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Lisboa perde uma loja por semana, Porto ganha duas

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Na Baixa de Lisboa, já não se consegue arrendar nada por menos de €4000 por mês

António Pedro Ferreira

Apesar das aberturas, o número de encerramentos continua muito elevado na capital. Crise e rendas altas são os principais responsáveis

Marisa Antunes

Jornalista

Por semana, estão a ser constituídas 9 novas empresas de comércio a retalho em Lisboa, mas, em contrapartida, há 10 a encerrar no mesmo período. Números do Instituto Nacional de Estatística (INE) dão conta que desde o início do ano até final de julho, o número de constituições de sociedades totalizava as 248 e as dissoluções 272.

Se é certo que o turismo está a potenciar a abertura de novos espaços comerciais em algumas zonas mais centrais de Lisboa, também é uma realidade que o impacto da crise económica no consumo e a revolução causada pela lei do arrendamento que fez disparar as rendas, acabaram por ser decisivos na falência de muitas lojas da capital.

“Neste momento, não se consegue arrendar uma loja na Baixa abaixo dos €4000 e, nestes casos, estamos a falar de cubículos pequeninos com pouco menos de 50 metros quadrados. Na Rua Augusta ou na Rua do Ouro, ambas com vários estabelecimentos encerrados, estão a ser praticadas rendas de €7000, €8000 por mês”, diz Carla Salsinha, presidente da União de Associações do Comércio e Serviços (UACS).

Uma hipervalorização que até já afeta zonas fora dos circuitos mais concorridos. “É o que acontece por exemplo na Almirante Reis, que não é uma zona de referência para o consumo, cujo comércio vive essencialmente dos seus locais, com poder económico baixo, e onde já se praticam rendas de ¤3000 a €4000. Isto numa zona onde qualquer renda acima dos €1500 já é incomportável.”

O mesmo sucede com a Avenida Guerra Junqueiro, Campo de Ourique ou Avenida de Roma, onde as rendas também dispararam apesar do comércio da zona estar fora do circuito turístico.

Com a atual lei do arrendamento a cumprir três anos em novembro, o balanço da porta-voz dos comerciantes de Lisboa é feito de números desanimadores: “Fazendo a nossa análise, eu diria que 20 a 25% do comércio tenha encerrado face à lei do arrendamento de 2012. Um fenómeno transversal a toda a cidade. E atenção, nós sempre fomos favoráveis a que a lei mudasse, mas não deste modo. Deveria ter sido feita de uma forma gradual. Não se pode passar de uma renda de €500 para €3000. Que houvesse até aumentos de 100% mas não assim”.

Carla Salsinha lembra que antes de novembro de 2012, altura em que entrou em vigor a lei do arrendamento que veio flexibilizar as rendas e facilitar os despejos, “apenas 10% dos comerciantes pagavam rendas entre os 20 e os €100, os outros 90% já tinham rendas atualizadas com contratos recentes de 8 ou 10 anos”. Valores, exemplifica, que nas zonas mais centrais passaram em alguns casos de cerca de €1000 para os €7000.

“Muitos lojistas, que pagam ordenados e os seus impostos, com todos os custos de estrutura que possuem, não conseguem suportar isto e encerram. Até muitos dos novos empreendedores que vão entrando no mercado, com produtos e ideias novas, ao fim de um ou dois anos estão a fechar portas”, aponta a responsável.

Para Carla Salsinha, “faltou sensibilidade por parte do Governo para perceber que o comércio da cidade vive muito do consumidor nacional. Há uma parte que pode viver do turismo, mas estes estão circunscritos à Avenida da Liberdade e à Baixa Pombalina”. E mesmo nestas zonas mais turísticas, é preciso pensar em termos de futuro. “E isso significa que não se pode projetar a cidade só para o turismo. Esta avalanche de turistas que todos estamos a aproveitar agora, vai diminuir algum dia. E, porém, em cada hotel que surge na Baixa, três ou quatro lojas deixam de existir.

as que abrem estão direcionadas para o turismo. Como será depois quando o turismo desacelerar?”, questiona Carla Salsinha.

No Porto abrem 5 por semana

A norte, as dúvidas são as mesmas. Nuno Camilo, presidente da Associação de Comerciantes do Porto (ACP), fala da atual “reconversão do comércio a retalho para serviços de hotelaria”: “As pessoas, muitas delas vindas do desemprego, olham hoje para o turismo como uma tábua de salvação. Todos querem montar negócios à volta do turismo, sejam hostels, tuk-tuks, restaurantes, cafés ou tapas”.

Os números do INE referentes ao comércio a retalho para a cidade do Porto mostram que no período entre janeiro e julho deste ano foram constituídas 141 sociedades e encerraram 83. Ou seja, um ritmo médio de cinco aberturas por semana por cada três encerramentos.

Em certas zonas, “como Santa Catarina, Baixa do Porto, Júlio Dinis e Costa Cabral, muitos lojistas receberam propostas para rendas que não eram compagináveis com os custos que as empresas tinham e automaticamente esses espaços ficaram desocupados.”

E já existem lojas, na Baixa do Porto, a serem comercializadas por €15.000 por mês. “Agora imagine-se o que é colocar os custos de estrutura em cima, mais o arrendamento. Quanto é que estas lojas têm de faturar?”

Mesmo assim, o frenesim à volta do turismo continua mais acelerado que nunca. Mesmo que seguido de encerramentos algum tempo depois. “Há 20 anos houve o boom das lojas dos 300. Agora é o turismo. E há ruas inteiras que se reconverteram”, aponta Nuno Camilo.

A Praça dos Poveiros, que “tinha várias lojas desocupadas e muitas outras de diversos serviços, tornou-se um polo em termos de gastronomia”. E os exemplos sucedem-se, alguns em ruas “muito peculiares”, diz o presidente da ACP. É o caso da Rua Escura, junto à Sé, “há meia dúzia de anos era impensável imaginá-la direcionada para o comércio de turismo”. Ou a zona do Túnel de Ceuta, que foi toda reconvertida. “De um momento para o outro, onde existia uma agência de viagens passou a existir um restaurante-bar, a ourivesaria foi transformada num boteco, uma loja de roupa num restaurante, tal como toda a zona das camionetas dos despachantes oficiais que se transformaram em bares e restaurantes”. Reconversões que se replicam em várias zonas da cidade.