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Cinco tecnológicas portuguesas entre as melhores do mundo

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O consultor de Silicon Valley, Chris Burry, reunido com os cofundadores da Lapa, João Lobato Oliveira e Luís Certo

LUCÍLIA MONTEIRO

Startups que vão participar no TechMatch Global em outubro receberam conselhos de Silicon Valley

Quatro minutos para apresentar uma ideia, um projeto, um negócio. Apresentação cuidada, com quadros apelativos e promessas de crescimento. No fim, chega a pergunta que fura a bolha de otimismo de quem acaba de falar da sua criação: “Mas... que problema é que o vosso projeto vem resolver?” Esta foi uma das frases mais usadas pelo consultor norte-americano Chris Burry, que esteve no início desta semana no Porto, na sede da ANJE — Associação Nacional de Jovens Empresários, a ajudar 15 projetos tecnológicos portugueses nas apresentações que prepararam para investidores de Silicon Valley. Objetivo? Qualificarem-se para a final do TechMatch Global (ver caixa ao lado), que juntará 60 startups em Bratislava no próximo mês. Durante os dias de segunda e terça-feira, as 15 startups estiveram reunidas com o consultor e, no final, apresentaram os seus projetos a investidores do outro lado do Atlântico, via Skype. Dessas, cinco passaram à fase seguinte da iniciativa: Stuck.IO, Lapa, Movvo, Glexzy e Wise Connect.

Como atrair investidores

No decorrer das reuniões com Chris Burry, copresidente do US Market Access Center (USMAC), os empreendedores portugueses foram confrontados com questões inesperadas, como “Este projeto é solução para que problema?” ou “Que montante de investimento procuram?”. São perguntas sem resposta em algumas das apresentações feitas, o que é ‘típico’ dos empreendedores. Segundo Chris Burry, os criadores estão tão envolvidos na ideia que têm e conhecem o seu modelo de negócio tão bem, que muitos têm dificuldade em responder às perguntas mais básicas, essenciais para quem nunca ouviu falar dos projetos. “Querem falar de mais, sentem que não podem deixar nada de fora, mas depois não respondem a perguntas como ‘Quem é o cliente?’ ou ‘Qual é o problema que vão solucionar?’”.

A equipa que gere o projeto também é importante nas apresentações que se fazem a investidores. Chris Burry sugeriu a todos os participantes que, ao invés de “gastarem” um slide e parte do discurso com fotos e descrição de todos os membros da equipa, se concentrassem nas pessoas “insubstituíveis”, aquelas que têm mesmo algo a acrescentar ao negócio. “Se o engenheiro informático ou o diretor de marketing saísse amanhã da empresa, conseguiriam arranjar outro para fazer o seu trabalho? Qual é a pessoa da equipa com que não podem deixar de contar no vosso projeto? É sobre essa que têm de falar aos investidores”, aconselha, rematando: “Uma equipa boa pode corrigir um mau produto, mas um produto bom não consegue corrigir uma má equipa”.

Contar a origem das histórias é outras das recomendações que Chris Burry faz. No caso da Wise Connect, por exemplo, empresa que criou um sistema de apoio à decisão agrícola, o WiseCrop (ver descrição à direita), a apresentação inicial não contava o momento em que a ideia surgiu. O consultor perguntou e ficou a saber que tudo teve início num projeto de universidade e que foi bem recebido no sector agrícola. “É bom contar a origem da história, como tudo começou e evoluiu. A origem da história é o que amarra os factos e os investidores querem conhecê-la”, afirma Burry.

“Impressionado” com o espírito empreendedor português, o consultor norte-americano identifica as características comuns a quem cria um negócio. Têm de ter um conjunto de competências necessárias para a área em que trabalham (skill set) e o mind set certo. “Mesmo que tenham todas as competências, não resulta se não estiverem focados no cliente e em ganhar dinheiro”, refere. Criar o negócio no tempo certo também é importante, bem como ter um pouco de sorte. “Sim, sorte. Há sempre um pouco de sorte. Se me sentei ao lado de um investidor que veio a entrar na minha empresa, isso é sorte”, acredita Burry.

