Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Os 44 anos de um carocha que custou 60 contos e 56 escudos

  • 333

O Carocha de Marcial Pardal foi comprado em 1971, em Évora, e manteve-se na família até aos dias de hoje

Hugo Figueira/DR

Marcial comprou um carocha branco em 1971 que conseguiu manter até hoje. O mercado automóvel mudou nos anos 1980 e sofreu grandes perdas em 2012. Agora está a recuperar e em agosto deste ano as vendas aumentaram 24% em relação ao período homólogo. Este é o terceiro artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Passam agora 44 anos do momento em que Marcial comprou o seu primeiro carro, um carocha branco, novo. Na altura era instrutor de condução em Évora, tinha 31 anos e era precisamente num carocha que dava as suas aulas. Desde então e até hoje, Marcial fez questão de não o vender e de o manter na família, mesmo que o tenha tido parado durante longos anos. Recentemente deu-o ao neto, que decidiu recuperá-lo peça por peça e pô-lo como novo.

Foi em setembro de 1971 que, um dia, Marcial Pardial foi ter com um vendedor da Sociedade Comercial Guérin, um stand da Volkswagen, em Évora – hoje uma agência de aluguer de automóveis –, e mostrou-se interessado em comprar um carro. Porquê um carocha? Por um lado porque era o carro com que trabalhava e, por outro lado, pelo preço. “Não foi bem por gostar do carro. Foi o que eu mais ou menos podia comprar na altura. Já havia carros melhores e isso tudo. Por exemplo, havia o Mini que era mais ou menos para o mesmo dinheiro.”

Marcial tem agora 75 anos e continua a viver em Évora. Hoje lembra que, na altura, quando falou com o vendedor ficou acertado que avançaria primeiro com uma entrada para o carro e depois ficaria a pagar o resto. Lembra-se que o carro custou 60 contos e 56 escudos, ou seja, 15.345 euros a preços de 2014 (segundo o conversor disponível na Pordata que utiliza como deflator o índice de preços no consumidor, com base em 2012).

“Já não me recordo quanto dei de início. Sei que fiquei a pagar o que pudesse pagar cada mês. Acho que o paguei num ano, não foi, Emília?”, pergunta Marcial à mulher, em resposta às questões enviadas pelo Expresso e que o neto, Hugo Figueira, hoje dono do carocha, colocou ao avô, gravando em áudio as respostas.

Marcial não pediu nenhum crédito. “Nunca fui por aí. Nunca fui ao banco para pedir dinheiro, nem sei se me emprestavam, eram capazes de não me emprestar”, conta, a rir, lembrando que na altura o que ganhava não chegava a dois contos por mês, ou seja, 500 escudos por semana.

Antes e depois da entrada na União Europeia

Comprar um carro em Portugal antes de 1986, com a entrada para a então CEE (Comunidade Económica Europeia), era diferente do que é hoje. Helder Pedro, secretário-geral da ACAP (Associação Automóvel de Portugal), traça um panorama do mercado de venda de automóveis em Portugal distinguindo o que era comprar um carro nas décadas de 1970 ou 1980 e o que é nos dias de hoje.

Os dados estatísticos do Banco de Portugal (BdP) mostram que o pedido de créditos para comprar carro foi o principal responsável do aumento do crédito aos consumidores – que sobe 11% em 2014 para 4128 milhões de euros. O relatório de acompanhamento dos mercados bancários de retalho do BdP indica que "a evolução do crédito aos consumidores ficou a dever-se, sobretudo, ao crédito automóvel, que cresceu 33,2%, seguido do crédito pessoal, com um aumento de 10,7%".

Também os dados da ACAP mostram essa evolução. Não só no ano passado em relação ao ano anterior, mas também já em 2015. Em agosto deste ano, as vendas aumentaram 24% face a agosto de 2014. "Em termos acumulados, nos primeiros oito meses do ano foram vendidos em Portugal 146.928 veículos automóveis, ou seja, mais 27,7% do que no período homólogo de 2014." Até ao final de agosto, o mercado de ligeiros atingiu as 144.410 unidades.

“No segundo trimestre de 2013 começou a haver uma ligeira recuperação [na venda de carros]. O mercado automóvel começa a ter um crescimento de 5% a 8% em comparação com 2012. Em 2014 consolidou esse crescimento, com um crescimento à volta de 35%”, explica Helder Pedro.

“Este ano a tendência é semelhante – houve recuperação em junho e em julho houve um menor crescimento. Mas continua abaixo da média dos últimos dez anos, em termos de volume de vendas – estamos 20% abaixo.”

