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As crises têm um efeito negativo duradouro nas economias. Portugal é exemplo

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Em 69% dos 122 casos de recessão desde 1960 analisados pelo ex-economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, e pelo ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, Larry Summers, seguiu-se um período em que o produto ficou abaixo da tendência antes da crise e em 33% esse fosso foi crescente. Portugal é referido como caso ilustrativo

Jorge Nascimento Rodrigues

Portugal é um caso que ilustra a conclusão preocupante de um artigo publicado este fim de semana pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Desde 1960, as recessões na economia portuguesa, com exceção de um caso, ficaram associadas não só a um nível mais baixo do produto em relação à tendência anterior às crises, mas inclusive a uma redução da própria tendência de crescimento, ampliando o fosso entre o produto gerado e a tendência anterior.

O artigo vem assinado por dois nomes de peso. Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, e Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro do presidente Bill Clinton, juntamente com o economista Eugenio Cerutti, diretor no Departamento de Investigação do Fundo, publicaram “Inflation and Activity – Two Explorations and Their Monetary Implications”, um “Working Paper” (nº15/230), que, por detrás de um título relativamente opaco para o comum dos mortais, explora duas constatações empíricas – a de que nas economias desenvolvidas, o produto permanece muito abaixo da tendência anterior à recessão, e a inflação desceu mais do que o antecipado, o que tem sido bem ilustrado no caso da zona euro. O artigo é um desenvolvimento de uma comunicação que apresentaram este ano, em maio, no Forum do Banco Central Europeu em Sintra.

Os autores concluem que tudo indica que, num número significativo das 122 recessões que estudaram em 23 países desenvolvidos desde 1960, houve como herança um efeito negativo duradouro. Mais precisamente, em 69% dos casos, o produto anual permaneceu mais baixo em relação à tendência anterior, e em 33% o próprio crescimento económico passou a ser mais baixo, depois de a economia ter entrado na retoma. Nos casos que se seguiram a crises financeiras, as percentagens são até mais elevadas: 83% e 35% respetivamente.

A esse efeito chamam-lhe histerese, roubando o termo a outra área científica. A histerese provoca um retardamento. Por exemplo, como se refere na edição impressa do Expresso deste sábado, numa avaliação cinco anos depois dos periféricos do euro resgatados, no caso de Portugal, só em 2020 a economia voltará a produzir o mesmo – em termos reais – que produziu em 2007. Ou seja, 13 anos depois.

No entanto, os autores rejeitam que a dinâmica negativa que observaram seja marcada por uma “superhisterese”.

A desinflação (descida persistente da taxa de inflação, da variação positiva de preços no consumidor, para níveis cada vez mais baixos) surpreendeu muitos economistas, particularmente na zona euro. Os autores sublinham, no entanto, que uma situação de deflação – de inflação negativa persistente e generalizada – que sucedeu ao processo de desinflação parece ser limitada.

Os autores chamam a atenção que, em termos de ação dos bancos centrais das economias desenvolvidas, é necessária, face a uma situação de histerese (onde ela se verificar e enquanto permanecer), uma política monetária mais agressiva e sempre mais cedo do que mais tarde. “Estabilizar a inflação não é definitivamente a política ótima”, escrevem. "Estabilizar a inflação pode necessitar de grandes mudanças no fosso do desemprego [em relação à sua taxa "natural"] e conduzir a grandes perdas de bem estar", sublinham. Mas, noutros casos, é indispensável evitar “reações exageradas” na política monetária.