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Fed não mexe na política monetária e deixa em aberto o que poderá decidir em dezembro

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A Reserva Federal norte-americana decidiu, no final de uma reunião de dois dias, não iniciar um processo de subida das taxas de juro que permanecem num intervalo entre 0% e 0,25% e não abre o jogo sobre o que poderá aprovar na reunião seguinte em dezembro

Jorge Nascimento Rodrigues

O Comité de Política Monetária da Reserva Federal norte-americana (Fed) decidiu por 9 votos a favor e 1 contra não mexer no quadro de política monetária, nomeadamente não optar pelo anúncio de um processo de início de subida das taxas de juro que se têm mantido em mínimos históricos num intervalo entre 0% e 0,25% desde 16 de dezembro de 2008, na sequência da grande crise financeira. Considerou, de novo, agora, esse quadro “apropriado”. Este resultado era o esperado pelos analistas.

O Comité reuniu-se terça e quarta-feira e apenas um dos seus membros, Jeffrey M. Lacker, presidente do Banco da Reserva Federal de Richmond, votou a favor do início imediato do processo de subida de juros, com um aumento de 0,25 pontos base (1/4 de ponto percentual). O mesmo havia ocorrido na reunião de setembro. As atas da reunião desta semana só serão divulgadas a 18 de novembro.

A questão pertinente para os analistas é “interpretar” o comunicado da Fed no sentido de encontrar sinais de que o início do processo de subida poderá ocorrer na próxima reunião do comité a 15 e 16 de dezembro, quando serão também divulgadas as projeções económicas e se realizará uma conferência de imprensa pela sua presidente Janet Yellen.

Em declarações anteriores, Yellen e alguns dos membros do comité e do sistema de bancos da Reserva Federal apontaram para a comunicação da decisão de início do processo de subida dos juros até final do ano, o que implicaria tornar pública a opção na reunião de dezembro, a última do ano.

Subida da probabilidade

As probabilidades inferidas dos futuros dos juros da Fed não têm apontado para tal. Contudo, o “observatório” da CME para os futuros dos juros da Fed aponta, agora, para uma subida da probabilidade de início do processo já em dezembro. A 23 de outubro, a probabilidade para 16 de dezembro era de 39%; hoje, a probabilidade já é de 47%. Para a reunião de 27 de janeiro, a probabilidade era de 47% no final da semana passada e passou hoje para 55%.

O comunicado desta quinta-feira continua a deixar tudo em aberto, mas muitos analistas estão a interpretá-lo como abrindo a porta "mais explicitamente do que antes" a uma subida dos juros na reunião de dezembro, como refere, por exemplo, o "The Wall Street Journal".

Pode ler-se no comunicado da Fed: “Ao determinar se será conveniente aumentar o intervalo alvo [dos juros] na sua próxima reunião [em dezembro], o Comité irá avaliar a evolução - tanto realizada como esperada - em direção aos seus objetivos de pleno emprego e de 2% de inflação. Essa avaliação terá em conta uma vasta gama de informações, incluindo medidas relativas às condições do mercado de trabalho, indicadores das pressões inflacionárias e das expectativas de inflação, e dados sobre a evolução financeira e desenvolvimentos internacionais”. Os analistas interpretam a menção explícita à próxima reunião como sinal de maior probabilidade de uma decisão que coloque fim ao quadro de taxas de juro definido em dezembro de 2008.

As palavras usadas na declaração da reunião de setembro, referindo que a Fed "está a monitorizar os desenvolvimentos no estrangeiro", foram retiradas agora. Uma outra frase do comunicado de setembro foi eliminada: "Desenvolvimentos económicos e financeiros globais recentes podem restringir um pouco a atividade económica e são susceptíveis de colocar ainda mais pressão descendente sobre a inflação no curto prazo".

No entanto, o comunicado de outubro frisa: “O Comité antecipa que será conveniente aumentar o intervalo alvo para a taxa dos juros federais quando se verificarem mais algumas melhorias no mercado de trabalho e quando estiver razoavelmente confiante de que a inflação vai regressar ao seu objetivo de 2% no médio prazo”. Ou seja, precisa de ver mais melhorias no emprego e ficar confiante que a trajetória de subida da inflação para a meta de 2% é segura.

Condições económicas continuam debaixo de olho

Mas, mesmo nessa altura, quando o Comité “decidir começar a remover a orientação acomodatícia da política [monetária], não deixará de fazer uma abordagem equilibrada consentânea com os seus objetivos a longo prazo de pleno emprego e inflação de 2%”. Isto significa que, dentro da sua prudência, a Fed “atualmente antecipa que, mesmo depois de o emprego e da inflação estarem em níveis consistentes próximos do mandato [da Fed], as condições económicas podem, por algum tempo, justificar a manutenção da meta para os juros federais abaixo dos níveis que o Comité vê como normais a longo prazo”.

Ora, as “condições económicas”, quer domésticas quer globais, têm de ser seguidas de perto. O comunicado refere que “o crescimento do emprego tem abrandado” e a inflação continua abaixo da meta, aliás substancialmente abaixo, em 0% em setembro, mesmo assim melhor do que a previsão dos analistas que apontava para a entrada em terreno negativo. E a Fed antecipa que a inflação nos EUA continuará perto do seu atual nível baixo. O impacto da quebra do preço das matérias-primas continua. Os desenvolvimentos nos mercados financeiros internacionais e a economia global estão a ser “monitorizados”.

Para o analista norte-americano Mike Shedlock, caso a Fed opte por uma subida em dezembro, esse primeiro passo será mais pequeno do que se pensa, provavelmente fixando um intervalo entre 0,125% e 0,375%, e não uma subida para 0,25% a 0,50% como a maioria dos analistas prevê, com um aumento de 0,25%.

Wall Street cai e recupera

A reação imediata em Wall Street ao comunicado da Fed foi uma quebra nos índices Dow Jones e S&P 500 para níveis abaixo do fecho do dia anterior, mas depois começou a recuperar e deverão fechar a sessão de quarta-feira com ganhos.

As bolsas europeias fecharam antes da publicação do comunicado pela Fed. As bolsas de Bruxelas, Milão, Lisboa, Frankfurt, Londres, Amesterdão e Viena encerraram a sessão desta quarta-feira com ganhos acima de 1%.