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Negócio imobiliário angolano em queda livre

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Em alguns bairros de luxo, as rendas tiveram quebras abruptas nos últimos tempos

MIQUEIAS MACHANGONGO

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Já lá vai o tempo em que o negócio imobiliário, depois do petróleo e dos diamantes, chegou a constituir a principal fonte de rendimentos para a classe média/alta em Angola.

Tudo estava assente num carrossel de betão armado que acabou por promover uma perigosa política de exclusão social com a importação, do Brasil, do seu modelo de condomínios fechados.

Até a construção de um shopping no sopé da antiga Fortaleza de São Miguel — numa tentativa de apagamento da história, segundo alguns críticos — não escapou à voracidade do betão.

Com a eclosão da descida abrupta do preço do petróleo e da crise que desencadeou na economia angolana, a bonança arrefeceu e agora está a dar lugar ao pesadelo. Já lá vai, por isso, o tempo em que, a renda de uma vivenda num bairro como Miramar ou Alvalade — adquirida ao Estado por pouco mais de 2 mil dólares depois dos antigos proprietários portugueses terem abandonado o país — equivalia a um encaixe de 30 a 40 mil dólares por mês.

Outra raridade agora também é a oferta, por uma vivenda num condomínio de luxo no Morro Bento, em Talatona ou no bairro Azul ou do Cruzeiro, de verbas equivalentes a acumulação anual, de uma assentada, de 300 mil dólares, livres de impostos.
No passado, perante ofertas dessa magnitude, um antigo governante, não hesitou em investir na compra de um número de habitações, de primeira linha, correspondente a uma rua inteira num dos bairros mais luxuosos de Luanda.

Arrendou-as a empresas estrangeiras durante anos e assegurou uma super-reforma em Portugal” — confidenciou ao Expresso, uma fonte de uma firma de mediação imobiliária.

Petrolíferas pagam mais

As embaixadas, as ONG e as empresas ligadas ao sector diamantífero figuravam entre os principais clientes da nova burguesia local. Mas as companhias petrolíferas apresentaram sempre, de longe, os preços mais apetecíveis. Nalguns casos, chegavam a oferecer por um apartamento novo na baixa de Luanda ou nas Torres Dipanda, cerca de 18 mil dólares por mês.

“Não se importavam de pagar esses valores porque, no limite, é um encargo que acaba diluído nos custos de produção”, explicou Miguel Sakaneno, economista da petrolífera angolana, Sonangol.

Com o negócio imobiliário em alta, muita gente conseguiu transferir somas significativas de dólares para o estrangeiro, nomeadamente para Portugal, para investir na compra de uma casa ou em herdades.

A incerteza sobre o futuro político do país é outro dos grandes motivos para muitos angolanos colocarem os seus rendimentos fora do país. Mas, para outras pessoas, o arrendamento de vivendas ou de apartamentos, mesmo em segunda mão, constituía fonte de sustento para pagar os estudos dos filhos no estrangeiro ou as despesas médicas dentro e fora de Angola.

“Se não tivesse arrendado a casa, com o magro salário que ganho, não sei como haveria de sustentar a família”, confessa Gabriel Joel, funcionário do ministério do Ambiente.

Juros disparam nos bancos

Agora, os tempos são outros. São tempos de fortes restrições na concessão de empréstimos à habitação cujos juros dispararam, nalguns bancos, dos 10 a 12% para os atuais 18%.

Como se isso não bastasse, a estrondosa baixa do preço do petróleo está a provocar dores de cabeça a muita gente que, sem alternativa para contornar a situação, não se preveniu em tempos de vacas gordas para enfrentar a atual hecatombe financeira do país.

Se a venda de apartamentos havia atingido o auge com o sonho da casa própria alimentado pelo Governo, hoje esse sonho desvaneceu-se por completo.
Os clientes empresariais internacionais, de acordo com um estudo da Abacus, uma das empresas de consultoria imobiliária em Angola, preferem o arrendamento à compra.

Mas “aquilo que se arrendava no passado por 8 a 10 mil dólares, hoje o mercado, na maioria dos casos, oferece menos do que metade”, disse ao Expresso, Horácio Joaquim, proprietário de cinco apartamentos na zona de Talatona.

E, o pagamento de rendas antecipadas — mesmo a preços mais baixos — que cobriam 6 a 12 meses por contrato médio de três anos, chegou agora ao fim.
Como ao fim chegaram também os pagamentos em divisas. Muitos proprietários, que adquiriram bens imobiliários à época em que, alguns bancos ofereciam crédito fácil, ao não conseguirem agora vendê-los ou arrendá-los, vivem momentos de verdadeira angústia...

Com a bolha imobiliária há muito anunciada, dezenas de condomínios e milhares de apartamentos novos fechados tendem a ter a imagem de algumas urbanizações-fantasma da China.

O futuro dos hotéis, que cobram diárias de 500 dólares mas oferecem um serviço de segunda, também nunca esteve, como agora, tão sombrio.