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Afinal que impacto terão os refugiados na economia europeia?

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A OCDE reconhece que a crise de refugiados tem um impacto orçamental negativo no curto prazo, mas antecipa que o mercado de trabalho sentirá benefícios mais tarde, com resultados muito variáveis de país para país

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A crise de refugiados que a Europa tem vivido este ano motivou um intenso debate na sociedade sobre o que deve cada Governo fazer para lidar com o fluxo histórico de entrada no Velho Continente de cidadãos que fogem dos cenários de guerra, sobretudo da Síria. O tema está também a ser analisado pela OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, que acaba de publicar um trabalho sobre como irá esta vaga de refugiados afetar a economia europeia. A verdade é que para a questão lançada pela OCDE a própria organização não consegue encontrar uma resposta simples.

Segundo a OCDE, “no curto prazo a despesa pública adicional pode funcionar como um estímulo à procura”. A instituição estima que “em 2016 e 2017 a despesa adicional para apoiar os refugiados pode impulsionar a procura agregada da economia europeia em 0,1 a 0,2% do Produto Interno Bruto”.

A entidade prevê que entre o passado mês de junho e o final de 2016 o espaço económico europeu poderá receber perto de um milhão de refugiados aptos para integrar o seu mercado de trabalho, o que equivalerá a 0,4% do mercado laboral europeu. Na Alemanha, pelo cenário superior da análise da OCDE, poderão entrar até 400 mil refugiados até ao final de 2016, o que equivaleria a cerca de 1% do mercado de trabalho germânico.

A OCDE nota que “em geral os efeitos nos mercados laborais dos países de acolhimento fazem-se sentir de modo muito progressivo, à medida que os refugiados se integram melhor e se reencontram com as suas famílias”. “Para que os refugiados aproveitem todo o seu potencial, será importante permitir-lhes ficar localizados onde as suas aptidões sejam mais necessárias”, realça a instituição.

O caso de integração da Suécia

Na sua análise a OCDE recupera alguns estudos prévios sobre o impacto orçamental da imigração, bem como a capacidade de integração dos refugiados no mercado de trabalho. Um estudo feito na Suécia indica que a empregabilidade de refugiados chegados ao país há dois anos rondava os 30%, enquanto os refugiados instalados há cinco anos já tinham uma taxa de sucesso de 50% e os refugiados com mais de uma década de acolhimento tinham mais de 60% de empregabilidade.

Do ponto de vista da despesa pública, o orçamento estatal dedicado ao apoio aos refugiados varia de país para país. A Alemanha projetou canalizar 0,5% do seu PIB para este fim, enquanto na Áustria esse apoio equivalerá a 0,3% do PIB e na Suécia o encargo estatal ascenderá a 0,9% do PIB.

Segundo a OCDE, embora haja uma elevada incerteza sobre os efeitos concretos na economia, este acréscimo de despesa (tipicamente, diz a entidade, o primeiro ano de cada cidadão que pede asilo custa aos cofres públicos entre 8 e 12 mil euros) pode acabar por ter um retorno positivo na dinamização do mercado laboral e na consequente geração de riqueza na economia.

Mas, alerta a instituição, tudo dependerá do que, caso a caso, aconteça de facto em cada mercado. “O impacto económico final dependerá largamente do sucesso de médio e longo prazo da integração no mercado de trabalho, porque a maior parte dos refugiados acaba por ficar no país de acolhimento. O insucesso na procura de trabalho aumentará o custo orçamental associado ao acolhimento de refugiados, em precisamente nos países menos preparados para cooperar”, observa a OCDE.

De acordo com os dados da mesma entidade, há países em que o tempo de espera imposto aos refugiados para que possam entrar no mercado de trabalho é quase nulo, como sucede, em certa situações, na Suécia, Noruega e Grécia. Na Áustria, Suíça, Alemanha e Finlândia o tempo de espera ronda os três meses. Mas em países como a Inglaterra e a República Checa o tempo de espera para um refugiado poder aceder ao mercado laboral ascende a 12 meses.

Sobre este tema, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, comentou que “acima de tudo as ações para os refugiados precisam de ser complementadas por medidas ativas focadas nos desafios de médio e longo prazo, visando estimular a integração dos refugiados e dos seus filhos e provocar uma recuperação da confiança relativamente às questões migratórias”.