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Juros da dívida da zona euro em maré de subidas

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O otimismo dos analistas esperando um sinal iminente do BCE para uma ampliação do programa de compra de dívida parece estar a desvanecer-se a menos de 48 horas da divulgação das decisões da reunião dos banqueiros centrais em Malta

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields da dívida soberana dos membros da zona euro no prazo de referência, a 10 anos, subiram esta terça-feira, com destaque para a Grécia e França, que registaram aumentos de 19 e 16 pontos base no fecho, os mais elevados do dia. Todos os periféricos do euro registaram subidas, destacando-se os casos grego – já referido – e italiano (uma subida de sete pontos base).

A trajetória de descida das yields das obrigações naquele prazo verificada na segunda-feira em quatro periféricos da zona euro – Espanha, Grécia, Itália e Portugal – foi invertida na sessão de hoje.

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT), a 10 anos, subiram esta terça-feira para 2,43%, um aumento de cinco pontos base em relação ao fecho do dia anterior. Em relação a 2 de outubro, antes das eleições legislativas em Portugal, o diferencial é de nove pontos base acima.

Apesar da subida das yields nos periféricos, o prémio de risco da dívida continuou a descer para Portugal, Espanha e Irlanda. O prémio de risco da dívida obrigacionista portuguesa desceu esta terça-feira para 179 pontos base (o equivalente a um diferencial de 1,79 pontos percentuais), quatro pontos base abaixo do nível registado a 2 de outubro, antes de eleições legislativas. A descida do prémio de risco deve-se a uma subida mais acentuada das yields das obrigações alemãs no prazo de referência em relação às subidas registadas nos periféricos. O custo de financiamento da dívida alemã a 10 anos serve de referência para determinação do prémio de risco da dívida dos restantes membros do euro.

Draghi poderá não dar nenhum sinal na quinta-feira

Segundo os analistas, o otimismo dos investidores parece estar a desvanecer-se a menos de 48 horas da divulgação das decisões em matéria de política monetária que venham a ser tomadas na reunião em Malta do Banco Central Europeu (BCE), que se inicia quarta-feira e culmina com a conferência de imprensa do seu presidente na quinta-feira pelas 13h30 (hora de Portugal).

Um “sinal” iminente de Mario Draghi no sentido de que haverá uma ampliação do atual programa de compra de dívida pública no mercado secundário poderá estar mais distate. Iniciado em março, o programa tem previsão de terminar em setembro do próximo ano.

No entanto, o presidente do BCE já admitiu a sua ampliação, em caso de necessidade, ampliação que poderá assumir várias formas, e não apenas a sua extensão temporal, segundo alguns analistas em mais seis meses. Outras opções são aumentar o montante mensal de compras de todo o programa de compras de ativos públicos e privados (atualmente em cerca de 60 mil milhões de euros por mês) ou alargar a composição dos ativos a comprar (um programa mais agressivo, no campo de ativos privados, poderá incluir obrigações de bancos e de empresas).

Outra medida com efeito indireto no atual programa de compra de dívida pública no mercado secundário poderá ser a decisão por fixar uma taxa de remuneração dos depósitos dos bancos nos cofres do BCE ainda em terreno mais negativo - desde setembro de 2014, a taxa é de -0,2%. Essa taxa de -0,2% serve de limiar para as compras de obrigações soberanas que tenham yields negativas. O BCE atualmente não compra no mercado secundário dívida dos estados membros do euro cujas yields tenham uma taxa negativa superior a -0,2%, o que leva à exclusão, por exemplo, de toda a dívida obrigacionista alemã de 12 meses a 3 anos.

O BCE divulgou esta terça-feira o seu relatório de outubro sobre o crédito concedido pelos bancos da zona euro (“Bank Landing Survey”, que se realiza quatro vezes por ano junto de 141 bancos) que concluiu por uma “melhoria adicional nas condições de crédito para as empresas” e que sublinhou que o programa de compras teve “um impacto líquido de alívio nos padrões de crédito e particularmente nas condições e termos de crédito”.

O BCE acabará por ampliar o seu programa de compras de dívida, segundo mais de 80% dos economistas ouvidos num inquérito da Bloomberg realizado na semana passada. A dúvida é saber quando esse anúncio será feito: 51% dos inquiridos acha que Draghi poderá optar por o fazer na última reunião deste ano, a 3 de dezembro, enquanto 39% só prevê um tal movimento no decurso do primeiro trimestre de 2016 (realizam-se reuniões de política monetária a 21 de janeiro, 10 de março, 21 de abril e 2 de junho).

Em Atenas iniciar-se-á na quarta-feira a primeira ronda de reuniões da “quadriga” de credores oficiais – Comissão Europeia, BCE, Fundo Monetário Internacional e Mecanismo Europeu de Estabilidade – com vários ministérios gregos no âmbito do primeiro exame ao andamento do terceiro resgate.