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Mulheres só lideram 4% das maiores empresas

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As maiores empresas em Portugal ainda são um'reino' masculino.

Eles são a maioria dos empregados, a esmagadora maioria das equipas de gestão e a quase totalidade dos líderes.

Os números são inequívocos: nas 500 maiores empresas a operar no país, as mulheres representam 44% dos empregados, número que diminui de forma abrupta à medida que o nível de responsabilidade aumenta. Assim, a participação feminina é de apenas 19% nas funções de direção executiva (diretores de primeira linha), 11% nas funções de gestão (órgãos sociais das empresas) e 4% nos cargos de liderança. Isto significa que só 20 das 500 maiores empresas em Portugal são lideradas por mulheres.

O retrato é traçado pela Deloitte e pela Informa D&B com base na análise das 500 Maiores&Melhores (500M&M) da revista "Exame", traduz a realidade do país em 2012 e mostra que ainda há um longo caminho a percorrer para uma participação mais equitativa das mulheres no mundo empresarial, em particular nas grandes companhias. Mais: estas baixas taxas de participação feminina nas 500 maiores empresas "são bastante inferiores ao verificado no tecido empresarial português, no qual as mulheresocupam 31,1% das funções de gestão e lideram 26,8% das empresas", nota Teresa Menezes, diretora--geral da Informa D&B.

Empresas públicas destacam-se

Os dados apurados apontam numa direção clara: "a participação feminina na gestão diminui àmedida que aumenta a dimensão da empresa", constata Teresa Menezes. Sinal disso, a liderança feminina ascende a 28,5% das microempresas em Portugal, 22,5% das pequenas empresas, 13,9% das companhias de média dimensão, 8,2% das grandes companhias e apenas 4% das 500 maiores empresas.

As diferenças não se prendem só com a dimensão das companhias, também são notórias ao nível da natureza do controlo acionista. Em Portugal, as empresas públicas, que fazem parte do ranking das 500 maiores, destacam-se pela maior participação feminina: as mulheres representam 51% dos empregados, 26% das funções de gestão elideram 11% das empresas. Os números do sector privado e das firmas de capital estrangeiro ficam muito abaixo dos registados no sector público.

Explicação? "Uma resolução do Conselho de Ministros tornou obrigatória a adoção de planos de igualdade em todas as entidades do sector empresarial do Estado e determinou como objetivo a presença plural de mulheres e de homens nas nomeações ou designações para cargos de administração e de fiscalização nesse sector", frisa Teresa Menezes. João Messias Gomes, sócio da Deloitte, aponta na mesma direção, salientando "o bom exemplo dado pelo Estado nesta matéria e o empenho em assegurar presença feminina nos conselhos de administração". Há ainda outro fator, segundo Teresa Menezes: a predominância do sector da saúde nas empresas públicas que fazem parte das 500M&M. Um"sector que apresenta uma das maiores taxas de participação feminina nas funções de gestão e liderança".

Considerando o ranking das 500 maiores empresas em 2012, o sector da saúde é mesmo o segundo com maior participação feminina em cargos de gestão, apenas ultrapassado pelo da higiene e limpeza. Na terceira posição ficou o sector dos produtos farmacêuticos.

Sociedade em mudança

A explicação para a baixa participação feminina na gestão, sobretudo entre as grandes empresas, tem de ser encontrada na matriz cultural de uma sociedade que "ainda está em mudança neste aspeto", diz Teresa Menezes. João Messias Gomes aponta outro fator: "O número limitado de lugares em posições de liderança e cargos de gestão nas empresas e a estabilidade associada a essas funções." E considera que "embora haja aindaumlongo caminho a percorrer, temos feito progressos nesta matéria".

O aumento do número de mulheres com formação universitária "provavelmente terá impacto nos próximos anos", salienta Teresa Menezes, afirmando que os progressos já são visíveis nas empresas mais jovens, onde "a participação feminina émais frequente e a percentagem de mulheres na gestão e liderança é mais elevada do que a média".

"A mudança nos últimos dois anos aponta claramente no sentido do equilíbrio de género", diz Teresa Menezes. "O processo é seguramente irreversível, mas é impossível determinar se o equilíbrio se alcançará numa só década ou em mais". Certo é uma provável evolução nos próximos anos, fruto da meta estabelecida pela Comissão Europeia: em 2015, 30% dos membros dos conselhos de administração das empresas cotadas devem ser mulheres e a representação feminina deve subir para 40%, até 2020. "É um tema que está na ordem do dia na Europa e em Portugal. Além do encorajamento que as políticas públicas proporcionam, torna-se necessário envolver e comprometer as empresas neste tema, associando-o também à sustentabilidade empresarial", remata Teresa Menezes.

Este artigo foi publicado originalmente no Expresso de 9 de novembro de 2013. E esta é a última de seis republicações - de temas que continuam a marcar a atualidade - que marcam o arranque da 26ª edição das 500 M&M da revista “Exame”