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Investigação a manipulação da dívida portuguesa revelada em 2012

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Notícia do Expresso de junho de 2012 deu conta da abertura dos nomes envolvidos no inquérito do DIAP. Revelava então que artigos de Simon Johnson e Peter Boone teriam beneficiado investidores, entre os quais um dos maiores “hedge funds” do mundo

As suspeitas de manipulação da dívida pública nacional remontam a 2010, em plena crise da dívida na zona euro, poucos dias antes do pedido de resgate grego. Portugal estava na primeira linha do contágio e era, para muitos analistas, um dos próximos países a cair depois da Grécia. Acabou por ser o terceiro, já só um ano depois, uma vez que a Irlanda tomou a dianteira e caiu em novembro de 2010.

A notícia sobre os envolvidos na investigação da manipulação foi avançada pelo Expresso mais de dois anos depois, em junho de 2012. O artigo intitulado “Quem tramou Portugal?” dava conta que o DIAP tinha aberto uma investigação ao caso e que os visados eram, não apenas os dois autores do artigo – Simon Johnson (ex-economista chefe do FMI) e Peter Boone (economista e analista de mercado) – mas também investidores que teriam beneficiado com as análises negativas dos dois economistas.

Entre os quais, era referido o nome de John Paulson, líder de um dos maiores hedge funds mundiais, e que poderia estar articulado, segundo referia então o Expresso, com Peter Boone. Boone é, para já, o único visado pelo processo do Ministério Público.

Embora houvesse outros artigos analisados, o principal era um texto de Boone e Johnson publicado a 15 de abril que colocava Portugal como o próximo país a cair. Entre outras coisas, fazia referência à inevitabilidade de um resgate e falava mesmo de um esquema Ponzi (um esquema em pirâmide) na dívida portuguesa.

Escrevia então o Expresso: “No dia em que o artigo saiu, os juros da dívida portuguesa a dez anos rondavam os 4,4%. Na semana seguinte, passaram a barreira dos 5%. A Grécia acabou por pedir um resgate a dia 23 de abril, que foi aprovado pela troika no início do mês de maio de 2010, num fim de semana em que foi também aprovada a criação do fundo de resgate europeu (FEEF). Este foi o primeiro de uma série de artigos diretamente relacionados com a dívida pública portuguesa que a CMVM considera suscetíveis de terem servido para manipular o mercado e eventualmente servido para beneficiar investidores que apostavam na queda das cotações (ou subida dos juros).”

Revelava ainda que “a abertura do processo que contou com o apoio da Securities & Exchange Comission (SEC), o supervisor da Bolsa nos EUA, foi anunciada na Assembleia da República pelo presidente da CMVM, Carlos Tavares em sede da audição na Comissão de Orçamento e Finanças”. O regulador não disse, no entanto, quais as entidades ou as personalidades visadas.

Quem são os envolvidos?

John Paulson
Gestor do fundo Paulson & Co

Fundador e presidente do Paulson & Co, um dos maiores hedge funds do mundo, com sede em Nova Iorque. Ficou milionário em 2007 ao apostar contra os ativos do subprime (hipotecas de alto risco) e voltou a ter lucros astronómicos em 2010. Grande parte foram apostas na crise da dívida europeia, em particular com credit default swaps (derivados para cobertura de risco de incumprimento). Está na lista dos mais ricos dos EUA e do mundo, com uma fortuna avaliada em 11,4 mil milhões de dólares (10,3 mil milhões de euros), segundo os últimos dados da revista “Forbes” avançados em setembro deste ano.

Peter Boone
Economista e gestor

É investigador associado da London School of Economics (LSE), no Reino Unido. Foi fellow do Peterson Institute, onde está também Simon Johnson, é gestor da Salute Capital Management (empresa de gestão de ativos) e fundador e presidente da Effective Intervention, uma organização de caridade britânica. Doutorado em Harvard, foi professor na LSE na década de 90, consultor de vários governos e diretor do departamento de research do banco UBS-Brunswick em Moscovo.

Simon Johnson
Economista e professor no MIT

Académico de origem britânica e com nacionalidade americana, estudou em Manchester e Oxford antes de atravessar o Atlântico para se doutorar no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde atualmente dá aulas na Sloan School of Management. É fellow do Peterson Institute, autor do site BaselineScenario.com e conselheiro do Federal Deposit Insurance Corporation (regulador que garante os depósitos). Foi economista-chefe do FMI entre 2007 e 2008 e membro do Congressional Budget Office dos EUA (o órgão do Congresso que analisa as contas públicas).