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Periféricos do euro em trajetórias divergentes nos juros da dívida. Portugal lidera subidas

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Os juros das obrigações portuguesas, gregas e espanholas subiram esta segunda-feira no mercado secundário, em contraste com as descidas para as obrigações italianas e irlandesas. Prémio de risco da dívida portuguesa sobe para 2,18 pontos percentuais

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro (OT) português, no prazo de referência, a 10 anos, chegaram a subir para 2,91% ao início da tarde, e acabaram por fechar, ligeiramente abaixo, em 2,85%, liderando esta segunda-feira as subidas no mercado secundário da dívida soberana na zona euro. A subida diária, de 16 pontos base, nas yields das OT, a 10 anos, foi a mais elevada entre os periféricos que participaram na trajetória altista desta segunda-feira. Em relação ao início de outubro, antes da realização das eleições legislativas antecipadas em Portugal, as yields subiram meio ponto percentual.

O prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 218 pontos base, o equivalente a 2,18 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência na zona euro.

No mercado de seguros contra o risco de incumprimento da dívida (designados por credit default swaps, acrónimo cds) num horizonte de cinco anos, o preço dos cds para a dívida portuguesa foi o que mais subiu esta segunda-feira, depois do relativo à dívida finlandesa. Os cds para a dívida portuguesa aumentaram hoje para 198,6 pontos base, uma subida de 16,98% em relação ao valor de fecho anterior.

As yields das OT a 10 anos e o prémio de risco estão ainda a alguma distância dos máximos do ano, até à data. O máximo nas yields registou-se durante a sessão de 16 de junho, atingindo 3,395%. O máximo no prémio de risco da dívida portuguesa verificou-se a 7 de julho registando 245 pontos base. As duas situações ocorreram no quadro da crise da dívida grega no verão (disparo do risco de bancarrota helénica em relação aos seus credores oficiais e possibilidade de uma saída da Grécia do euro defendida no Eurogrupo por uma maioria de ministros das Finanças).

Dois grupos no “clube” dos periféricos

Os movimentos observados esta segunda-feira no mercado secundário da dívida soberana na zona euro apontam para trajetórias divergentes no seio dos periféricos do euro. De um lado, as obrigações portuguesas, gregas e espanholas que registaram subidas das yields, ainda que com destaque para o caso das OT e das obrigações gregas com aumentos de dois dígitos; e, do outro, as obrigações italianas e irlandesas que registaram descidas. No prémio de risco observou-se um padrão próximo, com subidas nos casos de Portugal, Grécia, Espanha e Irlanda e descida no caso da Itália. A subida no caso do prémio de risco para a dívida irlandesa foi apenas de 1 ponto base contra 18 no caso português, 12 no caso grego e oito no caso espanhol.

A sessão foi marcada pelos desenvolvimentos políticos na Catalunha (aprovação de uma resolução que conduz a um processo de independência do estado espanhol em 2017) e em Portugal (início na Assembleia da República do debate do programa do atual governo de coligação que poderá cair amanhã) e pelo adiamento da autorização de pagamento pelo Eurogrupo da subtranche de 2 mil milhões de euros à Grécia, no âmbito do terceiro resgate. A questão catalã soma-se às expetativas sobre os resultados das eleições legislativas em Espanha a 20 de dezembro.

Conseguirá Draghi “anular” os riscos políticos recentes?

A partir de terça-feira, o Banco Central Europeu (BCE) aumenta o teto de 25% para 33% em relação à compra no mercado secundário de obrigações soberanas emitidas por cada país membro do euro, uma decisão que foi tomada na reunião de setembro, e que permitirá ampliar a flexibilidade do programa lançado em março.

A Reuters publicou esta segunda-feira um exclusivo em que quatro membros do conselho do BCE admitem que se está formar um “consenso” para se agravar a taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos nos cofres do BCE que foi fixada em -0,2% em setembro do ano passado e que, segundo um dos banqueiros centrais ouvido, poderia passar para mais de -0,3%. A opção poderá ser discutida na reunião de 3 de dezembro do BCE, ocasião em que será realizada uma reavaliação de todo o quadro de política monetária, como anunciou o presidente Mario Draghi.

Aquela taxa negativa serve de referência como teto para a aquisição de obrigações soberanas com yields negativas no âmbito do programa de compras do BCE. Neste momento há um conjunto de prazos em quatro países – Alemanha entre 12 meses e 3 anos; Áustria nos prazos de 1 e 2 anos; Finlândia nos prazos de 2 e 3 anos; e Holanda nos prazos de 2 e 3 anos - que registam yields negativas mais agravadas do que o teto de -0,2%.

A interrogação fica: estes movimentos do BCE serão suficientes para “anular” os riscos recentes que estão a ter impacto no mercado secundário da dívida nos casos de Portugal e Espanha? (A Grécia continua fora do programa de compras do BCE e Portugal corre o risco de sair se a agência canadiana DBRS tomar a decisão de cortar a notação da dívida portuguesa para o nível especulativo, vulgo “lixo financeiro”, no final desta semana, alinhando com a avaliação das outras três agências).