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Juros da dívida portuguesa e grega descem em maré de subidas na zona euro

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Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam a descer para 2,32% no primeiro dia a seguir às eleições legislativas em Portugal. No caso dos juros das obrigações gregas, a descida coincide com a apresentação esta segunda-feira no Parlamento e no Eurogrupo do projeto de Orçamento para o próximo ano que prevê uma consolidação orçamental acumulada de mais de €6,6 mil milhões em 2015 e 2016

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das obrigações soberanas dos membros da zona euro no prazo de referência, a 10 anos, registaram no mercado secundário uma trajetória de subida esta segunda-feira, com exceção dos títulos do Tesouro de Portugal e da Grécia.

No caso das Obrigações do Tesouro português (OT) naquele prazo a descida foi de 3 pontos base em relação ao fecho de sexta-feira passada, com as yields a fecharem em 2,32%, depois de terem aberto a sessão abaixo de 2,29%. Foi a primeira sessão depois da realização das eleições legislativas no domingo que se saldaram com a coligação do governo incumbente a obter a maioria relativa de deputados no Parlamento.

As yields das obrigações gregas a 10 anos desceram 1 ponto base esta segunda-feira para 8,19%, o nível mais baixo desde dezembro de 2014. Ao final da manhã chegaram a descer para 8,1%. Recorde-se que a dívida obrigacionista grega não está ainda incluída no programa de compra de dívida pública no mercado secundário por parte do Banco Central Europeu (BCE).

Nos últimos 30 dias, as yields das obrigações gregas desceram 90 pontos base (0,9 pontos percentuais), liderando a trajetória descendente na zona euro. Em segundo e terceiro lugares nas descidas registaram-se as yields das obrigações espanholas (caíram 28 pontos base) e italianas (redução de 22 pontos base). As yields das OT surgem em quarto lugar, com uma redução de 21 pontos base.

As descidas recentes das yields das obrigações dos membros do euro são atribuídas à expetativa positiva dos investidores em dívida da zona euro de que o BCE acabará por anunciar a ampliação do atual programa de compra de dívida pública em virtude do processo de queda da inflação até terreno negativo em setembro e das previsões de crescimento mundial mais fraco e de continuação de níveis baixos dos preços das matérias-primas por um período longo. Um contexto macroeconómico global com vários riscos e crescimento "medíocre" que o Fundo Monetário Internacional começará a divulgar na terça-feira à tarde.

Grécia quer regressar ao mercado obrigacionista em junho de 2016

A trajetória de descida do custo de financiamento da dívida helénica prende-se à expetativa por parte dos credores oficiais e pelos investidores internacionais que o terceiro resgate à Grécia tem condições políticas de singrar com o segundo governo de coligação do Syriza com o Anel, resultante das eleições antecipadas de 20 de setembro. A Grécia ainda não foi integrada no programa de compra de dívida pública pelo BCE, pelo que o efeito global que se assiste na zona euro ainda não contagiou as yields das obrigações helénicas.

Esta segunda-feira marcou o início de um período crucial prévio ao exame pelos credores oficiais em novembro do andamento do terceiro plano de resgate à Grécia.

Até meados de outubro, o Ministério das Finanças helénico tem de colocar no terreno 49 ações prioritárias definidas pelo Grupo de Trabalho do Euro na sexta-feira passada e aprovadas na reunião do Eurogrupo (órgão informal dos ministros das Finanças do euro) realizada esta segunda-feira no Luxemburgo. Um bloco importante de ações centra-se na preparação da recapitalização da banca grega.

O ministro das Finanças Euclid Tsakalotos deu, também, conhecimento do projeto de orçamento para 2016 que seguiu de manhã para o Parlamento grego. Os objetivos para o próximo ano têm em conta as metas previstas para 2015.

Segundo o site grego independente MacroPolis, o projeto de orçamento helénico implica 2,3 mil milhões de euros de consolidação orçamental realizada em 2015 a que se seguirão mais 4,35 mil milhões em 2016. Ou seja, 1,3% do PIB no ano em curso e 2,5% no próximo ano. Mantém as metas de um défice primário orçamental de 0,24% do PIB em 2015 seguido de um excedente primário de 0,52% em 2016. O saldo primário orçamental não inclui os juros da dívida pública. O serviço anual da dívida vai aumentar de 3,12% do PIB em 2014 para 3,4% em 2015 e 2016.

Esta marcha de consolidação orçamental de mais de 6,6 mil milhões de euros em dois anos (incluindo 2015 que está a terminar depois de duas eleições legislativas antecipadas e de um referendo no plano político e de um 'corralito' bancário) em paralelo com o aumento do peso do serviço da dívida assenta numa previsão de que o rácio da dívida pública em relação ao PIB vai aumentar de 177,1% em 2014 para 181,8% em 2015 e 192,4% em 2016.

O quadro macroeconómico que serve de base a este disparo do rácio da dívida assenta numa recaída numa recessão consecutiva durante 2015 e 2016, com uma quebra do PIB de 2,3% em 2015 e uma outra de 1,3% no ano seguinte, a que se soma uma situação de deflação de -0,5% em 2015. O PIB grego 29,6% de 2008 a 2013, tendo a taxa de crescimento regressado a terreno positivo em 2014, com um aumento de 0,8%. A economia grega vive uma espiral deflacionária desde março de 2013, há dois anos e meio. O desemprego também aumentará, de 24,6% em 2014 para 25,4% em 2015 e 25,8% em 2016.

Em virtude deste quadro, o governo de Alexis Tsipras fala de “zonas cinzentas” no orçamento em que é imperativo explorar a flexibilidade, avançando com medidas alternativas com impacto neutro em termos orçamentais.

Em simultâneo, o primeiro-ministro grego apresentou esta segunda-feira no Parlamento o programa para a legislatura em que aponta quatro eixos: recapitalização bancária; atração de investimento estrangeiro; redução da dívida pública através de um conjunto de propostas de extensão das maturidades, descida de juros, prolongamento do período de graça no que respeita aos credores oficiais europeus; regresso ao mercado obrigacionista no prazo de 20 meses. Tsipras prevê o regresso a emissões regulares de dívida obrigacionista em junho do próximo ano, mais de dois anos depois de uma emissão de 3 mil milhões de euros em obrigações a 5 anos, tendo, então, em abril de 2014, o Tesouro grego fixado uma remuneração de 4,95%.

O debate do programa estende-se até quarta-feira quando deverá ser apresentada uma moção de confiança ao governo de Tsipras, que deverá ser aprovada, em virtude da coligação governamental dispor de maioria absoluta no Parlamento.