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Escândalo na Volkswagen. O grande desastre alemão

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JULIAN STRATENSCHULTE

A gestão do maior conglomerado industrial alemão foi esta semana ‘varrida’ para a Volkswagen poder renascer do “Dieselgate”

Onze milhões de veículos do Grupo Volkswagen (VW) foram dotados de um software que alterou dados sobre o teor das suas emissões poluentes, provocando o escândalo “Dieselgate”. Além da demissão do presidente do Grupo VW — Martin Winterkorn, que já anteriormente se tinha envolvido em ‘guerras’ com o líder histórico da VW, Ferdinand Piëch —, do efeito negativo na imagem do grupo e das perdas bolsistas imediatas, este “Dieselgate” promete ‘varrer’ a gestão do maior conglomerado industrial alemão.

Apesar de, ao terceiro dia, as ações da Volkswagen terem fechado a subir na bolsa da Frankfurt — contrariando perdas acumuladas que chegaram, no pico da queda, aos €27 mil milhões em bolsa, nas duas primeiras sessões da semana —, as ondas de choque provocadas pelo escândalo das emissões poluentes continuam a propagar-se.

Já depois da demissão de Martin Winterkorn, presidente executivo da Volkswagen, com 68 anos — que, entre a pensão de €28,5 milhões e várias compensações, leva uma indemnização que poderá chegar aos €60 milhões, segundo a agência AFP —, a marca Seat, do grupo VW, também reconheceu, segundo o jornal espanhol “El País”, ter instalado o mesmo sistema de controle de emissões em 500 mil carros. Este problema relaciona-se com os novos motores diesel “EA189”, que supostamente cumprem as normas de emissões poluentes Euro6.

Por outro lado, a concorrente alemã BMW foi envolvida no manto das suspeições, segundo a revista alemã “AutoBild”, nomeadamente por terem sido detetadas emissões superiores ao permitido no modelo X3 a diesel. A resposta dos mercados traduziu-se numa queda de 5,7% das ações da marca bávara, a meio da sessão de quinta-feira.

Este terramoto ultrapassou a fronteira da economia e chegou aos corredores da chancelaria, em Berlim, obrigando a líder alemã, Angela Merkel, a pedir à Volkswagen que garanta “transparência total” no caso da manipulação das emissões poluentes.

Com o “Dieselgate” ficou manchada a credibilidade do “país eficiência” e ferido o orgulho nacional germânico, atendendo a que entre os acionistas da Volkswagen está o próprio Estado da Baixa Saxónia, um dos sindicatos alemães mais fortes e tradicionais e a histórica família Porsche, de origem austríaca.

Analistas do sector automóvel são unânimes em garantir que toda a indústria automóvel europeia acabará por ser afetada, em especial no segmento dos carros movidos a diesel. Aliás, a guerra ao diesel continua a ter fortes contornos políticos na Europa, tendo motivado contestações por parte de autarcas relevantes, como a presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo.

O escândalo das emissões poluentes acima do permitido rebentou no momento em que a Volkswagen se posicionava no mercado norte-americano para a venda em grande escala de vários modelos a diesel.

O objetivo dos gestores do Grupo VW era catapultar a marca germânica para o topo do ranking de vendas a nível mundial, num eterno duelo que vem mantendo com a japonesa Toyota e com a norte-americana General Motors, para conquistar em 2015 o estatuto de maior construtor mundial.

Com este recuo, a Volkswagen perde o ‘assalto’ ao primeiro lugar do pódio, mas, pior que isso, pode ter vários anos pela frente a recuperar a credibilidade perdida nos últimos dias.

Este escândalo pode também ter reacendido o rastilho da ‘guerra’ contra os automóveis a diesel, que, na verdade, começou oficialmente no ano passado ao nível da União Europeia com a publicação da Diretiva 2014/94/EU.

Assim apresentada, parece apenas mais uma norma burocrática, mas, na verdade, foi nesta norma que se estabeleceram calendários precisos para massificar energias e combustíveis alternativos, menos poluentes, destinados à mobilidade automóvel em geral e a todo o sector dos transportes pesados e do transporte marítimo.

No imediato, e a começar pelos Estados Unidos, o inimigo número um do diesel é o gás natural e a mobilidade elétrica.

Sucessor é homem de confiança da família?

Para suceder a Martin Winterkorn — o presidente cessante do Grupo Volkswagen, que ‘caiu’ com o escândalo das emissões poluentes, já conhecido como “Dieselgate” — foi ‘lançado’ o nome do presidente da Porsche, Mathias Müller (o “The Wall Street Journal” e o jornal alemão “AutoBild” referem-no). A escolha de Müller configura a gestão na continuidade, porque está colado ao acionista de referência do Grupo VW — a família Porsche, que controla direta e indiretamente mais de 30% do Grupo VW. Quer o anterior presidente, Ferdinand Piëch, quer o seu primo Wolfgang Porsche, deram indicações de que o nome de confiança da família era Mathias Müller. No entanto, o gestor que veio recentemente da BMW, Herbert Diess, e o responsável da Audi, Rupert Stadler, são consideradas “soluções” que permitiam um relançamento do Grupo VW mais distanciado da anterior gestão de Winterkorn, marcada pelo “Dieselgate”.

Autoeuropa será afetada?

“Tenho todas as razões para acreditar na Autoeuropa”, palavra de ministro. Pires de Lima garantiu na quinta-feira que os automóveis da Volkswagen produzidos na fábrica da Autoeuropa “não tiveram incorporação” do kit que falseou o desempenho dos motores relativamente às emissões poluentes. O que o ministro da Economia já não pode garantir é que as ondas de choque que abalaram a confiança dos consumidores nos automóveis da marca germânica não cheguem, mais tarde ou mais cedo, à fábrica de Palmela e impliquem a redução da produção, a queda de vendas e a supressão de turnos laborais, com a correspondente diminuição no número de trabalhadores.

Perguntas e Respostas

Será que eu, que tenho um Volkswagen, vou ser prejudicado?
Não. Qualquer custo ou encargo decorrente do escândalo “Dieselgate” será suportado pelo Grupo Volkswagen, que já criou uma provisão de €6,5 mil milhões para fazer face aos problemas que venham a ser identificados — admitindo em comunicado internacional que este valor pode ser reavaliado.

E o valor do meu automóvel vai cair?
O efeito do escândalo “Dieselgate” na reputação das marcas do Grupo Volkswagen ainda é imprevisível, sendo certo que o desempenho dos veículos em circulação não é alterado por causa deste problema.