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O que fazer a um banco com ações a €0,0019

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Estado pode ser obrigado a reforçar o capital do Banif. Alternativa é vender com perdas avultadas

À venda desde 2013, o Banif continua sem ter quem queira comprá-lo por €700 milhões, o valor que o Estado injetou no seu capital. O problema é que o banco vale cada vez menos na Bolsa: esta semana caiu para o valor mais baixo de sempre, cerca de €100 milhões, com as ações a valerem uns impressionantes €0,0019, ou seja, 19% de um cêntimo.

No limite o Estado pode esperar até 2017 para ver se consegue recuperar os €700 milhões que injetou diretamente no banco — prazo até ao qual a União Europeia permite a sua permanência no capital do Banif. Além disso, emprestou €400 milhões mas o banco só pagou €275 milhões. Devia ter pago €125 milhões em janeiro. Se entretanto o banco continuar a não ter condições para pagar os €125 milhões do empréstimo em obrigações convertíveis (CoCos), então o Estado terá de converter esse valor em capital. Isto porque esse empréstimo pode ser considerado pela Direção-Geral de Concorrência europeia (DGCom) como uma ajuda de Estado não compatível com as regras europeias. Nesse caso, este valor terá de ser levado ao défice quando a conversão em capital se concretizar.

Outro cenário que é considerado provável é o Estado vender os 60% que tem por um valor muito inferior ao que colocou no Banif. O Expresso sabe que quer o banco quer o Estado apostam num valor de €350 milhões, ou seja, metade dos €700 milhões que já foram contabilizados no défice de 2013. Isto já contando com os €125 milhões.

A cotação do Banif bateu no fundo no dia 28 de outubro quando desceu ao novo mínimo histórico de €0,0019 por ação. Recuperou no dia seguinte 32% e fechou a valer €0,0029, ou seja, 29% de um cêntimo. As ações do banco acumulavam em 2015 perdas de 50% até ao fecho de 29 de outubro, dia em que o banco valia em Bolsa €132 milhões.

O incumprimento do pagamento da última tranche de CoCos por parte do Banif desde janeiro de 2015 levou a DGCom a avançar com uma investigação aprofundada. A concorrência europeia quer saber se o auxílio que o Estado concedeu ao banco é compatível com as regras em matéria de auxílios estatais. A decisão tarda em chegar e o Expresso sabe que as Finanças têm mantido contactos regulares com Bruxelas sobre o assunto. Isto porque o que ditar a concorrência terá de ser acatado pelo Estado.

Terá sido este o problema que a ministra das Finanças terá referido na reunião que teve com o PS. Maria Luís de Albuquerque disse há uma semana que não tinham sido “suscitadas quaisquer preocupações ou informações sobre temas que não sejam do conhecimento público, como é o caso do processo de privatização da TAP ou a investigação aprofundada sobre o Banif”. E, pesando os prós e os contra, uma coisa é certa, “o Estado e a DGCom e até o Banco de Portugal veem com bons olhos a venda do Banif o quanto antes”, refere uma fonte ligada ao processo.
Até agora o Banif não conseguiu atrair investidores institucionais para comprar o banco mas, segundo já noticiou o Expresso, há manifestações de interesse de investidores internacionais, nomeadamente bancos e fundos, sobretudo asiáticos. Propostas concretas não se conhecem.

A reestruturação não viabilizada por Bruxelas

O caminho não tem sido fácil para o Banif. Apesar de ter avançado para uma reestruturação da operação doméstica em 2011, através da qual reduziu o número de trabalhadores em 32% (de 2683 para 1802), e fechou 52% da rede de balcões (de 344 para 166), a DGCom ainda não aprovou o plano de viabilidade do banco liderado por Jorge Tomé. Reduziu o rácio de transformação de 139,2% para 104% a 30 de junho e a exposição ao Banco Central Europeu de €2804 milhões para €1383 milhões. Vendeu o Banco Mais por €400 milhões e regressou aos lucros no primeiro semestre deste ano (€16,1 milhões contra um prejuízo de €97,9 milhões em igual período de 2014). A margem financeira também melhorou, mas ainda terá de haver ajustes na carteira imobiliária. Para a DGCom, estes sinais não serão suficientes. Os acionistas minoritários não estão dispostos a reforçar no banco e as vendas no exterior não se têm concretizado.

O banco tem expectativas de fechar as negociações para a venda de 78,9% da operação que tem em Malta até ao final do ano. Na corrida estão fundos de investimento norte-americanos e investidores do Médio Oriente. Em paralelo corre a venda de 51% que o Banif tem na seguradora Açoreana. Uma operação que apenas este ano contou com a concordância das herdeiras de Horácio Roque, donas dos restantes 49%, para a venda seguir em frente. Esta operação, contudo, não deverá estar fechada este ano, segundo apurou o Expresso. Isto apesar de o Banco Popular e a Allianz já terem apresentado ofertas não vinculativas para comprar a companhia de seguros. Também manifestaram interesse o fundo americano Apollo, que adquiriu a Tranquilidade.