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Ongoing em colapso iminente

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Nuno Vasconcellos e Rafael Mora quando ainda eram sócios e parceiros na Ongoing e esta era uma das grandes acionistas da PT

Tiago Miranda

BCP deverá avançar com execução de garantias. Bens pessoais de Nuno Vasconcellos em causa

O grupo de Nuno Vasconcellos, a Ongoing, está a desfazer-se em Portugal. Apertada por uma dívida gigantesca à banca e sem os dividendos da ex-Portugal Telecom para ir pagando os juros e amortizar o empréstimo, a Ongoing está num beco sem saída.

A execução da dívida por parte do BCP, o seu grande credor, está por um fio. E, ao que o Expresso sabe, a Ongoing está a equacionar avançar com um Processo Especial de Revitalização (PER), um projeto de recuperação de devedores em situação económica difícil, em que é apoiado pelo Novo Banco, onde a empresa da família de Nuno Vasconcellos tem ainda empréstimos para pagar. A decisão é consensual e tudo aponta para que o BCP esteja recetivo ao PER, entendido como uma forma de adiar um problema que dificilmente será resolvido. O BCP está, porém, decidido a exercer as garantias que tem, com PER ou sem PER, apurou o Expresso.

As dívidas ao BCP são elevadas (superiores a €230 milhões). E, o que é complicado para o dono da Ongoing, existem garantias pessoais exigidas a Nuno Vanconcellos, que deverão agora ser acionadas e que rondarão os €8 milhões. Há muito no mercado que se fala nesta possibilidade, mas tanto o banco liderado por Nuno Amado como Nuno Vasconcellos têm negado ou preferido não comentar a hipótese de execução por parte do BCP.

Aconteça o que acontecer com o PER, a verdade é que deixou de haver futuro para a Ongoing em Portugal, um grupo que ganhou visibilidade quando, em 2006, a Sonae lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a PT, e Nuno Vasconcellos apareceu como aliado do BES e de Ricardo Salgado. A Ongoing, criada em 2004 para agregar os interesses da família Rocha dos Santos, tem o “Diário Económico” à venda (ver texto em baixo) e em Portugal pouco restará depois disso. Fica com a Heidrick & Struggles (H&S), onde é um dos grandes acionistas, mas até na consultora que lançou em Portugal com Rafael Mora, e que já foi uma das maiores do país, os tempos já foram de maior prosperidade.

A H&S viu agora sair da empresa dois dos seus grandes rostos e pilares, a sócia fundadora Mariana Branquinho da Fonseca e Pedro Rocha de Matos. A Ongoing é ainda detentora de 7,5% da Pharol, antiga PT e hoje apenas proprietária de pouco mais de 27% da brasileira Oi e da dívida de €897 milhões da falida Rioforte. Mas será grande parte desta participação que o BCP se prepara para executar.

Para trás ficam as desavenças com Francisco Pinto Balsemão, em 2009, por causa da tentativa de controlo da Impresa (dona do Expresso e da SIC), a polémica contratação do ex-espião Jorge Silva Carvalho e de Branquinho da Fonseca, o então deputado do PSD que não sabia o que era a Ongoing.

Se o BCP executar a dívida da Ongoing, como se prevê, tornar-se-á um dos grandes acionistas da Pharol, onde já tem quase 2%, posição que antes era de Joaquim Oliveira e que caiu no colo do banco por falta de pagamento.

Esperança no Brasil

Nuno Vasconcellos até há pouco tempo estava em negação face à possibilidade de colapso do grupo em Portugal, mas fontes próximas do empresário dizem que agora já terá percebido que a situação se tornou insustentável. Rafael Mora, braço direito de Vasconcellos e um dos estrategas do grupo, tê-lo-á percebido antes. Saiu da Ongoing — onde tem uma participação inferior a 2% —, em fevereiro, assegurando que o fazia de forma pacífica.

Vasconcellos está a focar-se no Brasil, onde deposita esperanças, apesar de recentemente se ter visto obrigado a fechar a edição em papel do “Brasil Econômico”. Mantém nesse país a Ejesa, detentora de dois jornais publicados no Rio de Janeiro, o “Dia” e o “Meia Hora”. E a Realtime, empresa de tecnologias de informação, especializada em produção e desenvolvimento de páginas de internet. É lá que passa agora a maior parte do seu tempo.

Artigo publicado na edição do Expresso de 8 de agosto de 2015