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Draghi em Bruxelas: BCE não hesitará em agir, se necessário

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O presidente do Banco Central Europeu, em resposta à deputada portuguesa Elisa Ferreira, garantiu aos parlamentares europeus que se os riscos negativos prejudicarem as projeções de setembro, os banqueiros centrais reagirão. Mas Draghi quer um “centro político” na zona euro e a conclusão da união bancária

Jorge Nascimento Rodrigues

“Reagiremos, se necessário”, garantiu em Bruxelas esta quarta-feira Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), perante os parlamentares da Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu (PE), em resposta a uma pergunta da deputada portuguesa Elisa Ferreira.

A promessa não é nova. Já a havia feito na última conferência de imprensa na sequência da reunião do BCE de setembro.

Se os riscos negativos se acentuarem para além da revisão em baixa da inflação e do crescimento na zona euro que o BCE já realizou para a reunião de setembro, o banco central da moeda única “não hesitará em agir”, como Draghi acentuou na sua intervenção inicial no âmbito do terceiro “diálogo” de 2015, uma intervenção trimestral que o presidente do BCE realiza no PE.

Sublinhou, por isso, que o atual programa de compras de dívida pelo BCE - referido como um quantitative easing (QE) com as cores do euro - é “suficientemente flexível” para acomodar alterações. “Se a inflação permanecer débil, o BCE está pronto para modificar a composição, a duração e a dimensão do programa”, disse Draghi.

Os riscos negativos de que fala prendem-se com a situação nas economias emergentes, incluindo a China, na evolução do euro (desvalorizou 8,9% nos últimos dois anos, mas valorizou 2,8% nos últimos seis meses) e na queda do preço do barril de petróleo e de outras matérias-primas. Draghi insistiu que é “ainda cedo para avaliar com confiança suficiente” o impacto dessas tendências internacionais na trajetória da inflação e do crescimento europeu. O BCE não sabe se o abrandamento nas economias emergentes é “temporário ou estrutural” e também não tem ainda uma conclusão se a atual retoma na zona euro (1,5% no segundo trimestre), é apenas cíclica ou estrutural.

Duas coisas são certas, repetiu Draghi: a subida da inflação é mais lenta do que os banqueiros centrais do euro esperavam (aliás, caiu para 0,1% em agosto) e convergir para a meta de próximo de 2% “levará mais tempo do que previamente antecipado”.

Em resposta a uma pergunta, Draghi admitiu analisar o interesse para a zona euro das propostas do novo líder do Partido Trabalhista britânico no sentido do banco central (no caso proposto, o Banco de Inglaterra) comprar diretamente dívida obrigacionista emitida por um Banco Nacional de Investimento que se dedicasse a financiar projetos de infraestruturas. O novo líder trabalhista, Jeremy Corbyn, avançou, durante a campanha eleitoral no seu partido, com a ideia de um “QE para o povo”, que chegasse à economia real. Na ponta final da campanha, sublinhou que tal iniciativa seria para lançar "em determinadas circunstâncias". “Vamos certamente considerar essas ideias, mas não devemos subestimar os aspetos legais”, concluiu Draghi.

No entanto, Draghi desloca a questão para o terreno político mais amplo que ultrapassa a política monetária. Segundo o presidente do BCE, a retoma cíclica na zona euro só poderá transformar-se em estrutural se, para além da política monetária, houver “confiança” noutras dimensões. Por isso, recordou as propostas do chamado Relatório dos 5 presidentes, que apontam para “uma união mais perfeita”, utilizando, disse Draghi, o sentido dado pelos norte-americanos.

No plano político mais amplo, a União Monetária necessita de “um centro político” que tome as decisões relevantes nos planos orçamental, económico e financeiro. Recordou a proposta de um Tesouro para a zona euro como um todo e a necessidade de uma “estabilização orçamental ao nível europeu”. Draghi insistiu no outro pilar necessário, o da conclusão do processo de união bancária, “sem exigir grandes alterações nos Tratados”.