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Os portugueses “são pouco atrevidos nos pés”: a visita de um ministro à maior feira de calçado do mundo - em 8 cenas

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José Coelho / Lusa

O dia em que Pires de Lima foi a Milão receber uma carteira, recusar um par de sapatos, encomendar outro, dizer que é um homem da indústria e mostrar orgulho na indústria portuguesa de calçado. E foi também o dia em que ficámos a saber mais sobre atrevimentos

1. Uma carteira em pele? Sim, obrigado

E se de repente oferecessem a Pires de Lima uma carteira de bolso em pele made in Portugal? O ministro da economia sorri, aceita, agradece e aproveita o mote para dizer aos jornalistas que “o bolso dos portugueses vai recuperando gradualmente”.

A cena é real e aconteceu esta terça-feira de manhã em Milão, onde o ministro da Economia e o seu secretário de Estado Adjunto e da Economia, Leonardo Matias, foram visitar alguns dos 93 stands portugueses na maior feira de calçado do mundo, a Micam.

A oferta, feita de forma espontânea depois de o ministro admirar algumas das carteiras apresentadas, aconteceu no stand da Malas Peixoto Soares, uma empresa da Amadora que exporta 75% da sua produção de 4 milhões de euros, trabalha com a marca Marta Ponti e emprega 40 pessoas. Os mercados-alvo estão em destinos como a Rússia, a Grécia e Itália “porque não se pode ter medo”, diz o empresário Orlando Soares. “Só se é campeão se ganharmos muitas vezes fora de casa porque a nossa casa não é grande”, concorda o ministro.

2. Sapatos em pele de crocodilo? Não, obrigado

Na Centenário, o ministro da Economia chegou a fotografar um par de sapatos com o seu telemóvel e, no entusiasmo do momento, alguém mostrou de repente um modelo de golfe, em pele de crocodilo, e mais alguém comentou de imediato que Pires de Lima é um “excelente jogador de golfe”. Atento, o empresário Domingos Ferreira pergunta se não valerá a pena patrocinar o ministro, mas Pires de Lima responde que isso não faz sentido porque, afinal, ele é ministro.

Na verdade, o ministro não sabia, mas o preço de venda ao público daquele par de sapatos rondava os 2 mil euros em mercados como a Arábia Saudita e a Austrália.

Com 73 trabalhadores, um volume de negócios de 8 milhões de euros, mais de 90% do qual na exportação, e um segmento de trabalho artesanal que inclui a produção de sapatos personalizados para todo o mundo, a empresa de Oliveira de Azeméis está a conquistar um nicho de clientes de luxo nos EUA para sapatos em peles exóticas como raia, enguia e crocodilo e vai agora iniciar um investimento de 1,25 milhões de euros para duplicar o seu espaço de produção e aumentar a capacidade de resposta em 15%.

3. Descobrir que os portugueses “são pouco atrevidos nos pés”

Na Ambitious, uma empresa de Guimarães que fatura 10 milhões de euros está a crescer 25% este ano e exporta 99,9% do que faz para 38 países, da Europa ao Japão, EUA ou Colômbia. Pires de Lima quis saber porque é que o empresário Paulo Martins não vendia no mercado nacional. Soube então que as coleções não seriam muito adequadas ao gosto do consumidor tradicional português porque tinham uma dose “de atrevimento” e, de imediato, conclui que “somos pouco atrevidos nos pés”.

4. “Peço muita desculpa, mas tenho de ir trabalhar”

A passagem de Pires de Lima pelo stand da Cafeina, a marca própria que vale 10% do volume de negócios de 35 milhões de euros da empresa Pedro Almeida, de Felgueiras, foi rápida. “Peço desculpa, mas tenho mesmo de ir trabalhar” diz Eduardo Barbosa, apontando para a mesa de trabalho onde estavam à sua espera representantes da marca norte-americana Steve Maden. “Eu também”, respondeu o ministro a sorrir antes de partir para o stand seguinte.

Mais à frente, na Fly London, Amilcar Monteiro também está apressado porque tem os clientes da Amazon China no stand da marca que vende um milhão de pares de sapatos e fatura 35 milhões de euros, mas ainda conseguiu dedicar alguns minutos a Pires de Lima para revelar alguns pormenores destes negócio que significa produzir 24 mil pares de amostras por ano, fazer 21 feiras por ano e ter, já este ano, o maior mercado da marca nos Estados Unidos.

5. “Se me arranjar um 42,5 desses com fatura, eu compro”

Na Norberto Costa, uma empresa de Felgueiras com duas décadas de experiência no sector do calçado, 120 trabalhadores e vendas de 9,5 milhões de euros, Pires de Lima escolhe um sapato, admira o modelo e pergunta quando custa um par. O empresário responde: “23 euros”, referindo preço à saída da fábrica, e Pires de Lima, que visitou a feira calçando um par de sapatos oferecido pelo presidente da Câmara de Felgueiras, confessa o seu interesse naquele modelo à despedida: “Se me arranjar um 42 ou 42,5 com fatura, eu pago”, diz.

6. “Um homem da indústria”

José Machado, da Macosmi, que trabalha com a marca Coque Terre, investiu três milhões de euros em 2014 num pacote que inclui produção e um ginásio para os seus 192 trabalhadores em S. Martinho do Campo, aproveitou para deixar uma nota crítica ao novo pacote de fundos comunitários Portugal 2020. Ele, que concretizou os seus investimentos “sem um único apoio”, considera que o acesso aos fundos comunitários “não estará muito facilitado” e quem quer apoios “encontra sempre barreiras”.

Na conversa, uma gafe acabe por levar o empresário a dirigir-se a Pires de Lima como primeiro-ministro. Alguém corrige de imediato e diz que Pires de Lima “é um homem da indústria”. O ministro aproveita a deixa e remata “Sou um homem da indústria, talvez por isso não seja primeiro-ministro”.

7. Só trabalha com marca própria? “Grande aposta”

Joaquim Moreira, o dono da Felmini, apresenta rapidamente a sua empresa ao ministro da Economia. São 190 trabalhadores, tem um volume de negócios de 13 milhões de euros, com uma quota de exportações nos 99%, Itália como maior mercado, um par de sapatos oferecido a Maria Cavaco Silva no museu da presidência e uma produção dedicada em exclusivo à marca própria.

Foi esta última afirmação que entusiasmou o ministro: “Grande aposta”, disse.

Pouco antes, na Sleek, também de Felgueiras, tinha ouvido uma história de sucesso diferente.

Mário Cunha tem um volume de negócios de 20 milhões e exporta 99% da produção para clientes como a Inditex, Massimo Dutti ou Hugo Boss. Aqui, as marcas dos clientes garantem o grosso das vendas (17 milhões) e um dia destes, quando passeava em Londres, na Oxford Street, o jovem empresário viu vários sapatos desta marca criada há seis anos em montras ao longo da rua. O ministro felicitou-o e deixou uma nota de ambição: no futuro, talvez possa passar na mesma rua e ver sapatos com a sua própria marca, o que lhe permitirá duplicar a rentabilidade.

8. “Gostei muito do que vi”

Em cada um dos stands visitados, Pires de Lima foi dando os parabéns e usando palavras como “exemplo” e “ambição”. No balanço da visita, em declarações aos jornalistas, não hesitou em saudar o trabalho de um sector que “soube fazer do mundo a sua casa”, sejam empresas com 5, 10 ou 30 anos, tenham faturações de 5 milhões de euros, 30 milhões ou mais. “Gostei muito do que vi”, disse o ministro, sublinhando serem “vários os segredos que explicam o sucesso da fileira”, com uma produção de 2,3 mil milhões de euros, exportações que deverão passar este ano a barreira dos 2 mil milhões de euros e o segundo preço médio dos sapatos mais elevado do mundo, atrás de Itália.

E qual será o segredo? Segundo o ministro, é feito de coisas simples como “um trabalho articulado ao longo dos anos com universidades e centros de investigação”, “uma indústria organizada em cluster”, “profissionalismo e competência”. E concluiu: “É um sector que deve orgulhar todos os portugueses”.