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Onde param as 75 mil casas da Argélia?

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O então ministro Santos Pereira deitou os foguetes, mas não houve festa

Tiago Miranda

Nenhum dos contratos avançou. Os preços eram impraticáveis

Fevereiro de 2013. Quatro meses depois da assinatura em Argel de protocolos e parcerias, a diplomacia económica e o ministro da Economia Álvaro Santos Pereira conseguiam um admirável negócio para quatro construtoras portuguesas: a construção de 75 mil casas sociais, distribuídas por várias cidades. Lena, Prebuild e as nortenhas Painhas e Gabriel Couto, os felizes contemplados, não esconderam o entusiasmo com a assinatura dos contratos. A Lena já operava no mercado argelino, as outras companhias beneficiavam de uma excelente oportunidade para se estrearem num promissor mercado externo.

Os números, de facto, impressionavam. Entre obra direta e exportação de materiais, a indústria portuguesa recebia uma injeção de €4 mil milhões. Mas, passada a euforia do momento, a realidade encarregou-se de desfazer as ilusões. Nenhuma empreitada avançou, tudo se resumiu a foguetório mediático. O ministério da Economia, contactado pelo Expresso, remeteu explicações para a AICEP, mas a agência ignorou o pedido de esclarecimento.

O que se passou, afinal? Segundo a Lena, que tomou firme 20 mil casas, a empreitada não avançou “porque as condições apresentadas não eram favoráveis”. A operação implicava uma parceria de capital com uma empresa estatal argelina. “Os preços eram tabelados e absolutamente impraticáveis. Era para perder muito dinheiro”, recorda Joaquim Paulo Conceição, presidente da Lena. Painhas e Gabriel Couto também se desinteressaram e não chegaram a assinar contratos. Continuam ausentes do mercado argelino.

O modelo adotado pela Lena na Venezuela servira de inspiração ao caso argelino, com a instalação de uma central de prefabricação para os elementos estruturais. O grupo ainda pressionou uma revisão das condições, mas em vão. O lado argelino estava confortável: as construtoras chinesas aceitariam aqueles preços. No caso da Lena, o contrato duplicaria uma carteira centrada em hospitais (cinco), estradas e portos, avaliada em €500 milhões.

Prebuild fica no mercado

O revés da Prebuild é diferente. O conglomerado foi o único que arriscou uma joint venture, firmando a adjudicação do complexo de 20 mil casas na cidade de Blida. A ofensiva correu mal. Ainda investiu €350 mil na instalação de uma central de betão e deslocou 20 técnicos. Mas a parceria, explica o grupo, esbarrou na “legislação argelina e na falta de empenho da diplomacia económica”, agravada pela saída da equipa de Álvaro Santos Pereira e a substituição do embaixador em Argel.

O primeiro contratempo verificou-se no plano salarial: teria de pagar aos expatriados pela tabela do parceiro local. Um engenheiro só poderia ganhar €350 por mês. A parceria teve de ser desfeita e decorre ainda o acerto de contas. O sócio argelino tomou conta da empreitada que decorre a um ritmo muito lento.

A Prebuild reconhece que as margens eram muito esmagadas, mas acreditou na virtude do negócio porque ficaria numa posição favorável para construir infraestruturas, escolas e hospitais a preços mais atrativos e a operação induziria a exportação de revestimentos cerâmicos, portas e outros elementos fabricados pelo seu universo fabril. Por exemplo, a Porama, uma carpintaria de Sintra, logo fez as contas e concluiu que venderia 100 mil portas. Sujeita a um Processo Especial de Revitalização (PER), encontra-se agora inativa, sendo uma das quatro do conglomerado no circuito judicial. A Porama deverá ser integrada na Levira, de mobiliário de escritório desativando a base em Sintra.

Mas nem tudo se perdeu nesta infeliz estreia. A experiência levou o grupo a criar a Prebuild Algérie que já assinou com um promotor privado a construção de 800 apartamentos, em Oran, a segunda cidade do país. Uma empreitada de €12 milhões que impulsionará a incipiente exportação de materiais do conglomerado para o mercado argelino.