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Agosto vermelho. O mês em que o pânico financeiro disparou

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Os índices de volatilidade atingiram máximos a 24 de agosto que já não se registavam desde outubro de 2011. Bolsas perderam em todos os continentes, com destaque para a Arábia Saudita e China. Preço do barril dispara nas últimas sessões do mês

Jorge Nascimento Rodrigues

Agosto de 2015 vai ficar marcado como o mês em que o pânico financeiro regressou em força, o que já não se registava desde o segundo semestre de 2011, na sequência do agravamento da crise da dívida grega e da crise do teto da dívida federal norte-americana com a perda de notação de triplo A.

Os três índices de volatilidade, relacionados com a Zona Euro (com o índice Eurostoxx 50), com Wall Street ( com o índice S&P 500) e com as bolsas chinesas (com um índice de Fundos), atingiram um pico a 24 de agosto, no dia em que a Bolsa de Xangai registou a segunda maior derrocada do ano. O índice que mede a volatilidade do índice de volatilidade relacionado com Wall Street (designado por VVIX) disparou 54% em agosto.

Os principais índices mundiais das Bolsas perderam em todos os continentes. Globalmente, as bolsas em todo o mundo perderam 0,7% em agosto e desde o pico em maio a quebra de capitalização é de 10,4%, segundo o índice MSCI/ACWI. Com quedas mensais superiores a 9% formou-se um “clube” que reúne a Arábia Saudita (o índice Tadawul liderou as quedas mundiais com uma perda de 17,3%), a China (o índice composto de Xangai perdeu 12,5%), Hong Kong (o índice Hang Seng perdeu 12%), e a Europa, com três índices a liderar as quebras mensais: o AEX da Bolsa de Amesterdão (perda de mais de 10%), o DAX de Frankfurt (caiu 9,3%) e o Eutostoxx 50 (perdeu 9,2%).

Wall Street não escapou à maré vermelha, e perdeu mais de 6%, com o índice Dow Jones a cair 6,6% e o S&P 500 a perder 6,3% em agosto.

A maior queda europeia registou-se com o índice da Bolsa de Atenas que perdeu em agosto quase 22%, depois de ter reaberto a 3 de agosto na sequência de um encerramento desde 26 de junho. O índice PSI 20 da Bolsa de Lisboa perdeu 7,95%.

Derrocada bolsista chinesa em foco

A China esteve em foco todo o mês, com a semana de 24 a 28 em destaque, com dois dias consecutivos de derrocada bolsista, uma segunda e uma terça-feira negras, que somaram uma perda de capitalização superior a 16%.

O caso da bolsa chinesa ilustra um processo de esvaziar de uma bolha bolsista: depois de um disparo de 155% durante quase 12 meses até 12 de junho registou-se uma quebra que, até final de agosto, soma 38%. O estratego financeiro David Cui, do Bank of America, considera que aquele índice de Xangai terá de cair ainda mais 35% até que os títulos cotados se tornem “atraentes” e não sejam considerados “sobrevalorizados”.

A China vai continuar sob os holofotes dos investidores, dos analistas e dos banqueiros centrais de todo o mundo para se saber se a derrocada parou e se a vaga de sucessivas medidas do Banco central e do governo em Pequim resultaram efetivamente. A partir de 6 de setembro entra em vigor a decisão do banco central de reduzir em 50 pontos base (meio ponto percentual) o rácio obrigatório de reservas dos bancos, o que poderá “libertar” mais 650 mil milhões de yuan (o equivalente a 91 mil milhões de euros). O governo, entretanto, lançou uma operação policial que já envolve mais de 200 prisões de alegados responsáveis por “desestabilização do mercado” financeiro, incluindo algumas figuras de topo do CITIC Securities (que é alcunhado de ´Goldman Sachs da China´) e do próprio regulador do mercado.

Para o analista norte-americano Marc Chandler a vaga de pânico financeiro terá terminado, considerando que “o sistema [financeiro] revelou uma resiliência confortante, operacional e psicologicamente”.

Surpresa no petróleo

No mercado das matérias-primas, o mês saldou-se por quebras de preços superiores a 5% em cinco commodities: gasolina reformulada, óleo de soja, soja, trigo e zinco.

A surpresa veio do sector dos petróleos, com o barril de Brent a fechar o mês perto de 53 dólares por barril, uma subida de 0,4% em relação ao final de julho, depois do preço ter descido para um mínimo, desde 2009, de 42,23 dólares a 24 de agosto. Nas últimas sete sessões de agosto, o preço do barril de Brent aumentou cerca de 15%.

Tom Whipple, do Peak Oil Review, considera, no entanto, que esta subida recente é motivada por operações no mercado de futuros. O mercado continua a ser marcado fundamentalmente por excesso de produção e abrandamento da procura (nomeadamente por parte da segunda maior economia do mundo, a China). Os preços voltarão a cair, diz o analista, não se esperando que o cartel da OPEP convoque uma reunião de emergência em coordenação com a Rússia (que não pertence ao cartel) antes da cimeira de 4 de dezembro para discutir o corte de produção, como pretende a Venezuela.

Finalmente, no mercado secundário da dívida soberana, as yields das obrigações subiram em toda a zona euro, com exceção das obrigações gregas (cujas yields desceram, em agosto, mais de 2,7 pontos percentuais, em virtude da assinatura do terceiro resgate a 14 de agosto). As maiores subidas em agosto registaram-se com as yields das obrigações espanholas que subiram 27 pontos base, fechando o mês em 2,12%, e das obrigações do Tesouro português que subiram 26 pontos base, fechando em 2,65%.