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FMI envia recados a Merkel e Draghi

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Os riscos negativos para a conjuntura mundial agravaram-se, avisa o relatório do Fundo para a reunião de ministros das Finanças e banqueiros centrais do G20 que se inicia na sexta-feira. BCE deve estender o seu programa de compras de títulos públicos e privados se a inflação não descolar e a Alemanha deve reduzir o seu excedente externo e investir em infraestruturas

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) enviou esta quinta-feira recados para a chanceler alemã Angela Merkel e para o presidente do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi, no preciso dia em que este realizará uma conferência de imprensa ao início da tarde em Frankfurt dando conta dos resultados da reunião de política monetária dos banqueiros centrais do euro. Uma mensagem inesperada para o italiano que faz hoje 68 anos.

Num documento preparado para a reunião de ministros das Finanças e banqueiros centrais do G 20 (as 20 principais economias desenvolvidas e emergentes), que se iniciará na sexta-feira em Ancara, na Turquia, o FMI aconselha o BCE a estender o atual programa de compra de títulos públicos e privados para além do final de setembro de 2016 se a inflação na zona euro não descolar e insiste que o governo alemão deverá desenvolver uma política no sentido de reduzir o seu excedente externo e promover o investimento em infraestruturas.

Por coincidência, a The Economist Intelligence Unit prevê esta quinta-feira que o programa de quantitative easing do BCE irá durar até meados de 2017 e que a primeira subida das taxas diretoras de juros na zona euro só ocorrerá no segundo trimestre de 2018. Na quarta-feira, o "The Beige Book", um documento preparatório para a reunião da Reserva Federal norte-americana (Fed) a realizar-se a 16 e 17 de setembro, não aponta nenhuma urgência para uma subida da taxa diretora de juros nos Estados Unidos, segundo resumiu a Bloomberg.

Os técnicos do FMI sublinham que, na zona euro, as expetativas de inflação inverteram-se e que o euro se apreciou recentemente. O processo de subida da inflação na zona euro parece marcar passo, com a taxa a não descolar de 0,2% em junho, julho e agosto. O relatório aponta ainda o dedo ao facto do excedente externo da zona euro ter vindo a aumentar, ao contrário do que sucedeu com os excedentes da China e dos países exportadores de petróleo.

Globalmente, o FMI alerta para uma desaceleração nas economias emergentes e para uma retoma fraca nas economias desenvolvidas. O crescimento mundial no primeiro semestre do ano em curso foi inferior ao registado no segundo semestre de 2014, dizem os técnicos. Na zona euro, os dados mais recentes para o segundo trimestre de 2015 apontam para “um crescimento mais fraco do que o esperado”, com uma surpresa negativa no caso da Alemanha. O crescimento nas economias desenvolvidas deverá aumentar “modestamente” no segundo semestre e em 2016 e os técnicos do FMI voltam a falar no risco de “estagnação secular” nestas economias.

Riscos negativos subiram

O relatório avisa que os “riscos negativos subiram” e que a convergência de alguns deles poderá implicar uma perspetiva económica ainda mais sombria para 2015.

O foco de atenção do FMI virou-se para os riscos que ameaçam as economias emergentes face à incerteza sobre a transição na China (se será “suave” ou não), à evolução negativa dos preços das matérias-primas de que dependem muitas economias emergentes exportadoras líquidas, e à depreciação das suas moedas. Há um conjunto de países da Ásia e da América Latina que estão particularmente expostos à "aterragem" chinesa, em virtude do peso das exportações para a China no seu comércio internacional. Na Austrália, mais de 30% das exportações destinam-se à China. Na Coreia do Sul, Taiwan e Chile a percentagem desce para 25% ou próximo. No Japão, Peru e Brasil o peso é de 20%.

A volatilidade nos mercados financeiros tem sido um dado recente no contexto económico global; ao atingir um pico em agosto, disparou os alarmes.

O FMI adiciona na lista de riscos a incerteza sobre a “normalização” da política monetária da Fed norte-americana e os problemas ligados à continuação de uma apreciação significativa do dólar. No caso da zona euro, pode regressar o stresse relativo à evolução da situação grega e ao impacto das tensões geopolíticas nas suas imediações. O FMI recomenda que as economias com excedentes e com défices externos procurem uma “ação conjunta” para reduzir tais desequilíbrios.

Em relação à Fed, cujo comité de política monetária realizará uma reunião a 16 e 17 de setembro, o FMI sublinha que a questão mais importante a curto prazo é saber qual o “momento apropriado e o ritmo da normalização” da política monetária norte-americana. O FMI espera que seja gradual.

Em relação às metas dos principais bancos centrais em termos de inflação, a distância continua a ser enorme: na zona euro, como referido, a inflação "estacionou" em 0,2% nos últimos três meses face a uma meta de abaixo mas próximo de 2% do BCE; nos Estados Unidos, em julho a inflação subiu para 0,2% face a uma meta de 2% da Fed; no Japão, a inflação em julho desceu para 0,2% face a uma meta de 2% do Banco do Japão; e na China, face a uma meta de 4%, a inflação registou 1,6% em julho.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) já tinha dado o tom de preocupação em Jacarta esta semana numa intervenção na Universitas Indonesia ao sublinhar que “esperamos que o crescimento global permaneça moderado e provavelmente mais fraco do que o antecipado em julho passado”. Christine Lagarde antecipa, assim, para a reunião do FMI e do Banco Mundial a 9 e 10 de outubro em Lima, no Peru, uma provável revisão em baixa dos 3,3% de crescimento mundial previsto pelo FMI em julho.