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Cinto dos angolanos cada vez mais apertado. Ministros e Presidente com ordenados cortados

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Em Luanda, teme-se a rutura de stocks de produtos básicos

EDMUNDO EUCILIO/JAIMAGENS

O salário de José Eduardo dos Santos também foi afetado pela desvalorização do kwanza e escassez de divisas. Ministros, secretários de Estado e governadores provinciais ganham agora menos de metade do que no mês de julho. Passaram de 4078 dólares e agora 1300

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Depois de se ter gabado no passado de ter sido responsável do pagamento dos salários dos funcionários públicos do Congo Brazzaville, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, Angola, pela primeira vez na sua história, deverá ter de pagar o 13º mês em três tranches. A derrapagem financeira angolana, segundo o Expresso apurou junto do Ministério das Finanças, é de tal forma significativa que o país deixou de ter capacidade para pagar em dezembro um salário suplementar.

O recurso ao pagamento por tranches, em consequência da crise de tesouraria provocada pela acentuada baixa do preço do petróleo, deverá entrar em vigor já a partir de outubro, segundo fonte do Banco Nacional de Angola. “É a única forma que temos para fazer face a encargos salariais anuais na ordem de 1200 mil milhões de dólares”, acrescentou.

A desvalorização galopante do kwanza em relação ao dólar, nestas circunstâncias, está, nas últimas semanas, a asfixiar a vida da maioria da população angolana concentrada sobretudo nos grandes centros urbanos. Habituados durante anos a um nível de vida, que dispensava fazer contas no final do mês, a classe média começa agora a sentir necessidade de apertar o cinto. “Com salários em atraso e a valerem cada vez menos, vamos deixar de ir a restaurantes e, este ano, em minha casa já ninguém sequer pensou em falar de férias em Portugal”, diz Joaquim Faria, funcionário do Ministério da Indústria.

A três meses da quadra festiva, Mário Augusto, funcionário da Tcul, uma das muitas empresas falidas do Ministério dos Transportes, já perdeu esperança de ter o tradicional cabaz de natal este ano. Com uma despesa de consumo significativa, a maioria das famílias angolanas começa a ver limitado o acesso a produtos alimentares.

Ordenado do Presidente também foi afetado

Para o consultor Galvão Branco, “a desvalorização era inevitável para estancar a procura de divisas”. Mas nos centros comerciais e pequenas lojas de bairro, os preços dos produtos sobem todos os dias e a inflação já atinge 13%. Alguns bens que até ao mês de junho se compravam por 12 mil kwanzas, custam hoje quase o dobro.

Embora disponha de um conjunto de regalias inerentes ao cargo, até o ordenado do Presidente da República (10 mil dólares, com 3 mil dólares de despesas de representação) não escapou à erosão do kwanza.O mesmo sucede com ministros, secretários de Estado e governadores provinciais que passaram a arrecadar apenas 1300 dólares dos 4078 dólares que auferiam até Julho passado.

Francisco Mariano, empregado de caixa de um supermercado, considera que para esses governantes, “tendo outras fontes de rendimentos, a desvalorização do kwanza é-lhes indiferente”.

Com o brutal aumento do custo de vida, o acesso ao ensino privado passou também a ser relegado para segundo plano. “A prioridade agora é tentar encher a barriga e arranjar dinheiro para comprar medicamentos”, explica Sebastião Fernandes, que este ano, por falta de recursos financeiros, não conseguiu matricular o filho no colégio onde se preparava para concluir o ensino médio.

A desistência de milhares de estudantes, que frequentavam o ensino superior em instituições privadas, levou a que a maioria das universidades assista, agora, a uma gigantesca vaga de saídas.“Há universidades, que vão acabar por encerrar”, vaticina uma fonte da associação das instituições privadas do ensino superior.


Produtos básicos em risco

Quem não precisou de esperar por muito tempo foram dezenas de transitários que, perante a drástica redução das importações, viram diminuir a sua atividade a ponto de terem sido obrigados a encerrar os escritórios que inundavam o bairro do Cassenda, em frente ao terminal de carga do aeroporto 4 de Fevereiro.

Em Luanda, teme-se agora que a escassez de divisas, segundo o presidente do conselho de administração do Entreposto Aduaneiro, Joffre Van-Duném, possa vir a provocar uma rutura de stocks de produtos de consumo básico.

Há três semanas, a imprensa oficial dava nota da redução para 30% das importações angolanas no segundo trimestre deste ano.

Aparentemente, estar-se-ia perante uma notícia animadora mas, neste caso, não se tratava de substituição de importações porque simplesmente não existem divisas para comprar a matéria-prima necessária à produção interna.

Mas se escasseiam divisas para a indústria e agricultura, em abundância surgem no bairro de São Paulo onde, no final do dia, alguns chineses, carregados de milhões de kwanzas, se vão abastecer de dólares provenientes dos bancos comerciais e casas de câmbio.