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Dívida espanhola e portuguesa sob pressão

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As palavras de Mario Draghi tiveram um efeito imediato de descida nos juros mas foi sol de pouca dura para as obrigações portuguesas e espanholas e os prémios de risco e o preço dos cds subiram para as duas dívidas. Maré vermelha nas bolsas europeias e em Wall Street. Bolsas mundiais recuam mais de 1%

Jorge Nascimento Rodrigues

Mario Draghi deu, a partir de Bruxelas, um alento durante a manhã desta quinta-feira ao mercado da dívida da zona euro. Disse que “os riscos negativos derivados do crescimento e do comércio global são claramente visíveis" e que a “normalização sustentada da inflação [a sua subida até à meta de 2%] pode levar mais tempo do que o antecipado em março”. Mas Janet Yellen, em Washington, à tarde, na abertura de uma conferência, desapontou os analistas ficando calada sobre o assunto que todos queriam ouvir, sem dar mais qualquer “sinal” sobre a subida ou não das taxas de juro na próxima reunião da Reserva Federal norte-americana (Fed) a 16 de dezembro.

As yields da dívida obrigacionista da zona euro no prazo de referência, a 10 anos, que tinham descido logo depois das palavras do presidente do Banco Central Europeu (BCE) perante a Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu, deixaram de ter um comportamento comum a partir de meio da manhã. No caso das obrigações espanholas e portuguesas inverteram a trajetória e começaram a registar subidas; no caso das obrigações gregas, irlandesas e italianas prosseguiram a descida. As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) naquele prazo de referência fecharam em 2,79%, três pontos base acima do fecho do dia anterior. O efeito “Draghi” foi passageiro.

O prémio de risco das dívidas portuguesa e espanhola subiu, enquanto desceu para as dívidas irlandesa, italiana e grega. O risco para a dívida portuguesa aumentou quatro pontos base subindo para 218 pontos base (o equivalente a um diferencial de 2,18 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã), estando, agora, ao nível do da Polónia ou da Bulgária. Desde 29 de outubro, o prémio de risco da dívida portuguesa esteve acima de 200 pontos base em oito das dez sessões. No caso da Grécia, o prémio de risco desceu abaixo de 700 pontos base, fechando em 675, o que já não se verificava desde o final de outubro de 2014. No próprio dia em que o governo chefiado por Alexis Tsipras enfrentou a primeira greve geral e deu sinais de que ficarão resolvidos até segunda-feira os temas pendentes na atual ronda do primeiro exame ao terceiro resgate.

O foco virou-se da Grécia para a Península Ibérica

A atenção virou-se ultimamente da Grécia para a Península Ibérica. O foco, por ora, centra-se em Portugal neste momento de compasso de espera depois da queda do governo de coligação na Assembleia da República. Depois mudará para Espanha à medida que evolua o confronto com o processo independentista no Parlamento catalão e se aproximem as eleições legislativas de 20 de dezembro cujos resultados são incertos, sublinha-nos Nick Malkoutzis, editor-adjunto da edição em inglês do jornal “Kathimerini”. “O grande problema vai ser o que vai acontecer em Espanha e em que medida isso afetará a psicologia dos investidores e as opções”, acrescenta o editor helénico. Para Constantin Gurdgiev, os líderes europeus vão procurar desdramatizar a atual “incerteza política em Portugal considerando-a um evento isolado sem risco de contágio”. “A chave para esta abordagem é claramente o desejo dos líderes europeus em conter o alastramento da insatisfação expressa por via democrática de um periférico para outro, nomeadamente de Portugal para Espanha, depois para Itália e potencialmente até para a Irlanda com eleições que terão de ser realizadas até 8 de abril de 2016”, chama a atenção o autor do blogue “True Economics”, professor em Dublin.

O preço dos seguros contra o risco de incumprimento da dívida portuguesa (designados tecnicamente como credit default swaps, acrónimo cds) subiu para 218,51 pontos base esta quinta-feira, um aumento de quase 8%. O mesmo movimento de subida foi registado para as dívidas espanhola e italiana. O preço dos cds desceu hoje para a Irlanda e para a Grécia.

Bolsas mundiais perdem 1,09%

Nos mercados bolsistas, o dia foi de maré vermelha na Europa e nos Estados Unidos, com os índices MSCI a recuarem 1,41% e 1,4% respetivamente. O índice PSI 20 da Bolsa de Lisboa fechou a cair 1,24% e as quedas na Europa foram lideradas pelas bolsas de Viena, Milão e Madrid, com descidas superiores a 2%. As palavras de Draghi não tiveram qualquer repercussão neste tipo de mercado financeiro. Em Wall Street, o Dow Jones fechou a cair 1,44% e o S&P 500 recuou 1,29%. O Nasdaq perdeu 1,22%. A região da Ásia Pacífico escapou, com o índice MSCI a registar uma subida de 0,36%.

À escala mundial, o índice MSCI (que abrange 23 economias desenvolvidas e 23 emergentes) perdeu esta quinta-feira 1,09%, registando três sessões negativas em quatro durante a semana.

Todos os principais índices MSCI estão em terreno negativo se avaliados desde o início do ano. O índice mundial perde 3,36% e o pior desempenho é registado para as bolsas de 23 economias emergentes, cujo índice MSCI já soma cerca de 13% de perdas. A Europa (14 economias da União Europeia mais Suíça) perde 4,29%, uma queda superior à média negativa mundial, a Ásia Pacífico (10 economias, incluindo desenvolvidas, novos países industrializados e principais emergentes) 3,14% e os EUA entraram no clube, com o índice MSCI a cair 0,6%.

A manter-se a trajetória descendente para as bolsas das 46 economias que dão corpo ao índice MSCI mundial, 2016 será o primeiro ano negativo desde o afundamento em 2011 (com uma quebra de 9,4%).