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Moeda chinesa continua a desvalorizar

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Os analistas esperam que no caso de uma descida muito acentuada do câmbio do yuan no mercado, Pequim recorra às suas gigantescas reservas em divisas estrangeiras para inverter a trajetória

WU HONG / EPA

Pelo terceiro dia consecutivo, o yuan continua o movimento de depreciação face ao dólar e ao euro. Formou-se uma convergência de alto risco entre a moeda chinesa, a queda acentuada do preço de sete matérias-primas e o afundamento de seis divisas de economias emergentes

Jorge Nascimento Rodrigues

A moeda chinesa continua esta quinta-feira a desvalorizar no mercado cambial depois de duas intervenções consecutivas, na terça e quarta-feira, do Banco Popular da China, o banco central, retificando em baixa o câmbio do yuan em relação ao dólar em 3,48%.

Depois de ter fechado a valer 6,39 yuan na quarta-feira, o dólar estava a valer 6,42 yuan pelas 7h30 (de Lisboa) e já esteve a trocar-se na sessão de hoje por 6,44. O euro fechou na quarta-feira a valer 7,12 yuan e trocava-se, àquela hora, por 7,14.

Em Pequim, Zhang Xiaohuei, da direção do banco central, afirmou esta quinta-feira em conferência de imprensa que “o ajustamento do yuan está basicamente completo” preenchendo uma diferença de 3% com as “expetativas de mercado”. Reafirmou que a política cambial da China é garantir um yuan “forte no longo prazo”. Com a depreciação durante três dias consecutivos, a correção em baixa é já superior a 4%.

Nos últimos dois anos, a divisa chinesa atingiu um máximo de valorização face ao euro em abril deste ano com um câmbio de 6,55 yuan. A média dos últimos cinco anos foi de 8,23 yuan por euro, uma política que suportou o crescimento assente nas exportações.

Depois do Fundo Monetário Internacional na terça-feira ter saudado o movimento do Banco Popular da China, ainda que com cautela, foi agora a vez da Standard & Poor’s considerar que a decisão chinesa faz “todo o sentido económico”. A agência não concorda que o banco central chinês esteja a desencadear uma guerra de divisas e a regressar ao velho modelo de competitividade das exportações por via da depreciação da moeda.

No entanto, o efeito prático de um yuan mais “fraco” afeta os importadores chineses (nomeadamente de marcas de luxo e produtos e componentes de alto valor acrescentado exportados pelas economias desenvolvidas e de matérias-primas para a segunda maior economia do mundo que está em desaceleração mais acentuada do que a oficialmente pretendida), agravar o endividamento empresarial em dólares e favorecer cambialmente os exportadores que poderão competir mais folgadamente em mercados terceiros com concorrentes nomeadamente asiáticos.

Os analistas esperam que, no caso de uma descida muito acentuada do câmbio do yuan no mercado, Pequim recorra às suas gigantescas reservas em divisas estrangeiras (equivalentes a cerca de 3,7 biliões de dólares em junho deste ano, as maiores do mundo, o triplo das japonesas que se situam em segundo lugar) para inverter a trajetória.

Correlação com matérias-prima e divisas de emergentes
A decisão chinesa de desvalorização oficial em agosto acentuou, contudo, duas tendências nos mercados mundiais. Observa-se uma forte correlação da evolução cambial do yuan com a flutuação dos preços das matérias-primas e uma moeda chinesa mais “fraca” acelera o afundamento das divisas dos exportadores de commodities.

Nos últimos trinta dias, há sete commodities cujos preços - em dólares - estão a cair mais de 10%: milho (mais de 18%), barril de petróleo da variedade norte-americana (cerca de 18%), açúcar (15%), trigo (14%), barril de petróleo Brent (cerca de 14%), soja (cerca de 12%) e óleo de soja (11%).

Os analistas chamam a atenção para a monitorização do impacto destas quebras continuadas de preços na trajetória da inflação, podendo fazer regressar ou acentuar dinâmicas de desinflação (descida da taxa de inflação) ou mesmo um ciclo de deflação (inflação negativa). O estratego de mercados Albert Edwards, da Société Générale, avisou numa nota aos clientes que a depreciação do yuan e das divisas dos emergentes poderá desencadear uma vaga de "exportação de deflação" para as economias desenvolvidas.

Os países cujas divisas estão a cair mais acentuadamente nos últimos trinta dias situam-se nos mercados emergentes. As cinco divisas que se estão a afundar face ao dólar incluem o rublo russo – o campeão, com uma depreciação de 14,73% -, o peso colombiano (10%), o real brasileiro (cerca de 9%), o ringitt malaio (6%) e o peso chileno (5%). Face ao euro, aquele grupo inclui o won da Coreia do Sul (depreciou-se em cerca de 4%). Naquele período de trinta dias, o yuan desvalorizou 3,5% face ao dólar e 2,6% face ao euro.

Há seis economias asiáticas mais “sensíveis” à desvalorização do yuan e à desaceleração mais acentuada da economia chinesa, com um peso da exportação para aquele país superior a 5% do PIB respetivo: Hong Kong (região especial autónoma da China), Taiwan, Malásia, Singapura, Coreia do Sul e Tailândia.

Segundo o Citi Research a desaceleração chinesa no primeiro semestre do ano foi superior ao oficialmente pretendido. O PIB da segunda maior economia do mundo deverá ter crescido apenas 5% face aos 7% de meta anual politica. Esses dois pontos percentuais de diferença têm um impacto assinalável no andamento da economia mundial e, em particular, nos países e sectores com forte exportação para a China.

  • Intervenção na China arrasa bolsas

    Num novo movimento relâmpago, o Banco Popular da China, o banco central, decidiu depreciar de novo o yuan. Uma desvalorização de 1,6% face ao dólar esta quarta-feira, que se soma a 1,86% decidida no dia anterior. Para as Bolsas, foi mais um dia desastroso. Só o principal índice bolsista alemão, o Dax, perde quase 6% em dois dias.