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Juros da dívida descem em semana de reunião do BCE

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O ‘efeito Draghi’ beneficiou os juros da dívida dos periféricos, e sobretudo Espanha e Itália. Juros das Obrigações do Tesouro português desceram durante a semana. Nove países do euro têm taxas negativas

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, desceram durante a semana no mercado secundário sete pontos base (equivalente a sete centésimas; 100 pontos base equivalem a 1 ponto percentual) fechando em 2,37%. Chegaram a registar 2,32% no encerramento de quinta-feira com o efeito positivo imediato das palavras de Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), durante a conferência de imprensa que se seguiu à conclusão da reunião do seu conselho em Malta.

Recorde-se que o italiano anunciou ao começo da tarde de quinta-feira que o banco central irá “reavaliar” as medidas de “alívio” monetário na reunião de 3 de dezembro, sinalizando a possibilidade de ampliar em 2016 o “grau de alívio” em várias dimensões da política monetária, como comentou o analista norte-americano Marc Chandler.

Tendo fechado em 2,44% a 16 de outubro, as yields das OT naquele prazo de referência variaram ao longo da semana que findou, chegando a subir para 2,51% durante a manhã de quinta-feira, antes da conferência de imprensa dada pelo presidente do BCE, descendo para 2,24% na abertura de sexta-feira, tendo, depois, iniciado uma trajetória de subida, com o ‘efeito Draghi’ a esmorecer ao longo da última sessão da semana.

Já depois do fecho da sessão na quinta-feira, no dia do ‘efeito Draghi’, o presidente da República portuguesa indigitou o primeiro-ministro incumbente para formar novo governo na sequência dos resultados eleitorais de 4 de outubro. Apesar do aquecimento do clima político em Portugal, as yields das OT alinharam com as trajetórias verificadas para o conjunto dos periféricos do euro. A descida semanal das yields no prazo a 10 anos nas OT foi similar à registada para as obrigações irlandesas. Em relação a 2 de outubro, antes das eleições legislativas, as yields das OT estão apenas três pontos base acima.

As obrigações soberanas que mais beneficiaram do ‘efeito Draghi’ foram as espanholas (OE) e italianas (BTP). No prazo a 10 anos, as yields das OE desceram ao longo da semana 13 pontos base, fechando na sexta-feira em 1,63%, e as yields das BTP recuaram 11 pontos base no mesmo período, encerrando a semana em 1,5%.

Prémio de risco cai

O prémio de risco desceu para os periféricos, mais um sinal positivo no panorama da dívida soberana na zona euro.

O prémio de risco da dívida portuguesa desceu três pontos base, fechando a semana em 186 pontos base, o equivalente a um diferencial de 1,86 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã que serve de referência. O prémio de risco é medido pela diferença entre as yields da dívida a 10 anos de um dado país e as registadas para as Bunds (designação das obrigações alemãs) no mesmo prazo.

As descidas mais significativas registaram-se para os prémios de risco das dívidas grega e espanhola, que recuaram, durante a semana, 14 e 13 pontos base. O prémio de risco mais baixo entre os periféricos verifica-se com a dívida irlandesa, registando 58 pontos base (pouco mais de meio ponto percentual de diferença em relação ao custo de financiamento da dívida alemã). O prémio de risco da dívida italiana desceu para menos de 1 ponto percentual e o da dívida espanhola está em 1,12 pontos percentuais.

Nove economias com juros negativos

Outro efeito marcante da expetativa de que o BCE irá reforçar os estímulos monetários foi a ampliação do número de prazos na dívida obrigacionista de membros do euro que registam taxas negativas, ou seja, títulos que os investidores se dispõem a adquirir mesmo tendo de "pagar" para tal aos emissores de dívida soberana.

No fecho da semana, nove países do euro registavam yields negativas em vários prazos no mercado secundário: Alemanha (de 12 meses a 6 anos), Áustria (de 12 meses a 5 anos), Bélgica (de 12 meses a 4 anos), Espanha (a 2 anos), Finlândia (de 2 a 5 anos), França (de 1 a 4 anos), Holanda (de 2 a 5 anos), Irlanda (de 1 a 3 anos) e Itália (a 1 ano). No caso das obrigações alemãs, as taxas negativas abrangem o leque mais amplo na zona euro.

Um detalhe importante é que, em muitos destes prazos, as yields registadas estão atualmente num terreno ainda mais negativo do que -0,2%. São os casos da Alemanha (de 12 meses a 4 anos), Áustria (de 12 meses a 3 anos), Bélgica (de 12 meses a 3 anos), Finlândia (2 e 3 anos), França (1 e 2 anos), Holanda (2 e 3 anos) e Irlanda (2 anos).

Recorde-se que o BCE adquire no mercado secundário, desde março, dívida obrigacionista dos estados membros do euro de 2 a 30 anos desde que a sua remuneração negativa não ultrapasse -0,2% (o limiar fixado como referência, a partir da taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos da zona euro nos cofres do BCE).

No caso de o BCE optar, a 3 de dezembro, por rever aquela taxa de remuneração de depósitos para um valor ainda mais negativo (como por exemplo sucede na Suíça, um caso que Draghi declarou estar a ser estudado), o referencial para a aquisição de dívida obrigacionista com taxas negativas levará à ampliação do número dos prazos que passarão a ficar no perímetro dessas compras.

