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O que recomenda o FMI à Fed e ao BCE

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Prudência por parte da equipa de Janet Yellen em Washington e mais estímulos na Europa e Japão pede o Global Financial Stability Report divulgado em Lima esta quarta-feira

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomenda à Reserva Federal norte-americana (Fed) e ao Banco de Inglaterra que evitem uma subida prematura das suas taxas de juro.

Os técnicos de Christine Lagarde, a diretora-geral do Fundo, sugerem essa prudência no World Economic Outlook publicado na terça-feira e repetem-na esta quarta-feira no Global Financial Stability Report. São dois dos relatórios mais importantes que o Fundo divulga como base de discussão para a sua assembleia anual reunida, desta vez, em Lima, capital do Peru, até domingo.

No caso da Fed, o Fundo recomenda à equipa de Janet Yellen, a presidente do banco central norte-americano, que a primeira subida dos juros espere "até que existam sinais seguros de que a inflação está a subir no sentido do objetivo de 2% no médio prazo com um fortalecimento continuado do mercado laboral”. E, logo que a Fed dê o pontapé de saída para a subida dos juros que o faça, depois, de um modo “gradual”.

A prudência e o gradualismo são necessários, diz o FMI, em virtude da entrada num novo ciclo - de taxas de juro da Fed mais elevadas, de fortalecimento do dólar (apreciação em relação às outras divisas) e de subida das taxas de remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano - gerar um impacto negativo importante nas economias emergentes e em desenvolvimento e alimentar volatilidade nos mercados financeiros.

Em contraste, o FMI estima que a política monetária continuará “acomodatícia” na Zona Euro, no Japão e em economias desenvolvidas exportadoras líquidas de matérias-primas, como Austrália e Canadá, ou fortemente dependentes da exportação de produtos para a China, como a Coreia do Sul, ou em países europeus como a Suécia (que regressou a uma taxa de juros diretora negativa em setembro, fixando-a em -0,35%).

No caso da Zona Euro, o FMI recomenda que a política de estímulos monetários prossiga e que o Banco Central Europeu (BCE) meta mãos à resolução do crédito mal parado no sistema bancário. O FMI fala da importância de compras em larga escala de ativos (como são o caso dos programas do BCE e do Banco do Japão) e de uso de taxas negativas de juros onda possam ser eficazes.

Política orçamental tem de ser “amiga do crescimento”

Mas não basta a política monetária. A política orçamental “amiga do crescimento” na zona euro é indispensável, ainda que deva continuar a ser “prudente”.

Os países que disponham de margem orçamental e de excedentes externos, como a Alemanha e a Holanda, “deverão fazer mais para encorajar o crescimento”, aliviando o aperto orçamental, nomeadamente através de projetos de investimento em infraestruturas de alta qualidade e de retorno elevado, uma tecla em que o FMI tem batido sistematicamente.

Mesmo nos países que tenham margem orçamental estreita, ou nenhuma, e necessitem de prolongar políticas de consolidação orçamental e de redução de sobreendividamento, é necessário um equilíbrio orçamental “amigo do crescimento”, dizem os técnicos do FMI.

No entanto, por “amigo do crescimento”, o Fundo entende redução das taxas marginais sobre o trabalho e o capital, financiada por cortes em despesa improdutiva ou alargamento da base tributável. Os técnicos do Fundo acham que “é pequena a contribuição do crescimento do rendimento disponível para a redução de rácios de dívida [no atual quadro de inflação baixa e crescimento fraco]”, pelo que a consolidação orçamental continua a ser central. No entanto, “se o ritmo da consolidação [orçamental] não for afinado em relação ao vigor das condições económicas, arrisca-se a baixar o crescimento e a pressionar em baixa os preços, anulando o efeito positivo da consolidação orçamental nos rácios de dívida”, uma recomendação que vai direta para as economias periféricas do euro.

A nível global da zona da moeda única, o GFSR recomenda mais passos na arquitetura de integração para afastar as dúvidas sobre a sua viabilidade a médio prazo e reduzir o risco de saídas do euro e de redenominação de moedas dos seus membros. O relatório não deixa de sublinhar que o “contágio político pode emergir em alguns países na forma de oposição crescente a uma integração maior da união monetária”.