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FMI receia “descompressão rápida” da política monetária da Fed

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Sem prudência e gradualismo na subida dos juros pelo banco central norte-americano pode materializar-se um cenário de "disrupção" nos mercados financeiros que empurra a zona euro para próximo da estagnação e faz disparar risco da dívida dos periféricos

Jorge Nascimento Rodrigues

A economia mundial enfrenta uma trilogia de dores de cabeça, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI) no Global Financial Stability Report (GFSR) divulgado esta quarta-feira em Lima, capital do Peru, onde vai decorrer até domingo a assembleia anual daquela organização liderada por Christine Lagarde.

É uma tríade de desafios globais, escreve-se no relatório: grandes vulnerabilidades nos mercados emergentes; heranças ainda por resolver da grande crise financeira (sobretudo na zona euro); e uma fraca liquidez sistémica dos mercados financeiros.

O elefante na loja de porcelanas poderá ser a Reserva Federal norte-americana (Fed) que deverá iniciar, em breve, um processo de subida das taxas de juro que estão próximas de 0% desde há quase sete anos e que não sofrem um aumento desde há nove.

Com a redução da probabilidade de deflação na zona euro até final de 2016 e afastados, por ora, os riscos iminentes resultantes da crise das dívidas dos periféricos do euro, os problemas para a estabilidade financeira mundial “rodaram” geograficamente para os mercados emergentes e os cenários do FMI concentram-se, agora, nos impactos globais que pode vir a ter o processo de “normalização” da política monetária da Fed. Se o banco central norte-americano iniciar um processo “acidentado” de subida das suas taxas de juro.

É claro que se algo correr mal na transição da China – atualmente a economia com maior fatia no PIB mundial, com um peso de 16,6%, superior ao dos EUA -, em vez de um, serão dois elefantes na loja. Um dos subtítulos do relatório é sugestivo: “Poderá a China evitar destabilizar os mercados enquanto alcança os seus objetivos?”. Os técnicos do FMI acreditam que Pequim dispõe de “almofadas” para amortecer os choques, como o nível de reservas oficiais. Tudo se complica ainda mais se as tensões geopolíticas escalarem nomeadamente no Médio Oriente.

Os malefícios de uma subida de juros "acidentada"

A maior dor de cabeça para o FMI é se a Fed embarca numa “descompressão rápida”, se o processo de subida dos juros se torna "acidentado". O que ocorreria num mau momento marcado por dois problemas graves. Por um lado, os mercados emergentes vivem um período de quebra acentuada de preços das matérias-primas (afetando sobretudo as economias exportadoras, nomeadamente África do Sul, Brasil, Chile, Malásia e Rússia, salienta-se no documento). Por outro, na zona euro ainda não está debelada a crise das dívidas (o desenlace da situação grega continua uma incógnita, apesar de perspetivas otimistas) e persiste uma enorme vulnerabilidade do sistema bancário.

A Fed ainda nem iniciou o processo de subida dos juros, e o temor às suas consequências futuras já gerou, antecipadamente, uma onda de pânico financeiro com um pico de volatilidade em agosto passado.

O relatório do FMI avisa que uma “descompressão rápida” com origem na Fed pode provocar à escala mundial uma subida abrupta e desordenada dos prémios de risco das dívidas públicas e privadas, uma vaga de contágio, e a geração de choques nos mercados financeiros, com "uma disrupção no mercado de ativos e uma secagem súbita da liquidez em alguns tipos de ativos financeiros".

No caso de um cenário disruptivo, o impacto negativo na dívida soberana de longo prazo será maior nas economias periféricas do euro, com uma subida de quase 100 pontos base (1 ponto percentual) no prémio de risco. Mais 50 pontos base poderá ser o efeito no Japão, Reino Unido e EUA. Nos países do centro da moeda única, o impacto será significativamente menor, na ordem de 25 pontos base.

O cenário pessimista provocaria, ainda, um aumento do rácio da dívida pública em relação ao PIB em seis países que os técnicos do Fundo destacam: Japão, Grécia, Itália, Portugal, Bélgica e Espanha com rácios sinalizando agravamento do sobreendividamento. No valor real do mercado acionista, o cenário disruptivo pode implicar uma correção de mais de 20% na zona euro, Japão, Reino Unido e EUA. E muito próximo dessa quebra nos mercados emergentes financeiramente abertos.

A inevitável “normalização” da política de juros pelo banco central norte-americano vai implicar uma natural subida dos prémios de risco que estiveram, nomeadamente em algumas economias desenvolvidas, em valores historicamente muito baixos (incluindo quase todos os periféricos do euro, como Portugal com mínimos históricos registados em março de 2015), mas uma coisa é esse processo ser “suave”, outra é ser violento.

Risco de estagnação na economia mundial

A diferença macroeconómica entre as duas possibilidades – uma normalização suave ou uma descompressão rápida – transparece nos cenários do GFSR para a economia mundial: se tudo correr pelo melhor, o PIB mundial poderá aumentar 0,4 pontos percentuais em 2018 e o crescimento passar mais cedo ao patamar dos 4%; se correr mal, o PIB em 2017 vai reduzir-se em 2,4 pontos percentuais, empurrando a economia global para uma taxa de crescimento abaixo do limiar dos 3%, considerado por muitos como a ponte de passagem para estagnação ou recessão futura. No caso da zona euro e do Japão, no cenário pessimista, o crescimento médio do PIB perderia mais de 1,5 pontos percentuais em 2016 e 2017, o que colocaria a primeira perto de estagnação e a segunda em recessão.

Um cenário de “normalização com sucesso” vai exigir uma “ação concertada de políticas” (o que requer tomar em linha de contas as recomendações do Fundo). Em contraste, o risco de quase estagnação é admitido pelo cenário adverso do FMI. Lê-se no GFSR: “Um risco chave é um declínio maior de um crescimento já de si baixo que pode tornar-se quase estagnação, especialmente se um aumento mais fraco do crescimento nas economias dos mercados emergentes amortecer a procura global. Neste contexto, uma inflação persistentemente abaixo das metas [dos bancos centrais] pode entrincheirar-se mais”.