país sempre foi mais socialista do que outros países europeus e que não está preocupado com um Governo socialista

Azad Zangana não está nada preocupado com um governo do Partido Socialista (PS). O economista e estratega da Schroders para a Europa insiste que o Portugal é muito pró-europeu e que um governo socialista não preocupa os investidores internacionais.

Em entrevista ao Expresso, em Londres, frisa que Portugal sempre foi um país mais socialista do que outros na Europa. Lembra que o anterior executivo socialista era amigo dos mercados. E que na Europa, já houve governos socialistas, sem problemas. Na semana passada, afirmações proferidas por Zangana ao “Jornal de Negócios” criaram polémica em Portugal.

Como vê Portugal neste momento?
Vemos como um país em recuperação, que fez as reformas que foram exigidas. E, é engraçado, muitas vezes concorre com Espanha nas suas reformas e gosta de mostrar que fez pelo menos tanto quanto a Espanha. O que é bom, ter alguém com quem concorrer, nesse sentido. As reformas foram positivas, nomeadamente no mercado de trabalho. Em consequência, o crescimento foi mais forte do que o esperado. Espanha e Portugal foram as maiores surpresas em termos de performance na Europa este ano. Foram os dois países que estiveram muito melhor do que o esperado.

Para os investidores, os ativos portugueses são bons investimentos?
Penso que sim, sem dúvida. Tem havido dúvidas sobre a situação política e o impacto da incerteza politica nos mercados. Mas na perspetiva internacional, não há motivos para preocupação. Há de facto alguns partidos de protesto em Portugal mas nem de perto são preocupantes como na Grécia ou noutros países. Portugal ainda é um país muito pró-europeu, que entende as suas responsabilidades em termos da situação orçamental e está a empenhar-se de uma forma muito positiva para melhorar a competitividade e introduzir oportunidades de crescimento de longo prazo.

Como vê evolução recente nos mercados desde as eleições? Logo após as eleições houve um período em que os investidores venderam muitos ativos portugueses.
É verdade. Logo que saiu a notícia que os conservadores poderiam não ficar no governo houve inicialmente alguma preocupação. Mas muitos investidores internacionais esquecem que o anterior governo esteve no poder e era muito amigo do mercado, os mercados têm menos receios deles. Houve mais receio devido ao potencial de outros partidos entrarem no governo. Mas temos de esperar para ver o que acontece. Não sabemos se vamos ter outras eleições. É uma possibilidade. Portugal sempre foi um país mais socialista do que outros países europeus, então para nós, investidores que conhecem Portugal, não devem estar preocupados.

Não é um partido tão à esquerda, é mais ao centro.
É o equivalente aos trabalhistas no Reino Unido, a mesma história. E é uma experiência semelhante. O Partido Trabalhista perdeu as eleições em 2011. A sua posição orçamental na altura era muito negativa, então a sua reputação foi muito danificada, mas os mercados não ficaram preocupados se o partido ganhasse as eleições recentes.

Falou com o PS?
Não recentemente. Não nos últimos seis meses.

Mas conhece o programa?
Vimos o programa, sim. É uma interpretação diferente da necessidade de implementar disciplina orçamental. E tem sido esse o caso na Europa. Mesmo agora com o Syriza na Grécia, é muito vocal mas na realidade está a mudar a agenda. Está a concentrar-se mais em reduzir benefícios fiscais para as empresas e dar mais apoio a trabalhadores mais pobres. Há muitas formas de implementar a austeridade.

É um modelo diferente apenas, mas o resultado…
Sim, mas o resultado é o mesmo. O equilíbrio orçamental melhora, os receios dos investidores e dos mercados baixam, o que significa que os juros das obrigações soberanas ficam mais baixos e as taxas de juro do país ficam baixas. E esse é o objetivo final.

Alguns analistas dizem que a dívida portuguesa não é sustentável no longo prazo, tal como a de outros países. Dizem que Portugal deve reestruturar a sua divida.
Isso é uma decisão do governo português nessa altura. A experiência da Grécia ensinou-nos isso. Quando os países começam a falar de reestruturar a sua divida a realidade é que reestruturam primeiro nos cidadãos do país. Porque é onde a maior parte da dívida está. Esse foi um problema na Grécia. Eles reestruturam a dívida e perceberam que afinal não se pode fazer um 'haircut' aos pensionistas. Como vão eles reformar-se? No fim do dia, tem de se dar apoio aos reformados.

Em Portugal, cortaram-se os salários.
O corte dos salários ajudou a melhorar a competitividade. A balança comercial melhorou e o crescimento também. Trata-se de ficar mais competitivo face ao mercado internacional. Mas quando se fala de reestruturar a dívida é mais difícil. Porque se reestruturar a divida de Portugal vai ter impacto nos pensionistas em Portugal bem como investidores internacionais, Mas tendo um impacto negativo nos investidores domésticos significa que vão ter de ser apoiados no futuro, porque todos têm um mínimo para viver. Não é necessariamente a resposta certa. Não é uma opção fácil para o governo. E é por isso que poucos países fazem isso, sabem que assim que reestruturarem perdem a confiança dos investidores internacionais e as taxas de juro e os custos no longo prazo podem acabar por ser maiores.

Portugal tem de encontrar uma forma da sua dívida ser sustentável.
Sim, a forma de fazerem isso é continuando a implementar as reformas, aumentar o crescimento. Aumentarem o crescimento vai melhorar a capacidade do país pagar a sua dívida e financiar-se e ao mesmo tempo ter défices mais baixos e até um pequeno superavit. E ao longo do tempo vai reduzir o défice e a dívida.

E está positivo em relação a Portugal no médio-longo prazo?
Sim, estou. Porque o que aprendemos nos últimos dois anos é que Portugal pode tornar-se uma economia mais forte e dinâmica. A performance surpresa dos últimos dois anos tem sido uma prova disto. Com mais investimento em educação a ajudar a melhorar as taxas de produtividade, Portugal pode competir a um nível mais alto nos setores dos serviços a nível mundial e aumentar o crescimento.

A nível mundial, cortou a previsão do crescimento da economia. E como a economia portuguesa?
Esperamos um crescimento semelhante ao que vimos este ano. Talvez haja um ligeiro abrandamento porque a inflação deve aumentar no próximo um a dois anos. Claro que a grande queda dos preços de energia não vai acontecer outra vez. Será muito mais estável. Portanto, essa ajuda da queda dos preços da energia vai desvanecer-se no próximo. Podemos ver um abrandamento. Mas se continuarem com as reformas podemos ver novos ganhos no lado do crescimento.

No mercado acionista, o índice PSI-20 é frágil e costuma ser logo um dos mais afetados quando há problemas a nível internacional.
É um índice muito internacional, com muitas empresas expostas a mercados internacionais. O que neste momento, como ambiente externo é mais fraco, o índice tem sofrido. Mas o euro mais fraco dá suporte às empresas e isso deve suportar as ações. Mas a dimensão do mercado e a reduzida liquidez significa que tem mais volatilidade quando algo acontece a nível internacional. Posso dizer que os nossos fundos diversificados (multi ativos) não conseguem comprar o índice por si só. É muito ilíquido. Compramos o índice Euro Stoxx e estamos positivos. Preferimos ações europeias a outras regiões.

Qual a sua perspetiva para a zona euro?
Em termos de Europa, da perspetiva da União Monetária e do sucesso da zona euro, é preciso ver maior integração do sistema bancário e dos mercados de serviços. Para fazer isso, é preciso ver maior aceitação e entendimento das regras que estão a ser implementadas. Muitos discutem que ter uma União Bancária é preciso haver um esquema único de seguros e, para fazer isso, há que aceitar que há custos extra envolvidos. Para ser efetivo, é preciso ver uma separação do sistema bancário e do governo.

Na crise de divida soberana. Muitos países tinham bancos perfeitamente saudáveis mas foi a a dívida soberana que deitou os bancos abaixo, como na Grécia, porque os bancos têm de ter dívida soberana. Na Irlanda, onde o Estado tinha um dos rácios de dívida mais baixos da Europa, foram os bancos que deitaram abaixo o Estado porque o governo teve de os resgatar. Esta separação entre os dois é importante, mas para isso é preciso avançar para uma União orçamental, onde pode haver uma emissão dívida soberana comum. Para isso, é preciso que os alemães insistam numa disciplina orçamental mais forte. Porque todos seriam responsáveis pelas dividas uns dos outros. Faz sentido.

E seria caminhar para uma União Politica.
Esse seria o próximo passo. Penso que não se pode ter uma União Orçamental sem uma União Politica. Tem de se ter uma representação antes de ver acordos a um nível mais elevado em termos de impostos e despesa. Há diferentes modelos.

Isto ainda está muito longe. Há muito pouco apetite politico agora para uma maior integração. Ter estas reformas e integração ajudaria a reduzir as incertezas e os riscos para a zona euro no todo.

