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China e Reserva Federal dos EUA condicionam crescimento mundial

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No dia em que se iniciou a reunião de política monetária da Fed nos Estados Unidos, o Relatório Interino da OCDE aponta os dois fatores principais que levaram a organização a rever em baixa as previsões de crescimento mundial para este ano e o próximo

Jorge Nascimento Rodrigues

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) cortou ligeiramente nas previsões de crescimento mundial para 2015 e 2016 que havia realizado em junho, segundo o “Relatório Interino” publicado esta quarta-feira, preliminar ao relatório “Economic Outlook” de novembro. Em vez de 3,1%, o crescimento do PIB mundial deverá ser de 3% em 2015. Quanto a 2016, a revisão em baixa foi maior, em vez de 3,8% deverá crescer 3,6%.

As razões para esta revisão em baixa prendem-se a um ligeiro corte na taxa de crescimento da China nos dois anos, com crescimentos do PIB abaixo da meta política de 7% definida por Pequim, e à incerteza sobre o impacto da “normalização” da política monetária da Reserva Federal norte-americana (Fed), ou seja do início da subida das taxas de juro do principal banco central do mundo que têm estado entre 0% e 0,25% desde dezembro de 2008.

O peso do fator China

Nas novas previsões, a OCDE aponta para um crescimento de 6,7% e 6,5% da segunda maior economia do mundo nos anos de 2015 e 2016, uma revisão em baixa de 0,1 e 0,2 pontos percentuais respetivamente em relação a junho. O risco principal para a economia mundial, adianta o relatório, é um abrandamento maior do que o esperado na economia chinesa.

Uma simulação do modelo macroeconómico usado pela OCDE revela que uma redução acumulada do crescimento da procura interna chinesa de 2 pontos percentuais em 2016 e 2017 provocará uma redução de três décimas na taxa de crescimento do PIB mundial em 2016 e de meio ponto percentual na taxa de crescimento no ano seguinte. As duas grandes economias mais afetadas por esta redução chinesa serão o Japão e a Rússia no conjunto dos dois anos.

O segundo fator em destaque é a política monetária da Fed. A OCDE reconhece que “em breve” o banco central norte-americano necessitará de iniciar o processo de subida das taxas de juro que estão num intervalo próximo de 0%, historicamente muito baixo desde dezembro de 2008.

O relatório da OCDE refere uma simulação do impacto de duas dicotomias da política monetária da Fed no PIB dos EUA em 2017: uma subida imediata (já nesta reunião de setembro da Fed) ou mais tarde (com início da subida em janeiro de 2016); e uma subida gradual (que todas as instituições pedem) ou rápida. Os resultados da simulação revelam que o efeito negativo de uma subida imediata em setembro de 2015 será muito reduzido na taxa de crescimento de 2017. O verdadeiro problema é se o processo de subida da taxa de juro é rápido e não gradual. Um aumento “rápido” provocará uma redução de 0,4 pontos percentuais na taxa de crescimento do PIB norte-americano em 2017.

O que impede a Zona Euro de ter crescimento "norte-americano"

A Zona Euro está em retoma, mas “menos avançada do que nos EUA”, refere o relatório. O problema da zona da moeda única face aos Estados Unidos é que os três fatores conjunturais favoráveis – a descida do preço do barril de petróleo, a desvalorização do euro e o nível historicamente muito baixo dos juros da dívida soberana de longo prazo dos membros do euro – não são suficientes para puxar a economia do conjunto dos 19 países do euro para o ritmo norte-americano e britânico.

As previsões da OCDE para o crescimento dos EUA e do Reino Unido apontam para 2,4% nas duas economias em 2015 e 2,6% e 2,3% respetivamente em 2016. A OCDE reviu inclusive em alta o crescimento dos EUA para 2015.

Apesar de ter revisto em alta o crescimento da zona euro para 2015, a taxa prevista é de 1,6%. E, em relação a 2016, a OCDE reviu em baixa o crescimento da zona euro, de 2,1% para 1,9%. Uma distância clara em relação aos ritmos de retoma nos EUA e Reino Unido.

Segundo a simulação da OCDE, “a melhoria da taxa de crescimento da Zona Euro está 1 ponto percentual abaixo do que seria esperado do impulso dado pelos três fatores favoráveis [assinalados acima]”. Ou seja, se o trio de fatores favoráveis tivesse um impacto pleno na Zona Euro, a taxa de crescimento em 2015 seria de 2,6%, superior inclusive à dos EUA e do Reino Unido. O relatório aponta o dedo ao “culpado” desta perda: o peso do sobreendividamento do sector privado e do crédito mal parado na Zona Euro. A OCDE aconselha, por isso, a continuação de uma política monetária “acomodativa” (juros do banco central em mínimos históricos e programa de compra de dívida pública e privada pelo BCE em curso) e de políticas orçamentais “amigas do crescimento”.

A OCDE destaca ainda a recessão no Brasil, com revisões em baixa das previsões anteriores, apontando, agora, para quebras do PIB de 2,8% em 2015 e de 0,7% no ano seguinte. O Relatório confirma que a Índia, entre os BRICS, será a grande economia emergente com mais alta taxa de crescimento: 7,2% em 2015 e 7,3% em 2016.