Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

“Banca islâmica foi porto seguro durante a crise”

  • 333

Pedro Casquinha foi entrevistado no Hotel Torel Palace, em Lisboa. Está há três anos no Kuwait, mas o regresso a Portugal está nos seus planos

Pedro Casquinha responsável pela estratégia de marketing do Kuwait Finance House

Elisabete Tavares

Elisabete Tavares

Texto

Jornalista

Alberto Frias

Fotos

Fotojornalista

É português, católico, tem 47 anos e é responsável pela estratégia global de marketing de um dos maiores bancos islâmicos do mundo, o Kuwait Finance House (KFH). Pedro Casquinha levou para o segundo maior banco do Kuwait a experiência no marketing dirigido ao grande consumo. E não se arrepende. Há três anos aceitou o convite para trabalhar no país árabe para liderar a área de marketing num grupo familiar, o Al Yasra Group. Saiu deste grupo em janeiro deste ano para liderar a mesma área no KFH, o segundo maior banco do país, que está cotado na Bolsa mas é controlado pelo Estado.

Foi convidado para o KFH pelo presidente-executivo do banco, com quem tem em comum a passagem pela Harvard Business School, nos Estados Unidos, onde fez uma pós-graduação em Gestão, em 2008.

As diferenças face à cultura e práticas empresariais ocidentais não o demoveram. “Há que ter a humildade de perceber porque é assim e não de outro modo”, diz ao Expresso. “Há muita desinformação sobre o mundo islâmico”. Para entrar no banco teve de passar pelo Comité da Sharia do KFH para averiguar se os seus valores, princípios e modo de vida se adequavam ao carácter de banco islâmico da instituição financeira. Passada a prova, começou a montar uma equipa e uma estratégia que está em marcha, acompanhando a expansão internacional do grupo. Hoje, dirige uma equipa de cerca de 40 colaboradores, na sua maioria mulheres.

Vender em árabe

Todas as suas campanhas e ações têm de ser aprovados pelo Comité de Sharia do banco. É obrigatório e garante que está tudo de acordo com a lei islâmica. Numa campanha recente, baseada em testemunhos de funcionários do banco, as mulheres não aparecem de frente para as câmaras. No Kuwait, um país rico em petróleo (o sexto maior do mundo em termos de reservas de petróleo), o KFH oferece Porsches e barras de ouro numa campanha dirigida aos clientes do banco.

Apesar das diferenças que separam o Kuwait de Portugal, Pedro Casquinha diz ter-se adaptado bem às pessoas, que quando ganham confiança, “tratam os outros como irmãos”. E já tinha experiência em trabalhar no estrangeiro. Depois de concluir a licenciatura em Gestão de Empresas na Universidade Católica Portuguesa, ingressou na Lever em 1991. Em 1997 assumiu funções na sede da Unilever em Londres como business strategist. Era o responsável pela estratégia de marketing para a América Latina e Ásia e acabou por viajar muito em trabalho. “Acabei por ter a sorte por poder viver de perto o desconforto de uma cultura diferente. Não é totalmente inédito para mim.” E ganhou experiência em ‘vender’ produtos e marcas em mercados desafiantes. “No Vietname, como vender sabonetes e champôs a uma população que nem água tem? São criadas umas saquetas de champô que se utilizam uma vez por semana e os próprios produtos têm uma fórmula diferente para serem usados com menos água. Inventa-se.”

Só regressou a Portugal em março de 2000, como diretor de comunicação e estratégia do Grupo Fima/Lever/Iglo e chegou a diretor de marketing da Lever e posteriormente a diretor de media da Unilever Jerónimo Martins. Em janeiro de 2009, assumiu funções de diretor de marketing da Associação Nacional de Farmácias.

Aceitar o desafio de trabalhar e viver no Kuwait não foi feito de ânimo leve. A mulher e os dois filhos acabariam por também se juntar ao gestor na mudança de vida. Mas neste momento já estão de regresso a Portugal. “Existem 30 portugueses no Kuwait”, diz. Mas aponta que a vida social não é fácil, dadas as regras religiosas que proíbem o consumo de álcool, por exemplo. No médio prazo, acaba por ser um fator que pesa. “É só trabalho.”