No caso dos cinco finalistas portugueses que vão estar em Bratislava, parte da sua sorte será já decidida no próximo mês. Os investidores procuram, sobretudo, projetos ligados à realidade virtual e a tecnologias que melhorem a eficiência das suas empresas. Na seleção feita em Portugal também participaram os projetos Cuckuu (relógio de alarme que motiva os utilizadores com interações divertidas), Facestore (tecnologia que permite abrir lojas online diretamente nas redes sociais), GetSocial (software que apoia os sites a aumentarem o seu tráfico e partilhas nas redes sociais), iClio (app JiTT.Travel que guia os viajantes de acordo com a sua localização e disponibilidade temporal), Line Health (solução tecnológica que concede autonomia aos doentes crónicos na monitorização da sua saúde), Muzzley (plataforma que coneta todos os dispositivos de casa, permitindo um controlo inteligente dos espaços), Quidbox (gadget que centraliza serviços televisivos), Tuizzi (mercado de publicidade outdoor que conecta anunciantes e detentores de espaços publicitários), Tradiio (app musical e acelerador artístico onde os utilizadores lançam novos talentos) e Tripaya (site que combina orçamento com interesses e tempo).

O que é o TechMatch

Cinco projetos finalistas vão representar Portugal no TechMatch Global, o maior programa de avaliação de startups tecnológicas do mundo, que se realiza este ano em Bratislava, na Eslováquia, entre 12 e 16 de outubro. A iniciativa arranca com um prémio de 300 mil dólares e tem cinco jornadas, onde 60 startups se apresentarão a investidores de Silicon Valley e empresas como a Adobe, a Cisco, a LG, a Oracle, a Sony, a Dell ou a SAP. A ANJE é o parceiro português do evento e foi responsável pela triagem das melhores startups lusas, a partir de um universo de 15 projetos sugeridos por diferentes entidades do ecossistema empreendedor, como a Beta-i, a Startup Lisboa, a Universidade do Minho (TecMinho), a Universidade do Porto (Uptec), o ISCTE - Building Global Innovators (BGI), a Startup Braga, o Instituto Pedro Nunes (IPN), a DNA Cascais, o Instituto Nacional de Engenharia Biomédica (INEB) e a Católica – Lisbon School of Business and Economics.

Da esquerda para a direita: Tiago Martins, André Godinho Luz (em cima), Roberto Ugo, João Oliveira e Tiago Sá (em baixo)

Da esquerda para a direita: Tiago Martins, André Godinho Luz (em cima), Roberto Ugo, João Oliveira e Tiago Sá (em baixo)

Os cinco finalistas

TIAGO MARTINS, STUCK.IO
Biblioteca de formação para software developers que converte informação preexistente em cursos online. Esta plataforma online de ensino de programação permite aos utilizadores criarem de raiz, de forma simples, serviços como redes sociais ou diretórios.

ANDRÉ GODINHO LUZ, GLEXYZ
Plataforma integrada que permite testar produtos através de simulações virtuais que substituem o processo tradicional de engenharia (tentativa e erro) por cálculo rigoroso no computador, diminuindo o custo e tempo de engenharia de um produto e processo de fabrico.

ROBERTO UGO, MOVVO
Ferramenta que funciona como um Google Analytics offline para os retalhistas, permitindo perceber em tempo real, através de um sistema tecnológico de posicionamento em espaços interiores e exteriores, os tempos e as rotas nas deslocações de pessoas, de forma anónima.

JOÃO OLIVEIRA, LAPA
Localizador que permite que os utilizadores encontrem os seus “perdidos” (como chaves, carteira, óculos ou mochila) utilizando o telemóvel, com base na tecnologia bluetooth low energy (de baixo consumo). É compatível com mais de 150 dispositivos.

TIAGO SÁ, WISECONNECT
O WiseCrop é uma plataforma online para produtores agrícolas que, através de uma rede de sensores sem fios, permite recolher dados para detetar doenças, pragas, clima anormal, stresse hídrico e má nutrição da planta, lançando alertas antes da plantação sofrer danos.