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PT já perdeu 300 quadros desde a entrada da Altice

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JOSÉ CARLOS CARVALHO

Mais de 50 dos melhores gestores e engenheiros foram para o estrangeiro

A PT está a assistir à debandada da maioria dos gestores e quadros técnicos mais qualificados nas áreas de redes e tecnologias de informação. Nas últimas semanas, mais de uma centena saiu pelo seu pé, aceitando propostas de empresas portuguesas e estrangeiras, nomeadamente operadoras e consultoras. O Expresso sabe que só para um operador da América Latina migraram nos últimos tempos mais de 30 dos melhores quadros da PT (sem contar com os que tinham ido para a Oi).

A este grupo junta-se a saída em bloco, no verão passado, de quase 200 especialistas do centro de competência em tecnologia Conceptwave/Ericsson que prestavam serviços à dona do Meo e a outros operadores de 11 países de quatro continentes. Alguns destes técnicos optaram por formar uma empresa que a partir de Portugal vai continuar a prestar os serviços aos mesmos operadores. A PT perdeu assim recursos humanos e um negócio que gerava €11 milhões por ano.

Entre os gestores, saíram nos últimos dias Celso Martinho, que dirigia o Sapo, Helena Féria, ex-responsável pela área grossista da PT Portugal, e Sérgio Carvalho, ex-administrador da PT Sistemas de Informação. Também Pedro Sardo, ex-diretor de Tecnologias de Informação da PT e que até há pouco ocupava cargo de CIO da Oi, decidiu não regressar a Portugal tendo ingressado na Vodafone do Reino Unido. De resto, a casa-mãe deste operador britânico tem vindo a ser um dos mais ativos no recrutamento de gestores e especialistas portugueses de telecomunicações. Além de Luís Lopes, ex-administrador da ZON/NOS, que é o atual diretor de comunicações unificadas da Vodafone. O grupo britânico tinha contratado, entre outros, Nuno Sanches para dirigir a área de rede fixa.

Na área de tecnologias de informação, um dos principais alvos está a ser a fábrica de software do portal Sapo. Alguns dos melhores programadores de linguagens informáticas, uma área de grande procura a nível mundial, têm vindo a ser contratados por consultoras e por empresas tecnológicas, inclusivamente pela nova vaga de startups portuguesas de rápido crescimento, como é o caso da Talkdesk.

Uma fuga de talentos que resulta, segundo alguns dos visados ouvidos pelo Expresso, não só dos cortes salariais e redução de regalias impostos pela Altice, como também pela falta de perspetivas profissionais aliciantes. “Portugal é um dos mais sofisticados mercados de telecomunicações e tinha formado um grupo de especialistas de nível mundial que agora corre o risco de perder”, afirma um ex-gestor da PT que prefere o anonimato. “A Altice apenas está preocupada com as áreas financeira e com a redução de custos e menos com a área de engenharia”, acrescenta. E receia que a longo prazo essa estratégia afete a qualidade das telecomunicações e a competitividade do país.

Oi e Altice chumbaram negócio PT/SIBS

A SIBS, empresa que gere os pagamentos eletrónicos e a rede de multibanco em Portugal, entregou as comunicações dos Caixas Automáticos (ATM) da rede Multibanco à Vodafone. O contrato com a PT Portugal acaba no final do ano e a renegociação foi feita na altura em que a Altice comprou a operadora portuguesa. O Expresso sabe que o contrato foi apreciado pela Oi, quando ainda controlava a PT Portugal, e voltou a este lado do Atlântico para ser analisado pelo novo dono, a Altice, mas não obteve luz verde.

A Vodafone aproveitou e ganhou o seu primeiro grande negócio no segmento empresarial. Falta apenas acertar detalhes, como a definição do âmbito total da rede e as soluções tecnológicas inovadoras que poderão vir a ser usadas noutras operações do grupo britânico. Com este acordo, a Vodafone passa a assegurar as comunicações dos cerca de 13 mil ATM — disponibilizando mais de 90 tipos de operações — da rede Multibanco. Em 2014, as operações nos ATM atingiram um volume próximo dos €900 milhões. O valor do contrato ainda não é conhecido, mas, em 2014, segundo o relatório e contas consolidado da SIBS, a empresa gastou €1,27 milhões em comunicações

O divórcio com a SIBS surpreendeu porque a relação entre a PT e a dona da rede Multibanco era antiga. Em 1989, a SIBS chegou a ter uma licença de operador de rede fixa, mas acabou por fazer uma parceria com o operador histórico português para construir a rede Multibanco, chegando a ter 25% do capital da PT Prime (antiga empresa da PT para o segmento empresarial).

A PT já tinha perdido no último ano para a NOS outros dois importantes clientes do sector financeiro — CGD e BPI —, embora tenha ganho nos últimos meses as comunicações da Caixa Agrícola, grupo Amorim e da Bial. Apesar de ter uma quota de 60% no mercado empresarial, parece evidente que a PT tenderá a estar menos presente no segmento das grandes organizações que implicam soluções à medida e complexos contratos de outsourcing. A Altice, nos países onde atua, tem preferido sempre ter ofertas massificadas (residencial e pequenas e médias empresas).

Usar tecnologia de Aveiro

Para dar um sinal de empenhamento no mercado português, a PT anunciou esta semana que vai investir na expansão da rede de fibra ótica para chegar a mais 3 milhões de casas nos próximos cinco anos (a um total de 5,3 milhões de casas). Uma infraestrutura que, segundo a operadora, também vai beneficiar as empresas. Para o efeito, Paulo Neves, presidente-executivo da PT Portugal, anunciou que a operadora vai tirar partido da tecnologia de fibra ótica desenvolvida em Aveiro pela PT Inovação que permite aumentar velocidade de acesso à fibra em 16 a 32 vezes (dos atuais 2,5 Gbps para 40 ou 80 Gpps).

Analista desconfia de resultados

“Vamos lá ver se entendi! De um modo geral, a PT era muito dura em relação aos custos e estes tipos vêm de França e cortam quase €80 milhões em custos em três meses. Vá lá rapazes, quem é que vocês estão a enganar?” É assim que um analista da casa de investimento Fidentiis Equities, avalia os resultados divulgados pela Altice sobre a operação em Portugal. A subsidiária portuguesa da empresa francesa divulgou resultados do terceiro trimestre na semana passada. As receitas caíram 9,4%, com o negócio empresarial a descer 11% e o negócio móvel 9%. Mesmo assim foi possível, de acordo com os dados divulgados pela Altice, fazer crescer o EBITDA devido a uma forte redução dos custos operacionais — 87 milhões de euros.

E é exatamente neste ponto que começam as dúvidas do analista. Para James McKenzie, é difícil acreditar nestes números. Em causa está a veracidade de toda a informação divulgada, já que a Altice arranjou uma forma muito própria de divulgar os números da operação portuguesa. No e-mail divulgado ao seus clientes, McKenzie diz que os resultados da PT são muito encorajadores para a NOS, porque os valores do EBITDA devem ser lidos “com uma pitada de sal”, devido às notas às contas que foram divulgadas.

FIBRA ÓTICA

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