As férias também tiveram de ser marcadas em sintonia com o calendário árabe, em que a celebração do Ramadão é central. De visita à família em Portugal, o gestor mata saudades do sol e do calor. “No Kuwait vivemos rodeados de ar condicionado”, explica.

Pretende regressar a Portugal, embora sem data marcada. Para já, tem um compromisso de ficar no KFH até 2016.

Alemanha é aposta

A contratação de Pedro Casquinha acontece numa altura em que o banco do Kuwait está a crescer a nível internacional na área da banca de retalho e private banking, com uma aposta forte na Turquia e na Alemanha, onde vivem milhões de turcos. “O banco está a tornar-se uma multinacional. Abrimos duas sucursais na Alemanha e o objetivo é termos 30 agências no país nos próximos dois anos.” Na Turquia, o KFH tem 300 agências. França é o país que se segue.

Sendo um dos mais antigos bancos islâmicos, o KFH ganhou clientes aos concorrentes tradicionais, tal como outros bancos islâmicos, ao longo dos últimos anos em que a crise financeira expôs a crise de valores e de práticas duvidosas no sector financeiro. “A banca islâmica foi o porto seguro de muitos clientes durante a crise”, afirma Pedro Casquinha.

O lucro do banco subiu 14,1% no primeiro semestre de 2015 para 32,4 milhões de dinares (€95,5 milhões) suportado numa margem financeira mais elevada e reestruturação de crédito malparado. E deverá registar novos ganhos com a continuação da reestruturação do grupo.
O banco está a levar a cabo uma reestruturação dos seus negócios, e esteve na mesa a venda da operação na Malásia, o que foi esta semana posto de parte. O objetivo do KFH é ficar com uma estrutura de negócios mais simplificada antes do planeado desinvestimento pelo seu maior acionista, a Autoridade de Investimento do Kuwait, segundo a Reuters.

Por outro lado, os riscos geopolíticos estão sempre presentes. A região enfrenta riscos acrescidos com a situação na Síria, a expansão do autodenominado Estado Islâmico e o acordo entre o Irão e o Ocidente deixa dúvidas sobre o futuro. “Vai haver mudanças”, assegura o gestor.

Finanças compatíveis com a Sharia

A banca e as finanças que respeitam os princípios da lei islâmica proíbem o pagamento de juros em troca de um empréstimo. Também está vedado o investimento em empresas que vendam bens ou prestem serviços ligados ao consumo de bebidas alcoólicas, à carne de porco ou ao jogo, por exemplo. O mercado para produtos e serviços financeiros islâmicos está a crescer a um ritmo cada vez mais acelerado. A entrada do KFH na Alemanha (com a marca Kuveyt Türk) é um indicador da crescente apetência por este tipo de serviços financeiros na Europa. As estimativas sugerem que o mercado de serviços financeiros islâmicos vale entre 1,6 biliões de dólares (€1,4 biliões) e 2,1 biliões de dólares (€1,9 biliões, que correspondem a cerca de 1% do mercado total, com uma taxa de crescimento anual de 17,3% entre 2009 e 2013).

DISCURSO DIRETO

Emigração I
“Os portugueses têm a capacidade de se misturar com outras culturas. Está-nos no sangue”

Portugueses
“Somos muito de extremos: ou somos os melhores do mundo ou somos os piores. Falta-nos aquele meio termo”

O melhor de Portugal
“Portugal tem uma capacidade enorme de atrair visitantes e de exportar talentos”

Emigração II
“Não é por ser viajada que uma pessoa é mais competente. Pode dar outro contributo”

Financiamento do terrorismo
“O banco tem critérios de transparência que são extremamente rigorosos”

Estado Islâmico
“O ISIS é inimigo dos países do Golfo. Houve atentados no Kuwait”