Estamos a sair de uma maior preocupação com a economia para a mais atenções na política. Está preocupado com os acontecimentos recentes?
O lado macroeconómico está mais estável na Europa. O desafio para o próximo ano é a liderança da Europa, em termos de como será resolvida a crise dos migrantes. Temos liderança suficiente no topo da Europa para serem tomadas as melhores decisões para toda a Europa e não apenas para alguns países? Porque penso que temos ouvido muitas vozes a expressarem a vontade dos seus países em vez de uma solução para todos. Essa é uma área. E, eventualmente, a necessidade de analisar uma União Bancária, Orçamental, Politica. Os desafios da integração serão questionados de novo no próximo ano. E, por outro lado, temos uma juventude menos privilegiada farta de desemprego jovem elevado à procura de votar em partidos alternativos, pessoas insatisfeitas com a política de migração, e em algumas áreas pessoas insatisfeitas com o status quo dos partidos no poder, com a corrupção, à procura de alternativas. Há muitas áreas de raiva nas populações e temos visto partidos populares de protesto a saírem-se bem nas eleições. É uma preocupação.

Existem riscos políticos agora na Europa?
Os riscos sempre existiram. A economia é a menor parte das preocupações. A austeridade praticamente acabou na Europa. Agora estamos a focarmo-nos mais em temas como a migração, a segurança social, a redistribuição da riqueza, igualdade. Estes assuntos não são novos. Mas estamos a voltar a esses velhos assuntos. Os partidos que se focaram na anti-austeridade estão a perder popularidade, como o Syriza e o Podemos. A seguir, o tema vai ser a segurança, devido a Paris, e a migração. A boa notícia para os investidores é que estes assuntos não afetam os mercados. Os mercados tendem a focar-se mais na austeridade, reestruturação da dívida, medidas de crescimento. Os mercados podem agora focar-se mais nas empresas e afastar-se do ruído político.

Sobre Paris, está preocupado em termos de consequências para os mercados?
Eu não consigo pensar numa política que possa surgir e afetar os mercados. Tivemos terrorismo neste pais (Reino Unido), com o IRA e a Al Qaeda. E Espanha teve também a sua quota parte. Habituamo-nos. Paris tem menos experiência com isto e os ataques são diferentes dos do passado, mas o que acontece é que, com o tempo, os investidores incluem no preço dos seus investimentos os riscos. A reação dos governos será maior segurança e fronteiras reforçadas, mas nada disto afeta os mercados de ações ou obrigações. Pode haver mais investimento estatal. No curto prazo pode ter impacto na confiança do consumidor em França e não só. O que aprendemos com o Reino Unido e Israel é que o impacto tende a ser mais no curto prazo. As famílias deixam de gastar temporariamente.

Sobre o Banco Central Europeu, o que espera? O BCE já admitiu que as medidas de estimulo não estão a ter o efeito esperado.
Sim. Mas não tenho bem a certeza o que esperavam. Esperavam que as taxas de juro descessem e isso aconteceu, foram bem sucedidos. O euro desceu, funcionou. Tem havido mais credito? Não, nem por isso porque leva tempo ao sistema traduzir taxas de juro baixas em credito na economia. A preocupação do BCE era de que quando a Reserva Fedral (Fed) decidiu não subir as taxas em setembro e o euro subiu de novo, eles temiam que esta valorização iria desfazer todo o trabalho que o QE (quantitative easing) fez e falaram em ter de fazer mais. Desde aí, os dados na Europa melhoraram, tal como os da inflação, os dados nos EUA melhoraram e há muitos sinais de que a FED vais subir as taxas em dezembro. O euro voltou a descer. Posso ver um cenário em que o BCE decide não fazer nada extra em dezembro. Mas (Mário) Draghi tende a querer ter mais estímulos. O governing council está em desacordo. Sabem que só têm mais dois ou três meses antes da inflação começar a subir. Nessa altura, o argumento para mais estímulos vai desaparecer. A janela para eles politicamente avançarem com mais estímulos.

E podem vir a comprar dívida de empresas ou ações?
Não nesta fase. Depende de quanto tempo mais querem continuar com o programa. Se decidirem aumentar o montante de comprar, então vão acabar mais cedo. Se quiserem continuar em 2017 e 2018, então não terão ativos. Podem mudar regras de liquidez, compram mais tempo. Se quiserem continuarem com o QE nessa altura, terão de comprar outro tipo de ativos. Acho que é exequível mas não é provável. É uma opção. Mas a economia está a recuperar e a inflação vai subir. Acho que estou mais otimista em relação à Europa do que Draghi.

E o Brexit?
É muito incerto. Não se sabe a data. As sondagens não são claras. Um cenário mais realista é que haverá restrições de comércio, o Reino Unido ainda terá custos (com a gestão da UE). E haverá um pequeno impacto no Reino Unido e na Europa. Mas mais importante, se o Reino Unido votar para sair no próximo ano ou 2017, seria o início de dois anos de negociação para sair. Levará muito tempo, não será imediato. Poderá afetar a libra.