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Portugal sozinho na subida de juros da dívida obrigacionista

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As Obrigações do Tesouro português a 10 anos foram as únicas na zona euro a registar uma subida dos juros no mercado secundário esta quarta-feira. IGCP colocou dívida a 3 meses pagando uma taxa de remuneração negativa

Jorge Nascimento Rodrigues

A um dia de subidas das yields das dívidas obrigacionistas na zona euro no mercado secundário seguiu-se um outro de descidas, com exceção de Portugal. As flutuações continuam a dominar este mercado da dívida soberana, alimentadas pela expetativa otimista ou pessimista em relação a “sinais” que possam ser dados na quinta-feira na conclusão da reunião sobre política monetária do Banco Central Europeu (BCE).

Esta quarta-feira, as yields das Obrigações do Tesouro português (OT) a 10 anos foram as únicas a registar uma trajetória ascendente, ainda que tenham fechado a sessão com uma subida de apenas três pontos base (três centésimas; 100 pontos base equivalem a 1 ponto percentual).

As yields das OT no prazo de referência fecharam esta quarta-feira em 2,45%, um diferencial de 11 pontos base em relação ao fecho a 2 de outubro, antes das eleições legislativas em Portugal, cujos resultados provocaram a perda de maioria absoluta pela coligação governamental incumbente.

A subida registada esta quarta-feira, de três pontos base nas yields das OT a 10 anos, é relativamente pequena em relação a subidas diárias significativas superiores a 10 pontos base em várias sessões entre abril e julho durante o contágio grego, com picos de disparos diários de 30 pontos base em 5 de maio e 38 pontos base em 29 de junho (o maior disparo diário do ano, até agora). A 6 de outubro a subida foi de oito pontos base e a 14 de outubro de seis pontos base, variações diárias pequenas em comparação com os momentos do impacto da crise grega que empurraram as yields das OT a 10 anos para quase 3,3% a 15 de junho e 3,2% a 29 de junho e 6 de julho, os níveis mais elevados, até à data, desde os mínimos históricos de março.

Em virtude da trajetória ascendente durante esta quarta-feira, o prémio de risco da dívida portuguesa subiu para 188 pontos base (o equivalente a um diferencial de quase 1,9 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã a 10 anos, que serve de referencia). Em relação a 2 de outubro, a subida foi de cinco pontos base.

No mercado primário, a agência de gestão da dívida pública portuguesa, o IGCP, colocou 1400 milhões de euros em dívida de muito curto prazo em Bilhetes do Tesouro a 3 e 11 meses. No prazo mais curto pagou uma taxa de remuneração média negativa de -0,021%, superior à registada em emissão similar anterior. Espanha, na terça-feira, havia colocado dívida a 3 meses pagando uma taxa negativa ainda mais elevada, de -0,081%. Os investidores em dívida soberana de muito curto prazo emitida por periféricos do euro dispõem-se a “pagar” para deter esta dívida em carteira.

A descida mais significativa no mercado secundário da dívida na zona euro registou-se com as yields das obrigações gregas a 10 anos que fecharam a recuar 23 pontos base para 7,67%. As yields destas obrigações atingiram um pico do ano a 8 de julho registando 19,34%, no auge do risco de uma bancarrota da dívida helénica em mão dos credores oficiais e de uma ameaça de saída do euro (Grexit), ainda que temporária, uma hipótese que chegou a ser defendida no Eurogrupo por Wolfgang Schäuble e apoiada por uma maioria de 15 ministros de Finanças da zona euro (incluindo a ministra portuguesa), segundo revelou recentemente o ministro alemão em entrevista ao jornal francês "Libération".

Em Atenas decorreu o primeiro dia de reuniões entre os credores oficiais, uma “quadriga”, na designação usada pela imprensa helénica, formada pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE), Fundo Monetário Internacional e Mecanismo Europeu de Estabilidade, e o governo grego no âmbito do primeiro exame ao andamento do terceiro resgate. O Conselho de Ministros helénico vai apreciar na quinta-feira o andamento do conjunto das 49 ações prioritárias exigidas pelo Eurogrupo, estando 15 já aprovadas pelo Parlamento, e também o pacote de medidas a tomar no que é designado por programa paralelo, destinado a contrabalançar os impactos das medidas de austeridade exigidas pelo terceiro resgate.

As boas notícias divulgadas hoje em Atenas centraram-se na previsão pelo governo de que a recessão em 2015 será inferior ao previsto, podendo situar-se num recuo de 1,4% ou 1,5% do PIB, em vez de 2,3% iniciais, e no excedente externo acumulado nos primeiros oito meses do ano que soma 936 milhões de euros. No plano orçamental, o governo grego obteve um excedente primário orçamental (sem incluir os juros da dívida) de 635 milhões de euros no segundo trimestre do ano depois de um défice de 1,64 mil milhões de euros no primeiro trimestre.

A atenção dos investidores estará centrada na quinta-feira na conclusão da reunião do BCE em Malta e em particular na conferência de imprensa que o seu presidente, Mario Draghi, dará pelas 13h30. A questão que continua a dominar as análises é saber se o BCE irá ampliar o seu atual programa de compra de dívida soberana da zona euro no mercado secundário, que, desde março até 16 de outubro, já totalizou mais de 370 mil milhões de euros.