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O que dizem mesmo os mercados sobre Portugal

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FRANK RUMPENHORST / EPA

As ações e os juros da dívida dizem coisas diferentes sobre o que se passa politicamente em Portugal. A Bolsa de Lisboa caiu 5% nos últimos dois dias e só o BCP perdeu 15%. Mas os juros, apesar de terem subido após as eleições, não tiveram uma escalada abrupta. Afinal, o que dizem os mercados?

Os mercados falam. Ações e dívida pública estão a dizer coisas diferentes sobre a situação política em Portugal. O mercado acionista está a ser mais penalizado nos últimos dois dias do que os juros da dívida portuguesa.

A Bolsa nacional desceu nestes dois últimos dias e praticamente anulou os ganhos obtidos desde 5 de outubro, o dia seguinte ao das eleições. O BCP caiu 15% e o BPI 11%. Já os juros da dívida soberana, apesar de estarem mais altos face à última sessão antes das legislativas, desceram esta terça-feira.

"Há um efeito na Bolsa que não há nas obrigações", diz Filipe Garcia, economista da IMF - Informação de Mercados Financeiros. A Bolsa portuguesa subiu após as eleições, tal como as pares, mas desceu mais do que as congéneres na segunda-feira e também esta terça, após ser colocada a hipótese de vir a ser formado um Governo de esquerda. Os juros da dívida soberana a 10 anos subiram 13 pontos base desde as eleições e estão em 2,4%, mas esta terça-feira até recuaram.

"O que os juros da dívida nos dizem é que ninguém acredita que seja qual for o Governo, de esquerda ou de direita, vá haver uma reestruturação da dívida, por exemplo", diz Filipe Garcia. Ou seja, não acreditam que haja risco em termos de dívida soberana, seja qual for o Governo que tome posse. "Os investidores em ações acreditam que com com um Governo de esquerda haverá piores condições de negócios. Mais impostos para empresas e uma política mais hostil em relação aos bancos", adianta o mesmo analista.

É certo que a dívida beneficia da rede de compras do Banco Central Europeu e as ações não. Certo é que os mercados já incorporavam o cenário de um Governo de minoria e de alguma instabilidade política. E eleições antecipadas é um cenário que está incluído na maior parte das análises de casas de investimento. O que não contavam era com uma viragem à esquerda, um cenário que ainda não está confirmado: o PS reúne-se esta terça-feira com a coligação de centro-direita e poderá ainda haver um acordo que viabilize um Governo PSD/CDS.

Surpresa

A perspetiva de Portugal vir a ser governado à esquerda não agrada aos analistas e investidores em ações. Mas o que desagrada mesmo é a surpresa, o inesperado. E os receios de instabilidade.

Na semana passada antevia-se um Governo de coligação de centro-direita que iria dar continuidade às políticas carimbadas por Bruxelas. O volte-face apanhou de surpresa os investidores.

No caso da dívida pública, encontra suporte no mercado secundário nas compras que o Banco Central Europeu vai fazendo no âmbito do seu programa de estímulos. Já a Bolsa não tem tanta sorte. Sem rede, fica à mercê da decisão de venda dos investidores. Mas, num cenário de instabilidade, é um alvo apetecível a especuladores.

"O facto de se construir este cenário de instabilidade é terreno fértil para surgirem investidores que especulam, que fazem short-selling, sobretudo em torno dos títulos mais frágeis, como os do sector financeiro", diz um economista que pede para não ser identificado.

A perspetiva de um Governo PS apoiado pelo BE e o PCP assusta muitos intervenientes do mundo financeiro. "Apesar do Bloco de Esquerda ter suavizado a sua retórica recentemente, é um partido antieuro. Um Governo assim iria levantar receios sobre o caminho de ajustamento orçamental e sobre a previsibilidade da política económica", diz Adriana Alvarado, analista da agência de ratings DBRS.

"Um Governo liderado pelo PS que inclua o Bloco de Esquerda iria provavelmente ser negativo" em termos de impacto na dívida soberana portuguesa e, no caso de haver uma coligação entre o PS e o Bloco, "também poderia ser instável e poderia levar a eleições antecipadas no próximo ano".

"O que faria mais sentido, neste momento, para Portugal, era um pacto de regime a oito anos. Daria estabilidade política e previsibilidade", afirma o mesmo economista que afasta, contudo, qualquer hipótese deste cenário vir a ser uma realidade.

Mas há os que suspeitam no mercado que tudo não passa de um bluff do PS, um jogo para tentar retirar o máximo de dividendos para um acordo com a coligação.

Depois, há os analistas que contam com a própria divisão dentro do PS para impedir a eventual tentativa de formação de um Governo socialista apoiado pelo Bloco e tornar possível viabilizar um Governo PSD/CDS.

"Um Governo PSD/CDS seria visto com bons olhos pelos mercados. Daria uma maior estabilidade política. Mas ainda assim, é previsível que haja eleições nos próximos 12 a 18 meses", diz Filipe Garcia.

Bancos sofrem

Nos dois últimos dias, entre os principais alvos de venda por parte dos investidores estão os bancos. Mas também a Pharol. Precisamente, os títulos que mais subiram nas últimas semanas. Só o BCP somava ganhos de 40%. Nos últimos dois dias o banco perdeu 15% e o BPI 11%.

O PSI-20 caiu cerca de 5% na segunda-feira e esta terça. É certo que no exterior a situação não ajuda. Dados macroeconómicos na China voltaram a acentuar receios de um menor crescimento da economia a nível mundial. E vive-se alguma ansiedade em torno do andamento da economia alemã e dos impactos que pode vir a sofrer a principal economia da zona euro devido ao escândalo da Volkswagen.

No mercado secundário de dívida, os juros das obrigações portuguesas a 10 anos recuaram esta terça-feira, mas mantêm-se acima do nível a que estavam antes das eleições.