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A inovação segundo a Bosch

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A Bosch investiu no seu novo campus 310 milhões de euros, para dar um novo ambiente de trabalho aos seus investigadores

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A multinacional alemã regista, em média, 18 pedidos de patente por dia e acaba de inaugurar um novo campus de investigação em Renningen que custou 310 milhões de euros. É um processo de investimento contínuo em inovação que tem um dos seus pilares em Portugal, onde o grupo está a investir 75 milhões até 2020

Sabia que uma parceria entre a Bosch Car Multimedia portuguesa e a Universidade do Minho permitiu à multinacional alemã resolver um problema de vibração de imagens que o grupo andava a tentar resolver há sete anos no âmbito das novas soluções como o head-up-displays que permite ao condutor ver toda a informação, incluindo GPS, projetada no para brisas do seu automóvel?

Este é apenas um dos triunfos recentes do grupo em Portugal, mas pode ajudar a explicar a decisão da divisão Car Multimedia da Bosch alemã vir contratar engenheiros portugueses, o investimento de mais de 75 milhões de euros no país, até 2020, com foco na Investigação e Desenvolvimento (I&D), ou a previsão de um crescimento de 60% no volume de negócios das unidades lusas da multinacional até 2017, para os 1,3 mil milhões de euros.

É um valor que conta com o contributo das fábricas da Bosch Sistemas de Segurança, em Ovar, e da Bosch Termotecnologia, em Aveiro, onde o grupo tem o seu centro de competências em soluções de água quente e está a investir 25 milhões de euros num segundo edifício de I&D para casas inteligentes. Mas o peso pesado da Bosch em Portugal continuará a ser a unidade de Braga, a atrair um investimento de 50 milhões de euros que a ajudará a atingir uma faturação de mil milhões de euros em 2017 graças a contributos vários, do novo sistema de instrumentação para motociclos aos projetos para marcas automóveis da BMW, à Audi, Volvo, Jaguar ou Land Rover, ou a novos soluções como o Head-Up-Display.

A tradução deste esforço inovador do braço português da Bosch em patentes já pode ser traduzido em números: a partir do trabalho feito em Braga há 14 projetos em desenvolvimento e 12 patentes em fase de registo. Na Bosch Termotecnologia, em Aveiro, foram registadas 10 patentes em 2014.

O processo é dinâmico e está em fase de aceleração, com as metas definidas a serem antecipadas. A contratação de 250 engenheiros para as fábricas de Braga e Ovar, prevista para 2017, vai ser cumprida já no próximo ano. Só até ao final de 2015 entram mais 80 engenheiros na Bosch Portugal e, em 2018, Braga terá mais mil trabalhadores, o que representa um aumento de 50% face ao número atual.

À escala da multinacional fundada por Robert Bosch, em 1886, em Estugarda, os números ganham, no entanto, outra dimensão. Com 360 mil colaboradores (3.300 em Portugal), uma faturação de 49 mil milhões de euros, 360 subsidiárias e empresas regionais distribuídas por 60 países, a Bosch investiu 5 mil milhões de euros em I&D em 2014 e registou, em média, 18 pedidos de patente por dia de trabalho.

Em busca do espírito start-up

Entre os sucessos ao longo da sua história, a empresa destaca inovações como o primeiro frigorífico para utilização doméstica a um preço acessível ao público, em 1933, ou a produção do primeiro sistema de travagem anti bloqueio ABS (1978).

Agora, o objetivo é ver “muita tecnologia e inovação”, em especial na área do conhecimento em software e, em particular na conectividade, saírem do novo campus de investigação de Renningen, perto de Estugarda, hoje inaugurado com a presença da chanceler alemã Angela Merkel, sob o lema “em rede para milhões de ideias”.

A Bosch investiu aqui 310 milhões de euros para dar um novo ambiente de trabalho aos seus investigadores, reforçar a colaboração interdisciplinar entre 1.700 “mentes criativas” dedicadas à investigação industrial aplicada, puxar pelo seu “espírito empreendedor” e, diz Volkmar Denner, presidente da Bosch, provar “a fé” do grupo na Alemanha “como local de tecnologia”.

É que no diagnóstico do líder do grupo, a Alemanha tem uma “desvantagem competitiva” exatamente no domínio do empreendedorismo. “Na Alemanha não há nem as oportunidades, nem a vontade de estabelecer empresas. Precisamos de mais espírito start-up, especialmente entre os jovens graduados universitários. Nesta matéria, as universidades têm que fazer mais do que preparar os seus alunos para exames em domínios altamente especializados”, defende o gestor, preocupado com o facto de só “25% dos alemães considerarem a hipótese de criar uma empresa, contra uma percentagem de 40% nos EUA” e 80% dizer que não segue este caminho “por medo de falhar”, enquanto nos Estados Unidos este indicador cai para 30%.

O escândalo à volta do controlo das emissões poluente de veículos da Volkswagen foi um tema recorrente na conferência de imprensa que antecedeu a inauguração do campus, mas a direção da Bosch evitou comentar o tema, referindo apenas que vem aí um novo ciclo que trará uma monitorização mais próxima das condições de condução real, admitindo que o ideal será ver os testes de laboratório diminuírem ou, até, desaparecerem.

Na cerimónia de inauguração, a chanceler alemã Angela Merkel coincidiu no diagnóstico de que falta espírito empreendedor nos currículos escolares do pais e que a Alemanha, tal como a
Europa, tem de fomentar o empreendedorismo e a inovação, até porque “já não estamos sozinhos” e, além dos EUA, é preciso considerar a concorrência asiática nesta área.

Recém-chegada de Bangalore, “o Sillicon Valley indiano”, Merkel salientou que pelo que viu “eles não estão a dormir”, elogiou a capacidade da Bosch em “encontrar a chave do sucesso económico da inovação” e definiu como objetivo para o seu país e para a Europa ter uma percentagem de 3% do PIB canalizado para atividades de Investigação e Desenvolvimento.

  • Margarida Cardoso

    Licenciada em Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, começou a carreira profissional na Agência Lusa. Chegou ao Expresso em 1999. É redatora na secção de Economia.