Tido com um sector barómetro, o mercado automóvel é dos primeiros a serem afetados quando surgem dificuldades económicas, sublinha o secretário-geral da ACAP. E é aí que Helder Pedro destaca a necessidade de recordar o impacto que a crise e recessão de 2009, depois da falência dos Lehman Brothers, tiveram nas vendas de carros em Portugal. “Foi o sector de bens de consumo mais afetado, com quebras de mais de 40%. Nessa altura são tomadas medidas e em 2010 notámos uma retoma. Depois, as vendas caíram 30% em 2011 e afundou em 2012, quando voltámos a valores de 1985. Enquanto em 2010 se vendiam 223 mil carros, em 2012 passou para 95 mil.”

Para fazer um retrato da venda de automóveis nas últimas décadas, o secretário-geral da ACAP destaca o ano de 2000 como um momento de “grandes vendas, devido à situação económica”, animada ainda pela liberalização do mercado automóvel em 1988, dois anos depois da entrada na então CEE.

Uns anos mais tarde, no seguimento do agravamento fiscal feito pelo Governo, tudo abranda. Já o que fica para trás da entrada na União Europeia – na qual se enquadra a compra do carocha de Marcial Pardal em 1971 – é muito diferente.

“Nas décadas de 1970 e 1980, o mercado estava fechado. Havia um número x de carros que se podia vender, com impostos altíssimos. Esperava-se no mínimo seis ou sete meses por um utilitário. Não havia descontos, não havia concorrência, o consumidor estava prejudicadíssimo. Tudo era o contrário do que devia ser. Quando começámos a negociar a entrada na CEE, foi logo posto em cima da mesa a liberalização do mercado automóveis em Portugal. Entrámos em 1986 e deram até 1988 para fazer essa liberalização.”

Um carro para “passear”

Quando comprou o carro, Marcial lembra-se que já havia alguns carros a circular em Évora. E o que os números da ACAP mostram é que em 1974 havia 962 mil automóveis ligeiros de passageiros e todo-o-terreno a circular no país. Em 2012, havia 4,49 milhões.

Quando o comprou, conta, “era mais para passear, porque era gasolina e também não era assim muito barata”. Mas a mulher, Emília, lembra que o carro era sobretudo para poderem levar as duas filhas a casa da mãe dela.

Por várias vezes ao longo das últimas décadas, Marcial teve propostas para lhe comprarem o carocha, mas nunca o vendeu. “O primeiro foi uma vez em Vila Viçosa, estava a pôr gasolina, chegou um indivíduo ao pé de mim: ‘Você quer vender o carro?’ E eu voltei de resposta: ‘Olhe, eu se lhe vou vender, eu fico sem carro e sem dinheiro. Porque com esse dinheiro que o senhor me dá por ele, eu não vou comprar outro’.” Para o neto, que o herdou e o está a recuperar, isso foi o melhor que o avô poderia ter feito.

  • “Não estou a fazer sapatos nem salsichas - há mais qualquer coisa nisto.” O cinema independente não está morto

    O cinema já foi dado como morto várias vezes. O número de espectadores diminuiu 30% numa década, as receitas de bilheteira caíram 12% e houve várias salas que fecharam. Mas há duas histórias paralelas a esta, a do Cinema Nimas e a do Cinema Ideal, em Lisboa, que reabriu em agosto do ano passado. Este é o quinto artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

  • O “fator 30” traz mais bebés?

    Nos primeiros meses deste ano já nasceram mais bebés do que no mesmo período do ano anterior, embora ainda seja cedo para concluir que a natalidade vá aumentar em 2015, contrariando a tendência dos últimos anos. Até maio, nasceram 33.637 bebés em Portugal e Miguel Cruz é um deles. Este é o quarto artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

  • É preciso aprender a envelhecer

    Virgínia tem 78 anos, caminha seis quilómetros por dia, viaja pelo mundo fora e ainda quer ir ao Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. “A velhice programa-se”, diz. Em 2030, Portugal poderá ser o país mais envelhecido do mundo. Este é o segundo artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente: são 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

  • “Porque hei de ir embora mais cedo para depois estar sozinho?”

    Há cerca de 70 pessoas, na sua maioria sem-abrigo, que todos os dias comem no único sítio em Lisboa que lhes dá mesas, cadeiras, talheres e copos para que pelo menos à hora das refeições tenham um sítio onde comer que não seja a rua. Os pedidos de apoio têm aumentado e é preciso um espaço maior. Atualmente, 19,5% dos portugueses estão em risco de pobreza e é preciso recuar a 2003 para encontrar uma taxa maior. Este é o primeiro artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições