Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Juros da dívida portuguesa descem. Mas preço dos cds continua a aumentar

  • 333

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos desceram para 2,76%. Mas custo dos seguros contra o risco de bancarrota (cds) subiu. Expetativa em relação à decisão sobre Portugal por parte da agência de rating canadiana na próxima sexta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields da dívida obrigacionista na zona euro estiveram em baixa esta quarta-feira. No caso das yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, chegaram a estar a subir ao início da manhã para 2,84%, mas, depois, desceram dois pontos base em relação ao fecho do dia anterior, fechando em 2,76%. Foi uma descida mais pequena do que a ocorrida hoje com as yields nos casos dos restantes periféricos do euro; oito pontos base para as obrigações gregas e três pontos base para as obrigações espanholas e italianas.

Em relação à sessão anterior às eleições legislativas portuguesas de 4 de outubro, as yields das OT no prazo de referência subiram 42 pontos base. No dia 9 de novembro, depois de conhecida a intenção dos quatro partidos da Oposição em colocarem no dia seguinte moções de rejeição ao programa do governo de coligação e em se entenderem para um programa de governo alternativo, as yields das OT naquele prazo chegaram a atingir 2,91%, o que, contudo, ainda fica a alguma distância dos máximos do ano, até à data, registados aquando da crise grega do verão com as yields daquelas OT a subirem até perto de 3,4% durante a sessão de 16 de junho.

Ampliou-se diferencial em relação a Espanha, Itália e Irlanda

O prémio de risco da dívida portuguesa desceu esta quarta-feira para 214 pontos base, o equivalente a um diferencial de 2,14 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência. Em virtude dessa descida muito ligeira, o diferencial entre o prémio de risco da dívida portuguesa e os prémios de risco da dívida espanhola, italiana e irlandesa ampliou-se uma vez mais. Desde 30 de setembro até ao fecho de hoje, a diferença em relação à dívida irlandesa passou de 116 para 159 pontos base; em relação à italiana passou de 67 para 112 pontos; e em relação à dívida espanhola passou de 49 para 91. O prémio de risco da dívida portuguesa sofreu uma subida diária de 19 pontos base na segunda-feira passada fechando em 219 pontos base.

Quanto aos credit default swaps (acrónimo cds), seguros contra o risco de bancarrota da dívida soberana portuguesa, a cinco anos, o seu preço subiu, de novo esta quarta-feira, para 203 pontos base. No quadro dos outros periféricos, o preço dos cds subiu hoje para a dívida grega, e desceu para as dívidas espanhola, irlandesa e italiana. Os preços dos cds para os cinco periféricos são os seguintes: 1041,30 pontos base para a dívida grega; 203 para a portuguesa; 97,19 para a italiana; 89 para a espanhola; e 43 para a irlandesa.

Durante a manhã tinha sido alimentada alguma expetativa em torno do Banco Central Europeu (BCE). O seu presidente poderia dar “sinais” sobre mudanças até final do ano na política monetária na intervenção que proferiu em Londres ao início da tarde na abertura de um fórum organizado pelo Banco de Inglaterra. Mas Mario Draghi acabou por frustrar os analistas.

À espera da decisão da DBRS sobre o rating português

As consequências da queda do governo de coligação em Portugal continuarão a ser avaliadas pelos analistas financeiros cuja expetativa se vira, agora, para a decisão que a agência de notação canadiana DBRS possa vir a anunciar na sexta-feira, já depois do fecho dos mercados na Europa, sobre a sua análise do rating da dívida portuguesa.

A agência de notação Fitch, uma das três grandes, foi a primeira a pronunciar-se sobre a nova situação política. Ao final da tarde desta quarta-feira considerou que "um relaxamento orçamental" por parte de um eventual novo governo poderá levá-la a tomar "uma decisão negativa em termos de rating" de Portugal.

A DBRS poderá não divulgar nenhuma alteração, ou alterar no sentido negativo a atual perspetiva “estável”, ou cortar a notação para dívida especulativa (vulgo “lixo financeiro”). Neste último caso, o impacto na semana seguinte seria crucial pois obrigaria o BCE a deixar de aceitar a dívida portuguesa como elegível para o programa de compras de dívida e como garantia para os bancos recorrerem às linhas normais de financiamento.

“O cenário mais provável é uma incerteza política sustentável durante alguns meses, com a DBRS a aguardar, dando tempo para ver como as coisas evoluem antes de se decidir por fazer um corte do rating de Portugal”, referiu-nos Neil Unmack, da Reuters «Breakingviews», que esta quarta-feira havia chamado a atenção para a importância da decisão de sexta-feira. “Se a DBRS tomar uma decisão mais cedo, então iremos assistir a quedas no mercado; as yields da dívida subirão e provavelmente manter-se-ão elevadas. Mas não creio que isso conduza a um novo resgate ou a uma corrida aos bancos. Portugal tem dinheiro. Mas os bancos poderão ter necessidade de recorrer à emergência de liquidez, o que é mais caro, e prejudicará a lucratividade”.

Marc Chandler, responsável pela estratégia de mercados na Brown Brothers Harriman & Co, em Wall Street, adianta que provavelmente a agência canadiana se limitará a alterar a perspetiva de estável para negativa, pois “nada ainda se alterou materialmente, por ora”. A mesma previsão é partilhada pelo professor Constantin Gurdgiev em Dublin, responsável pelo blogue “TrueEconomics”, que, no entanto, sublinha que “a probabilidade e o risco de um corte são bem reais” e não devem ser subestimados.

Nick Malkoutsis, editor adjunto da edição em inglês do jornal grego “Kathimerini”, recorda o "efeito dominó” do facto de a Grécia ter sido excluída do programa de compras do BCE e dos bancos gregos terem ficado restringidos ao financiamento através da linha de emergência de liquidez (conhecida pelo acrónimo ELA). “Se a DBRS optar por cortar o rating e levar à exclusão de Portugal do programa QE do BCE, isso poderá trazer complicações bem sérias para o novo governo”, conclui. Um dos aspetos que tem sido negligenciado na análise do que se passou na Grécia desde a chegada do Syriza ao poder em janeiro foi aquele efeito dominó, diz o editor helénico.

Para "acalmar" os analistas e investidores, Mário Centeno tem-se multiplicado em declarações. O tom foi dado no "Financial Times" na terça-feira pelo atual deputado do Partido Socialista que foi responsável pelo quadro macroeconómico do programa eleitoral e que é indicado como o próximo ministro das Finanças no caso de António Costa ser indigitado para formar governo. "Permaneceremos no caminho da consolidação orçamental. Não é a direção que colocamos em causa, mas a velocidade da viagem", disse Centeno a Peter Wise, o correspondente em Lisboa do influente jornal financeiro britânico.

Bolsas mundiais com ganhos ligeiros

No mercado bolsista, os ganhos do dia foram ligeiros, uma subida de 0,07% do índice MSCI para todos os países. Ganhos na Europa e na Ásia Pacífico, perdas nos Estados Unidos e situação neutra nas economias emergentes.

A Europa fechou com ganhos de 0,96%, com a maioria dos principais índices em terreno positivo, com exceção de Milão, cujo índice MIB caiu 0,26%. Entre as bolsas mais pequenas, Atenas liderou as descidas, seguida de Viena, Nicósia e Lisboa. O índice PSI 20 da Bolsa de Lisboa, depois de alguns ziguezagues durante o dia, tendo aberto em terreno positivo, acabou por fechar a perder 0,13%. É a terceira sessão consecutiva no vermelho, acumulando já um recuo de 4,5% durante esta semana. As bolsas de Helsínquia, Copenhaga e Bruxelas lideraram hoje as subidas, com ganhos acima de 1%.

Do outro lado do Atlântico, os índices de Wall Street e do Nasdaq fecharam ligeiramente em terreno negativo, e o índice MSCI para os EUA perdeu 0,34%. Recorde-se que as principais bolsas da Ásia Pacífico fecharam com descidas nas bolsas de Taipé e de Hong Kong e subidas em Xangai, Tóquio, Sidney, Seul e Mumbai. Globalmente, o índice MSCI para esta região ganhou 0,24%.