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BCE admite que a política monetária está a falhar no essencial

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A equipa de Mario Draghi está preocupada com a inflação que não descola na zona euro e está dececionada com a falta de ímpeto do “Plano Juncker” da Comissão Europeia e com a ausência de apoio por parte dos governos que estão a “sobrecarregar” o BCE

Jorge Nascimento Rodrigues

Só muito tardiamente, daqui a 15 anos, a inflação na zona euro deverá atingir 1,9%, perto do objetivo de 2% da política monetária do Banco Central Europeu (BCE), referiu-se na reunião dos banqueiros centrais do euro a 22 de outubro, segundo as atas divulgadas esta quinta-feira.

O que isto significa é que a política monetária do BCE vai tardar em produzir um processo de subida clara da inflação para a meta que justifica a sua atuação, usando quer instrumentos convencionais, como as taxas de juro, ou não convencionais, como a compra de ativos, como dívida pública soberana, como o está a fazer desde março.

Uma “atualização mecânica” das projeções anteriores pelos especialistas do BCE para a reunião de outubro revela que o “tempo previsto para a normalização da inflação”, no sentido de chegar à meta de 2%, tenderá a aumentar. Os banqueiros centrais consideraram que os riscos para as perspetivas de inflação mantêm-se elevados e manifestaram-se preocupados com a probabilidade de “um período de inflação baixa poder durar mais tempo do que o anteriormente previsto”.

Falta de eficácia vai ser analisada na reunião de dezembro

Os participantes na reunião admitiram, claramente, que a ação da política monetária não está a ser eficaz em relação ao seu objetivo fundamental, a inflação. Teve impacto em metas intermediárias como no ciclo de crédito, nos juros da dívida soberana (inclusive dos periféricos do euro, como se tem visto), e na redução da fragmentação financeira. Mas – escreve-se preto no branco - “não foi capaz, até agora, de realizar um impacto assinalável no seu objetivo final, ou seja, movendo a inflação de forma decisiva para uma trajetória mais elevada”. Alguns participantes fizeram referência a “um cenário de deflação potencial, que não pode ser totalmente excluído”.

As razões da falta de eficácia levou os banqueiros centrais a apontar para a reavaliação da política monetária na reunião de 3 de dezembro e para uma análise mais aprofundada das características e da natureza da atual retoma económica claramente atípicas, incluindo a necessidade de estudar mais em profundidade o mercado de trabalho e a sua relação com a inflação. “A retoma no atual ciclo económico é particularmente vagarosa”, constata-se. Alguns participantes chamaram a atenção para a necessidade de avaliar o papel dos salários no seu contributo para o crescimento real do rendimento disponível e da procura interna.

Várias deceções

Os banqueiros centrais tomaram como orientação a ideia de que “em qualquer caso, é preferível agir mais cedo do que mais tarde” no que respeita à política “acomodatícia” que tem sido seguida. O que deixa em aberto para 3 de dezembro a possibilidade de mexidas em aspetos das taxas diretoras de juros (particularmente na taxa de remuneração dos depósitos dos bancos que já está em terreno negativo), extensão no tempo, ampliação dos ativos elegíveis e aumento do volume mensal de compras de ativos.

A insatisfação do BCE em relação aos outros atores da política europeia subiu de tom. Sublinharam o “papel crucial a desempenhar por outras áreas de políticas necessárias” de modo “a evitar sobrecarregar a política monetária e garantir que as outras áreas de políticas contribuem para um resultado mais satisfatório” na economia da zona do euro. Os banqueiros centrais manifestaram expressamente a sua “deceção” sobre a velocidade insuficiente de reformas estruturais, a falta de medidas de apoio no domínio orçamental, incluindo “a falta de ímpeto por detrás do Plano Juncker”.