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Às compras no supermercado? Dê o desconto ao desconto

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Nos supermercados que todas as semanas oferecem novos descontos por vezes acontece o que parece insólito: um Pingo Doce de Lisboa, por exemplo, anunciou uma poupança de 0% nas bifanas de porco

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A relação entre a grande distribuição e o consumidor final é, há vários anos, marcada por estratégias de sucessivos descontos nos preços dos produtos, para tentar atrair um consumidor cada vez mais focado na redução de cada euro da sua fatura no supermercado. Mas se as campanhas trazem descontos generosos, também há, por vezes, acontecimentos insólitos, como anunciar ao comprador uma poupança de... 0%.

A imagem, captada esta segunda-feira num supermercado Pingo Doce na cidade de Lisboa, diz (quase) tudo. "Aproveite! Poupe 0%". As bifanas de porco que antes custavam 2,38 euros por quilo custam agora... 2,38 euros por quilo. A insólita promoção não é mais que um lapso, conforme explicou ao Expresso fonte oficial da Jerónimo Martins.

Segundo a empresa proprietária dos supermercados Pingo Doce, a campanha em questão contemplava de facto um preço de 2,38 euros, mas o preço original do produto era de 3,98 euros (conforme está publicado no folheto que vigorou na semana de 17 a 23 de novembro naquela insígnia), com um desconto de 40%, portanto.

De acordo com a Jerónimo Martins, o insólito anúncio colocado no supermercado terá sido um caso isolado, já que a empresa não recebeu nenhuma reclamação dos seus clientes. O grupo gere a política de descontos centralmente e a impressão dos materiais de campanha é também feita de forma central, regra geral. Algumas lojas de maior dimensão podem, contudo, imprimir os seus próprios materiais e, na introdução dos valores dos produtos, gerar casos como este.

A Deco, associação de defesa dos consumidores, diz estar atenta ao relacionamento dos supermercados com os clientes, mas nota que as reclamações neste sector têm ainda pouca expressão. "A Deco vai recebendo reclamações sobre promoções nos supermercados, algumas delas ligadas aos cartões de descontos, mas não são para já reclamações que tenham uma dimensão muito significativa", explica Rosário Tereso, jurista da Deco.

"Preocupa-nos sempre que haja uma discrepância entre o que é publicitado e o que acaba por ser cobrado, mas não se pode dizer que há um 'boom' de reclamações sobre essa questão", esclarece a mesma responsável.

Os dados publicados pela Direção-Geral do Consumidor (DGC) mostram que as queixas dos clientes relativas aos supermercados são hoje residuais. A DGC, que é a entidade competente para tratar reclamações relacionadas com práticas comerciais desleais em matéria de publicidade, processou no primeiro semestre deste ano apenas 127 reclamações, das quais 69 por falta de informação, 26 ligadas aos stocks e 13 por o produto não corresponder às expectativas.

Segundo a DGC, o operador mais reclamado a este nível durante o primeiro semestre foi o Continente, com 36 queixas, seguido do Pingo Doce, com 27 reclamações, e a E.Leclerc, com oito.

Mais intenso é o fluxo de protestos dos consumidores junto da ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, cujo âmbito de atuação vai muito além da questão das práticas comerciais desleais seguidas pela DGC. Até junho a ASAE tinha recebido mais de 72 mil reclamações, das quais quase 34 mil por cumprimento defeituoso do contrato e perto de 26 mil por atendimento deficiente. Os métodos agressivos de venda motivaram apenas 119 reclamações feitas junto da ASAE.