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€780 mil milhões de dívida pública à espera de Draghi

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São seis os países membros da zona euro que se financiam com taxas de juro negativas que excluem essa dívida do programa de compras do BCE. No mercado obrigacionista antecipa-se que o presidente do BCE anunciará um alargamento do âmbito das compras em função de um agravamento na taxa negativa de remuneração dos depósitos

Jorge Nascimento Rodrigues

A dívida obrigacionista de países membros da zona euro que regista taxas ainda mais negativas do que -0,2% soma 780 mil milhões de euros, segundo os cálculos da Bloomberg, que foram divulgados em dólares. Representa cerca de 13% da dívida obrigacionista e quase 9% de toda a dívida pública (obrigacionista e de curto prazo) da zona euro que é superior a 9 biliões de euros.

Esses títulos que registem esses níveis de juros negativos em obrigações de 2 ou mais anos estão excluídos do programa de compra de dívida pública no mercado secundário lançado em março deste ano pelo Banc Central Europeu (BCE), que definia como limite a taxa de remuneração negativa dos depósitos dos bancos comerciais da zona euro nos cofres do BCE que está fixada em -0,2%.

Segundo os cálculos da Bloomberg, divulgados esta semana, há cerca de 350 mil milhões de euros em obrigações com juros negativos entre -0,2% e -0,3% e 430 mil milhões de euros com juros ainda mais negativos do que -0,3%, que, em prazos de 2 anos ou mais, estão excluídos das compras no mercado secundário pelo BCE.

A expetativa é que a reunião do BCE a 3 de dezembro, na próxima semana, altere o limite de -0,2% na taxa de remuneração dos depósitos dos bancos, tornando-o ainda mais negativo, o que permitiria alterar também o mesmo limite de juros negativos fixado para as compras de obrigações dos estados membros do euro (com exclusão da Grécia, que continua sem acesso a esse programa) com 2 ou mais anos de prazo.

Alemanha lidera campeonato de juros mais negativos do que taxa dos depósitos

No fecho de sexta-feira no mercado secundário, com yields negativas entre -0,2% e -0,3% em prazos de 2 ou mais anos situavam-se cinco países do “centro” da zona euro – Alemanha (no prazo a 4 anos, tendo chegado durante a sessão de 27 novembro a registar -0,206% no prazo a 5 anos); Áustria (prazo de 4 anos); Finlândia (prazo de 4 anos); França (prazo de 3 anos) e Holanda (prazo de 4 anos).

Com yields ainda mais negativas do que -0,3% em prazos de 2 ou mais anos encontravam-se seis países do “centro”: Alemanha (prazos de 2 e 3 anos); Áustria (prazos de 2 e 3 anos); Bélgica (prazos de 2 e 3 anos); Finlândia (prazos de 2 e 3 anos); França (prazo de 2 anos); e Holanda (prazos de 2 e 3 anos).

O anúncio por Mario Draghi, o presidente do BCE, de uma alteração na taxa de remuneração de depósitos dos bancos nos cofres do banco central, que serve de referência, para um nível ainda mais negativo (muitos analistas falam, pelo menos, de -0,3%) repesca, de imediato, para o perímetro de compras pelo BCE, algumas centenas de milhares de milhões em dívida obrigacionista de países do “centro”.

O BCE ficou, pela primeira vez, a taxa de remuneração de depósitos em terreno negativo, em -0,1%, em junho de 2014, e agravou-a para -0,2% a 10 de setembro do mesmo ano. Desde essa altura, não foi alterada. Atualmente, o Banco central da Suécia aplica uma taxa de -1,1% e o Banco Nacional da Suíça e o Banco central da Dinamarca têm em vigor taxas de -0,75%. Draghi, na conferência de imprensa após a reunião de outubro, referiu que os especialistas do BCE estavam a estudar as experiências da Suécia e da Suíça.

Até periféricos registam juros negativos

Com yields negativas, dentro ou fora do limite de -0,2% e em todos os prazos, encontram-se 10 membros do euro. Seis do “centro” – Alemanha, Finlândia e Holanda, que lideram com yields negativas incluindo no prazo de 6 anos, e Áustria, Bélgica e França, com yields negativas até ao prazo de 5 anos inclusive. E quatro da periferia e das economias emergentes: Eslováquia (no prazo a 2 anos); Espanha (prazos de 3 meses a 2 anos); Irlanda (prazos de 12 meses a 3 anos); e Itália (de 3 a 12 meses).

Portugal financiou-se com taxas de remuneração negativas em emissões de Bilhetes do Tesouro a 3, 6 e 12 meses em 21 de outubro e 18 de novembro, mas, na sexta-feira, não registava yields negativas nos dados da Investing.com.

Fora da zona euro, na Europa, há mais três países membros da União Europeia (UE) com juros negativos (Dinamarca, República Checa e Suécia) e um país fora da UE, a Suíça, que lidera, à escala mundial, o campeonato dos juros negativos no financiamento da dívida pública, registando-os até ao prazo de 10 anos inclusive.

Juros negativos significam que os investidores se dispõem a “pagar” – ou seja, a não receber taxa de remuneração acima de 0% por parte do Estado emitente - para adquirir ou manter em carteira obrigações ou bilhetes do Tesouro.