Uma semana de “alívios” monetários

Esta semana foi marcada pela reunião do BCE em Malta que deixou o sinal de mexida na política monetária em dezembro e pela decisão do Banco Popular da China (BPC), banco central, em optar por mais medidas de “alívio” monetário face ao abrandamento do ritmo da economia chinesa para um patamar abaixo da meta política de 7%.

O banco central da China decidiu que, a partir de hoje, 24 de outubro, a taxa diretora de juros dos empréstimos que concede a 1 ano baixa para 4,35% e que a taxa de remuneração de depósitos dos bancos nos cofres do BPC desce para 1,5%. Foi a sexta opção por cortes desde novembro de 2014. O banco central chinês aprovou ainda diminuir o rácio de reservas obrigatório para os bancos reduzindo-o em 50 pontos base (equivalente a meio ponto percentual) como regra geral e 100 pontos base (equivalente a 1 ponto percentual) especificamente para o bancos que financiam empresas agrícolas e PME.

Os mercados bolsistas reagiram muito positivamente a este clima de “alívio monetário” da parte de dois dos mais importantes bancos centrais do mundo.

As maiores valorizações semanais registaram-se nas principais bolsas da zona euro, com destaque para os índices Dax de Frankfurt (subiu 6,83%) e Cac 40 de Paris (avançou 4,7%). Seguiram-se no “clube” dos maiores ganhos semanais, as bolsas de Atenas, Amesterdão, Dublin, Estocolmo, Nova Iorque (índice Nasdaq) e Tóquio (índice Nikkei 225). O índice Eurostoxx 50 – das 50 principais cotadas na zona euro – valorizou 4,93%. O efeito na zona euro não se fez sentir nas bolsas de Chipre, Malta e Talin, que registaram perdas, ainda que ligeiras, e foi fraco para as bolsas de Lisboa (índice PSI 20 apenas valorizou 0,64%), Vilnius (mais 0,13%) e Bratislava (mais 0,32%).

O euro desvalorizou 2,4% face ao dólar durante a semana, com a queda mais acentuada na sexta-feira, registando uma quebra de 2,02% no dia seguinte à conferência de imprensa de Draghi, fechando a semana com o euro a valer 1,1084 dólares. A 16 de outubro, o euro trocava-se por 1,1360 dólares.

Próxima semana movimentada

A última semana de outubro vai ser marcada por três acontecimentos com probabilidade elevada de influenciar o andamento dos mercados financeiros.

A 26 de outubro inicia-se a reunião do 18º Comité Central do Partido Comunista da China destinada a aprovar o 13º plano quinquenal. A conclusão do conclave está prevista para dia 29. Se o debate entre os delegados empurrar as metas de crescimento anual para um patamar abaixo dos 7% até 2020, os mercados financeiros internacionais vão agitar-se. O impacto mundial de um crescimento anual chinês de mais ou menos meio ponto percentual é relevante. A China representa 16,6% da economia mundial, mais do que os Estados Unidos ou a Zona Euro, e domina 10,5% das exportações mundiais, mais do que os EUA. Representa também a maior concentração de classe média do mundo, com 110 milhões de cidadãos classificados nesse estatuto face a 92 milhões nos EUA.

A 27 de outubro, o Riksbank, o banco central da Suécia, vai reanalisar o quadro de política monetária, nomeadamente a atual taxa diretora de juros que está em terreno negativo, tendo sido fixada em -0,35% desde julho. O interesse pela política de “alívio” monetário daquele país escandinavo aumentou desde que Mario Draghi referiu que o BCE tem estado atento à “experiência de outros bancos centrais” e que “agora estamos a pensar sobre isso [sobre juros em níveis negativos]”.

Finalmente, a Reserva Federal norte-americana (Fed) vai realizar a 27 e 28 de outubro a sua penúltima reunião do ano sobre política monetária. Os investidores vão estar atentos aos “sinais” que forem dados pelos membros do comité federal e pela presidente Janet Yellen no sentido de avaliar se efetivamente a Fed vai iniciar ainda este ano o processo de subida das taxas de juro atualmente perto de 0%. A última reunião do ano realizar-se-á a 15 e 16 de dezembro.

As probabilidades de que essa decisão seja anunciada na conclusão das próximas três reuniões da Fed (28 de outubro; 16 de dezembro; e 27 de janeiro de 2016) são inferiores a 50%, segundo o observatório da CME para os futuros das taxas de juro da Fed. A probabilidade de ser anunciada na próxima semana é apenas de 6% e sobe para 39% em relação a dezembro e 47% em relação a janeiro do próximo ano. A probabilidade é de 60% no caso da reunião que termina a 16 de março de 2016. A taxa efetiva de juros da Fed foi em setembro de 0,14% e o intervalo de variação estabelecido em 16 de dezembro de 2008 é de 0 a 0,25%. As probabilidades apontam para uma subida de 50 pontos base em março.

  • Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, referiu em conferência de imprensa esta quinta-feira, em Malta, que a descida da inflação na zona euro exige uma reanálise do quadro de política monetária na reunião de 3 de dezembro

  • Depois de uma abertura com os juros das obrigações em baixa na zona euro, a trajetória inverteu-se. Juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos variaram entre 2,24% na abertura e 2,36% a meio da manhã. O quadro de subida é geral nos periféricos, com exceção da Irlanda