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Banco central dos EUA decide não subir as taxas de juro

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A Reserva Federal norte-americana deixou os juros no intervalo entre 0% e 0,25%, um mínimo em que se encontra desde 16 de dezembro de 2008. China, economias emergentes e inflação muito baixa travaram decisão de subida dos juros

Jorge Nascimento Rodrigues

Depois de dia e meio de reunião, o comité de política monetária da Reserva Federal (Fed), o banco central dos Estados Unidos, optou esta quinta-feira por não iniciar o processo de subida da taxa de juro que se encontra a variar num intervalo entre 0% e 0,25% desde 16 de dezembro de 2008. Nesse intervalo, a taxa de juro efetiva desceu para um mínimo de 0,07% em janeiro e fevereiro de 2014 e subiu para 0,14% em agosto passado. A última vez que a Fed subiu a taxa de juro foi em julho de 2006, aumentando a taxa para 5,25%, o máximo do anterior intervalo.

A situação atual da economia americana é caraterizada por uma retoma com um ritmo de crescimento muito superior ao da Zona Euro e do Japão, com uma situação de quase pleno emprego (com a taxa de desemprego em agosto em 5,1%, menos de metade da registada para a Zona Euro que se situa em 10,9%), mas com a inflação em níveis muito baixos, uma situação similar ao que ocorre na Zona Euro, no Reino Unido e no Japão. A inflação na economia norte-americana estacionou em 0,2% em agosto, segundo o Gabinete de Estatísticas do Trabalho, muito longe da meta de 2% do mandato do banco central norte-americano.

A inflação baixa e o contexto internacional marcado sobretudo pelo fator China levaram a Fed a não mexer ainda na taxa de juro. "Os desenvolvimentos económicos e financeiros recentes a nível global poderão restringir a atividade económica e provavelmente pressionarão em baixa a inflação no curto prazo", refere o documento divulgado pela Fed, sublinhando que os banqueiros centrais norte-americanos "monitorizarão os desenvolvimentos no estrangeiro". Esta nova expressão - monitorização dos desenvolimentos no estrangeiro - indica que o banco central norte-americano admite explicitamente que as suas decisões têm de tomar em linha de conta o quadro global e não só o andamento dos indicadores domésticos ligados ao seu mandato (inflação e desemprego).

A cautela da Fed em evitar, por ora, dar o primeiro passo de "normalização" da política de juros, prende-se com a dificuldade dos bancos centrais em contrariar a desinflação importada por via da baixa dos preços das matérias-primas (em particular do preço do barril de petróleo) e a incerteza sobre a evolução da transição na China e o impacto nas economias emergentes do abrandamento do crescimento na segunda maior economia do mundo.

Votaram a favor da decisão nove membros do comité e registou-se um voto contra de Jeffrey Lacker, presidente do Banco da Reserva Federal de Richmond, que defendia a decisão de subida imediata dos juros em 25 pontos base.

A Reserva Federal realiza mais duas reuniões, uma a 27 e 28 de outubro e outra, a última do ano, a 15 e 16 de dezembro. Uma maioria significativa de 13 em 17 membros dos governadores do sistema da Reserva Federal acha que o início da subida dos juros deverá ocorrer ainda este ano, pelo menos um primeiro movimento, enquanto três pretendem que tal decisão seja adiada para 2016 e um governador defende inclusive o corte nos juros, tornando-os negativos, como acontece atualmente na Suíça (entre -1,25% e -0,25% desde janeiro de 2015) e na Suécia (-0,35% desde setembro de 2015). Esta correlação de forças indica que se mantém em aberto a possibilidade do início da subida dos juros se verificar ainda em 2015.

No exterior do edifício onde a presidente da Fed, Janet Yellen, realizará a conferência de imprensa dentro de meia hora, a coligação “Fed Up” entoava cânticos pedindo “Mantenha as taxas baixas, deixe os nossos salários subir”. O congressista democrata John Conyers juntou-se aos manifestantes avançando com a sua proposta de definir a situação de pleno emprego com uma taxa de desemprego de 4%. A taxa de desemprego estava em agosto em 5,1% e os banqueiros centrais estimam, agora, que possa descer para 4,8% em 2016.

Pela mesma hora que a comunicação da Fed foi divulgada, o subsecretário para os assuntos internacionais da Secretaria de Estado do Tesouro, Nathan Sheets, um ex-funcionário da Fed, entrou para uma audiência no subcomité sobre política monetária e comércio internacional do Congresso, onde deverá responder aos congressistas em matéria de situação da economia global.