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Semana vermelha para as bolsas e para o real brasileiro

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Janet Yellen, presidente da Fed, durante o discurso na universidade do Massachussetts

MARY SCHWALM/REUTERS

Apesar da presidente da Fed desfazer o tabu, Wall Street acabou por fechar a semana no vermelho. Emergentes tiveram uma quebra bolsista de quase 5% e a moeda brasileira afundou-se. Juros subiram nos periféricos e Fitch não retirou a dívida portuguesa da notação de “lixo financeiro”

Os índices bolsistas MSCI para as principais “regiões” do mundo indicam perdas acumuladas durante esta semana, com os mercados emergentes a liderarem com perdas de 4,99%, seguidos da Europa com uma quebra de 4,35%, da Ásia Pacífico com uma queda de 3,37% e, finalmente, dos Estados Unidos com um recuo de 1,51%.

O pior dia nas bolsas europeias verificou-se a 22 de setembro (com uma quebra de 3,7% no índice MSCI para a região) e o melhor na sexta-feira embalado pelas palavras de Janet Yellen, a presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), no dia anterior. A volatilidade na Europa subiu durante a semana, com o índice de pânico financeiro a aumentar 7,45%, mas ainda longe do pico de 24 de agosto.

A América Latina destacou-se com três das maiores quedas da semana na bolsa de Caracas (o índice IBC caiu 8,6%), Buenos Aires (o índice Merval recuou 7,2%) e São Paulo (o índice iBovespa perdeu 5,2%).

No terreno cambial foi uma semana negra para o real brasileiro, com a moeda a atingir picos de desvalorização desde a sua criação em 1994, com o euro a fixar um máximo de 4,7304 reais e o dólar a atingir 4,1041 reais no fecho de dia 24 de setembro.

Quatro eventos

A semana ficou marcada por quatro eventos. Dois afetaram negativamente: o escândalo surgido no domingo em torno da Volkswagen que provocaria contágio nas construtoras automóveis e a prestação no dia 23 de Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), perante a Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu em que não desfez o tabu se o banco central irá avançar para uma ampliação do atual programa de compras de dívida pública e privada face à fraca prestação da inflação na zona euro. O BCE acabaria por registar um fiasco na quinta operação de abertura da linha de financiamento de longo prazo condicionada (conhecida pelo acrónimo em inglês TLTRO) no dia 24, com os bancos da zona euro a pedirem apenas 15,5 mil milhões de euros face a 73,8 mil milhões na operação anterior de junho.

O terceiro evento, as tão esperadas declarações da presidente do mais importante banco central do mundo, animaram as bolsas da América Latina e da Europa no dia seguinte, mas não inverteram a trajetória global negativa da semana, continuando em aberto qual vai ser o seu impacto no curto prazo. O quarto foi a vitória do Syriza na Grécia e a formação, de novo, de um governo de coligação entre este partido e o aliado Anel.

Fed desfaz tabu mas mercados ainda não estão convencidos

O evento mais importante passou-se indiscutivelmente em solo americano. Janet Yellen, a presidente da Fed, o mais importante banco central do mundo, desfez o tabu na quinta-feira anunciando a subida das taxas de juro ainda até final do ano, num discurso em que quase ia desmaiando em direto numa universidade do Massachusetts.

A maioria dos mercados bolsistas agradeceu no dia seguinte, mas, paradoxalmente, Wall Street fechou sexta-feira com ganhos no Dow Jones de 0,7% e perdas no S&P 500 e no Nasdaq. Globalmente, o índice MSCI para os Estados Unidos, perdeu 0,08% na sexta-feira e as perdas acumuladas durante a semana somaram 1,51%. As palavras de Yellen ainda não convenceram os mercados financeiros. O observatório da CME para os futuros das taxas diretoras de juros da Fed aponta para uma probabilidade de 11% para o início da subida dos juros na reunião da Reserva Federal em outubro, para 39% na reunião de dezembro e 51% na reunião de janeiro.

O real brasileiro afundou-se. Registou máximos de desvalorização face ao euro e ao dólar esta semana. Desde a sua criação em 1994, nunca chegara a uma situação em que o euro e o dólar valem mais de 4 reais. A desvalorização durante setembro foi de 18,19% face ao dólar e de 6,8% face ao euro. A 23 de setembro, o dólar galgou a barreira dos 4 reais, superando o máximo de 3,99 registado a 10 de outubro de 2002, na sequência de Lula da Silva se ter posicionado em primeiro lugar na primeira volta das Presidênciais a 6 de outubro. No entanto, como alguns economistas brasileiros chamam a atenção, esta comparação é feita em termos nominais.

O presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, tentou, na quinta-feira, acalmar a situação afirmando que o banco tem “todos os instrumentos disponíveis” para enfrentar a volatilidade, nomeadamente o recurso às suas reservas em divisas que montam a 371 mil milhões de dólares. As palavras de Tombini fizeram subir no dia seguinte, sexta-feira, o câmbio do real face ao euro (que desceu de um pico de 4,7304 para 4,4495 reais por euro no fecho da semana) e face ao dólar (que desceu de um pico de 4,1 para 3,9726 reais por dólar no fecho da semana), segundo dados da Investing.com.

Fitch não altera rating da dívida portuguesa

No mercado da dívida soberana da zona euro, a indefinição de Draghi não teve impacto positivo nas yieds das obrigações a 10 anos dos periféricos e a formação do novo governo helénico não se traduziu por uma descida nas yields das obrigações gregas naquele prazo de referência.

No espaço de uma semana, as yields das obrigações gregas a 10 anos subiram de 8,41% para 8,54%, ainda que o nível deste custo de financiamento a longo prazo registe uma trajetória global descendente desde o pico de mais de 19% em julho, quando o risco de uma Grexit (saída da Grécia do euro) e de uma bancarrota esteve no auge.

As yields das Obrigações do Tesouro português subiram 10 pontos base ao longo da semana, fechando em 2,61%, longe do mínimo histórico de 1,5% em março e praticamente ao mesmo nível do fecho a 31 de dezembro de 2014 (2,69%).

A agência de notação Fitch resolveu na sexta-feira não graduar para grau de investimento o rating da dívida de longo prazo portuguesa, mantendo a notação em BB+, ainda em terreno de dívida considerada especulativa (vulgo “lixo financeiro”). A agência estima que não haverá grande alteração na política orçamental e económica depois das próximas eleições legislativas que se realizarão a 4 de outubro, já no final da próxima semana. Mas sublinha que “vários cenários políticos são possíveis” e que há “incerteza” sobre a rapidez de formação de um novo governo.

  • Janet Yellen confirmou esta quinta-feira numa conferência numa universidade norte-americana que, se não houver surpresas, ela e muitos dos membros da direção da Reserva Federal (Fed), antecipam uma provável primeira subida dos juros ainda até final deste ano. Acabou a conferência manifestando sinais de desidratação