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Juros da dívida portuguesa sobem, mas não tanto quanto em Itália e Espanha

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A primeira semana de novembro fechou com os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos a subirem para perto de 2,7%, mas a maior pressão esteve sobre a dívida italiana e espanhola. Alta probabilidade de subida das taxas de juro em dezembro por parte da Fed anulou “efeito Draghi”

Jorge Nascimento Rodrigues

Foi uma semana de subidas no mercado secundário das yields da dívida obrigacionista na zona euro. Em relação ao fecho de outubro, o custo de financiamento no mercado secundário das obrigações no prazo de referência, a 10 anos, subiu mais acentuadamente nos casos de Itália e Espanha. No caso da dívida portuguesa, naquele prazo, as yields subiram de 2,54% a 30 de outubro para 2,69% a 6 de novembro.

O disparo da probabilidade de uma primeira subida das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana (Fed) já na próxima reunião de 16 de dezembro teve um impacto altista claro no custo de financiamento da dívida soberana dos membros da zona euro. A frase de Janet Yellen, a presidente da Fed, esta semana perante o Congresso em Washington, de que há uma “possibilidade real” de início em dezembro do processo de subida das taxas de juro anulou o “efeito Draghi”, a perspetiva de que o Banco Central Europeu (BCE) poderá proceder a mexidas na sua política monetária a 3 de dezembro ampliando estímulos.

Divergências de política monetária podem afetar periféricos

Em dezembro pode ocorrer uma convergência temporal de decisões de sentido contrário dos dois principais bancos centrais do mundo – Fed e BCE - cujo desfecho sobre o custo de financiamento da dívida soberana dos membros da zona euro, e em particular dos periféricos, introduz um elemento elevado de incerteza. A par dos desenvolvimentos políticos em Portugal e dos resultados das eleições em Espanha a 20 de dezembro, onde se desenvolve adicionalmente a crise soberanista na Catalunha.

Há uma probabilidade elevada de se materializar em dezembro uma divergência de fundo entre a perspetiva da Fed sair do terreno de taxas de juro em mínimos históricos perto de 0%, prosseguindo a desativação dos estímulos monetários lançados em finais de 2008, e o cenário, contrário, de um aumento de medidas de estímulo monetário pelo BCE na sequência da reavaliação que vai fazer para a reunião de 3 de dezembro. Outros dois bancos centrais importantes – o Banco do Japão e o Banco Popular da China – também poderão ampliar estímulos monetários até final do ano.

No mercado secundário, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT), a 10 anos, fecharam a semana a subir para 2,69%, um aumento de 15 pontos base (o equivalente a 0,15 pontos percentuais) em relação a 30 de outubro, mas o prémio de risco desceu dois pontos base, em virtude de uma subida maior das yields das obrigações alemãs que servem para o cálculo desse diferencial. O risco país fechou a semana em 200 pontos base, ou seja está 2 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã.

As yields das OT a 10 anos regressaram ao nível de meados de setembro, depois de terem descido até 2,3% no início de outubro (valores de fecho de 2 e 5 de outubro, antes e imediatamente depois das eleições legislativas em Portugal). Recorde-se que as yields naquele prazo atingiram um mínimo histórico de 1,51% em março, após o desencadear do programa de compra de dívida pública no mercado secundário pelo BCE, e um pico do ano, até à data, de 3,4% no auge da crise grega em junho.

Nesta primeira semana de novembro, a maior pressão, no prazo a 10 anos, registou-se nas yields das obrigações italianas e espanholas. As subidas entre 30 de outubro e 6 de novembro foram de 32 e 26 pontos base respetivamente. No caso das obrigações espanholas, as yields reaproximaram-se de 2%, fechando a semana em 1,93%. O prémio de risco da dívida espanhola foi o que mais subiu na zona euro, com um aumento de nove pontos base durante a semana, registando sexta-feira 124 pontos base (um diferencial de 1,24 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã).

Apenas as yields das obrigações gregas desceram durante a semana. No prazo a 10 anos desceram de 7,95% a 30 de outubro para 7,71% no fecho desta semana, e o prémio de risco caiu 41 pontos base para 702 pontos base (um diferencial de mais de 7 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã). Recorde-se que a dívida grega continua excluída do programa de compra do BCE.

Oito países do euro com yields negativas

Apesar da subida das yields, é ainda muito amplo o grupo de prazos da dívida obrigacionista de diversos países membros do euro que regista taxas negativas – ou seja, dívida em que os investidores “pagam” aos estados emissores para deter esses títulos em carteira. Oito países do euro – Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda, Irlanda e Itália – registam yields negativas em vários prazos da sua dívida obrigacionista. Alemanha, Áustria, Bélgica e Holanda registam yields negativas até ao prazo de 4 anos inclusive. Ate quinta-feira também Espanha registava yields negativas na dívida obrigacionista a 12 meses.

Esse grupo, mais ou menos amplo (a Alemanha ainda recentemente registava yields negativas até 6 anos inclusive), cria um problema ao BCE. Em alguns prazos, as yields ficam fora do perímetro de obrigações soberanas que o banco chefiado por Draghi pode comprar no mercado secundário. O BCE compra, desde março, dívida com 2 ou mais anos de prazo desde que as yields não ultrapassem, em terreno negativo, um limiar de -0,2% (a taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos nos cofres do BCE). Ora, neste momento, há seis países – Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França e Holanda – em que as yields em prazos de 2 e 3 anos, consoantes os casos, estão em níveis ainda mais negativos. O que tem levado muitos analistas a falarem da necessidade do BCE ponderar o agravamento da taxa negativa de remuneração dos depósitos, que serve de referência também para a intervenção no mercado secundário da dívida.