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A pesca vira luxo

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Com menos barcos e pescadores, a eficiência das pescas está a aumentar

Luís Barra

A renovação dos stocks não é o único desafio do setor: a estruturação das cadeias de valor 
é essencial. Com menos barcos e pescadores, a eficiência das pescas está a aumentar. 
E é bem possível que o peixe selvagem nacional se torne inacessível à maioria dos portugueses

Portugal é um país de pesca? Há quem desfaça, impiedosamente, o ‘mito’. Como Tiago Pitta e Cunha, especialista em assuntos do mar: “Portugal não é definitivamente um país de pesca. As águas sob jurisdição nacional não são ricas em peixe, daí durante muitos anos termos pescado sobretudo em águas internacionais, antes da criação das zonas económicas exclusivas. Temos alguma diversidade de peixe, de grande qualidade, mas não em abundância. E temos de aprender a viver com isso”, considera. Há mesmo quem antecipe que o peixe selvagem pescado em Portugal se tornará um bem de luxo, inacessível à maior parte das pessoas.

Como projetar então esta atividade económica no futuro, numa altura em que as estatísticas apontam para um cenário negro em termos de captura? Em 2014, o nível de capturas de pescado foi o mais baixo de sempre desde 1969, o primeiro ano de que há registos no Instituto Nacional de Estatística. Apenas 119.890 toneladas de peixe foram transacionadas em lota, tendo-se registado um decréscimo nas capturas de sardinha (-42,8%), atum (-21,2%) e cavala (-20,8%).

Os números mostram também que, apesar da evidente diminuição das capturas, da frota e da população pesqueira, o valor do pescado tem aumentado. No ano passado, um quilo de sardinha subiu aos 2 euros, mais 39% do que em 2013. A captura desta espécie rendeu, ao todo, 31 milhões de euros, um montante apenas ultrapassado pela comercialização de polvo (44,2 milhões de euros).

“Não vamos aumentar as capturas, a não ser que haja armadores portugueses que queiram competir com outros europeus nos pesqueiros de longa distância, em águas para as quais a Comissão Europeia negoceia quotas. Essa é uma aposta industrial que não tenho visto ser desejada. Por isso, temos de nos concentrar no valor e na eficiência. E na sustentabilidade, de alguma maneira. Se o valor aumentar, podemos pescar menos”, acrescenta Pitta e Cunha.

José Poças Esteves trabalhou lado a lado com ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes na elaboração do estudo ‘Hypercluster da Economia do Mar’ que, em 2009, catapultou o tema para a agenda política e mediática. Ao contrário de um “certo discurso político” que tem esquecido as pescas como vetor essencial desta nova economia do mar, dizem os agentes da fileira, o economista acredita que este é um verdadeiro cluster, com tantas possibilidades de crescimento como o transporte marítimo, o desporto náutico ou a biotecnologia azul.

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