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Draghi: faremos o que for preciso para fazer subir rapidamente a inflação

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DANIEL ROLAND/AFP/GETTY

O presidente do BCE reafirmou esta sexta-feira em Frankfurt no 25º Congresso Bancário Europeu que a retoma em curso é a mais fraca na zona euro desde 1998 e que uma inflação subjacente baixa não o deixa “descontraído”. A reunião de 3 de dezembro será decisiva

Jorge Nascimento Rodrigues

“Se decidirmos que a atual trajetória da nossa política não é suficiente para que seja alcançado o nosso objetivo, faremos o que for preciso para que a inflação aumente o mais rapidamente possível. Isso é o que o mandato para a estabilidade de preços nos exige”, reafirmou Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), esta sexta-feira de manhã na abertura do Congresso Bancário Europeu em Frankfurt.

A deceção do BCE com o comportamento da inflação, que se mantém em níveis muito baixos, com uma previsão de apenas 0,1% em 2015 (inferior inclusive a uma subida de 0,4% no ano anterior), é o principal quebra-cabeças dos banqueiros centrais da moeda única. O que ficou claro lendo as atas da última reunião de 22 de outubro, que foram divulgadas na quinta-feira. Por isso, como garante Draghi, o BCE reavaliará o quadro de política monetária na próxima reunião de 3 de dezembro e “fará tudo o que for preciso”. Uma inflação baixa “não é algo que nos deixe descontraídos”, sublinhou o presidente do BCE.

Falta aumento de inflação nos serviços e aceleração da subida dos salários

A própria inflação subjacente (retirando as componentes voláteis, como os preços da energia, componentes de baixa inflação “importada” em virtude do contexto internacional de quebra dos preços das matérias-primas) continua a pairar em torno de 1% há dois anos, sublinhou Draghi. “O aumento [da inflação subjacente] em outubro para 1,1%, ainda que encorajador, não é suficiente para alterar radicalmente esse quadro”, acrescentou.

O presidente do BCE referiu ainda: “Uma inflação subjacente baixa não é algo que nos possa deixar descontraídos, pois, tal como no passado, é um bom indicador para onde a inflação vai estabilizar a médio prazo. E, se os produtos industriais receberão apoio por parte da depreciação do euro, um aumento na inflação nos serviços – que está hoje em mínimos históricos – dependerá da aceleração do crescimento dos salários nominais. E para que isso aconteça, a economia precisa de voltar o mais rapidamente possível à sua plena capacidade”.

Em suma, a desvalorização do euro que tem ocorrido, em virtude da política monetária "acomodatícia", não chega. Nos últimos dois anos, o euro depreciou-se (em termos efetivos nominais) 11,2% em relação a um cabaz de divisas dos 19 principais parceiros comerciais da zona euro (nomeadamente cinco principais, China, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Suíça).

A retoma mais fraca e mais prolongada

Draghi reiterou que a política monetária do BCE é hoje em dia “a força dominante estimulando a retoma [na zona euro]”. Nas atas divulgadas na quinta-feira podia ler-se que os banqueiros centrais consideram que o BCE está a ser “sobrecarregado” face à falta de resposta das outras áreas de política económica, por parte dos governos no plano orçamental e de reformas estruturais, e expressaram a sua deceção com “a falta de ímpeto do Plano Juncker”.

Draghi, na intervenção desta sexta-feira em Frankfurt, deixou mais elementos de reflexão sobre o caráter atípico da atual retoma em curso na zona euro, aspetos que já tinham sido referidos por uma intervenção de Vítor Constâncio no início da semana na abertura da Semana Eurofinanceira e que transparecem das atas divulgadas da reunião de outubro.

É a “retoma mais fraca da zona euro desde 1998”, mesmo sendo beneficiada pela política monetária e pelos seus efeitos no crédito às empresas e no custo de financiamento da dívida pública e apesar dos preços em queda das matérias-primas energéticas. Além disso, está a revelar-se “a retoma mais prolongada numa perspetiva histórica”. Se a projeção do BCE se confirmar, o produto na zona euro só regressará ao nível pré-crise no final do primeiro trimestre de 2016, ou seja terá “custado” 31 trimestres, quase oito anos. A média nas anteriores retomas nos países que hoje formam o euro foi em média de 5 a 8 trimestres nos anos 1970, 1980 e 1990, antes do euro.

Taxa negativa em foco

Sobre o que poderá acontecer na reunião de 3 de dezembro, Mario Draghi referiu que o BCE está a reavaliar todo o quadro de política monetária, tanto na parte convencional (taxas diretoras, por exemplo) como não convencional (nomeadamente quanto aos programas de compra de ativos em que se destaca o programa de aquisição no mercado secundário de dívida pública dos membros do euro desde março).

Um dos aspetos que está a prender a atenção dos analistas financeiros é a sua referência à taxa de remuneração dos depósitos bancários que já está em terreno negativo (-0,2%) e que se encontra em estudo para avaliação de prós e contras para o seu agravamento. Na intervenção de hoje sublinhou que essa taxa negativa "pode capacitar a transmissão" das compras de ativos, nomeadamente “e, não menos importante, aumentando a velocidade de circulação das reservas dos bancos."