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Será QE isto resulta?

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O QE de Draghi produziu resultados imediatos, mas permanece a dúvida se vai trazer a inflação para 2% até final de 2016

ARNE DEDERT/ EPA

Resultados modestos, inflação perto de 0% e crescimento abaixo de 2% lançam dúvidas sobre impacto do programa de quantitative easing (QE) lançado por Mario Draghi

Cinco meses depois de o Banco Central Europeu (BCE) ter avançado com um programa significativo de compra de dívida obrigacionista pública, as dúvidas continuam.

A economia da zona euro não está a descolar, com previsões de crescimento abaixo de 2% para este ano e para o próximo, e o programa de quantitative easing (QE, no acrónimo em inglês) pode ter de se estender para lá da data indicativa de setembro de 2016. Essa é, aliás, a mais recente recomendação do Fundo Monetário Internacional (FMI) no relatório sobre a zona euro ao abrigo de consultas anuais sobre o andamento da economia e das políticas públicas divulgado no final de julho.

Passou mais de meio ano desde que Mario Draghi, o presidente do BCE, anunciou ao mundo que ia avançar com o tão esperado programa de compra no mercado secundário de dívida soberana dos países membros da zona euro e de entidades europeias supranacionais. Este programa de compras de obrigações públicas no mercado secundário surgia como a parte mais importante do plano alargado de compra de ativos de vários tipos, incluindo também obrigações com ativos subjacentes e instrumentos de dívida titularizados, que havia sido iniciado no último trimestre de 2014. Em suma, a zona euro convergia, finalmente, para a famosa receita do QE, já aplicada nos EUA, Reino Unido e Japão, e que, há muito, era reclamada por economistas e especialistas europeus de diversos quadrantes.

Travar a deflação e acelerar a retoma

O objetivo número um destas operações no mercado secundário do BCE, que viriam a iniciar-se a 9 de março, era inverter o processo contínuo de descida da inflação que, à época do anúncio (janeiro de 2015), atingia o pior nível negativo recente (-0,6%), aproximando-se do mínimo histórico de -0,7% registado em julho de 2009. Este nível de inflação negativa fazia temer que um processo de deflação (de quebra contínua e generalizada do índice de preços no consumidor) se consolidasse na zona euro, como, repetidamente, o FMI vinha alertando nos seus “World Economic Outlook”. Travado o risco de deflação iminente, o programa do BCE deveria fazer regressar a taxa de inflação à meta de proximidade de 2% até final de 2016. A última vez em que a inflação esteve acima de 2% foi em janeiro de 2013.

O objetivo número dois era acelerar a economia da zona euro que, no sétimo ano pós-estouro do Lehman Brothers nos EUA, continua com o PIB (a preços constantes) abaixo do pico atingido no primeiro trimestre de 2008.

O QE com as cores europeias arrancou com um objetivo ambicioso de conseguir comprar €60 mil milhões em ativos públicos e privados por mês até, pelo menos, setembro do próximo ano. Um total que ascenderia, assim, a cerca de €1,1 biliões. O programa global já adquiriu, até final de julho, cerca de €363 mil milhões em ativos, com as compras de obrigações públicas a registar a maior fatia de cerca de €249 mil milhões. Desde o início do programa, o mês de pico nas compras de dívida pública foi maio com cerca de €52 mil milhões. No caso de dívida portuguesa, as compras pelo BCE somaram €5656 milhões até final de julho, com o mês de pico em maio.

O outro lado das dúvidas, porventura o mais relevante para o agente económico ‘comum’, é o efeito prático deste programa que pode ser, no fundo, a última cartada do BCE que vive com taxas de juro quase a zero (0,05%) desde 10 de setembro de 2014.

Impacto na economia q.b.

É certo que se notam já efeitos positivos do QE europeu mas ninguém pode garantir que a viragem será rápida e linear. O próprio BCE publicou na semana passada um artigo académico no seu boletim mensal onde mostrava que a inversão na inflação negativa a partir de abril se deveu, acima de tudo, a uma subida nos preços da energia e da alimentação. Reconhecia, no entanto, que nos últimos tempos as outras componentes também tiveram subida de preços. A inflação saiu, de facto, da trajetória deflacionária em abril e registou 0,3% em maio, estacionando em 0,2% em junho e julho. A previsão para 2015 é de uma inflação anual de apenas 0,2%. Só em 2016 se sentirá uma aceleração deste índice, fechando o ano em 1,1% e não se prevê que chegue sequer à meta dos 2% daqui a cinco anos.

A análise anual à zona euro pelo FMI faz uma primeira avaliação detalhada do QE do BCE. O que os técnicos de Washington concluem, em primeiro lugar, é que o programa teve “um impacto imediato nas condições financeiras e nas expectativas”, mas que “o impacto total na economia real demorará tempo a materializar-se”. Mais concretamente dois a oito trimestres em termos de crescimento económico e três a 16 trimestres em termos de inflação. Ou seja, na pior das previsões, o impacto pleno do QE no PIB sentir-se-á só daqui a dois anos e meio (já no ano de 2018) e o efeito máximo na inflação daqui a mais de cinco anos (depois de 2020). No entanto, a julgar pelas estimativas dos EUA, o efeito do QE norte-americano desde 2009 só atingiu o pico na subida da inflação e na descida do desemprego seis a sete anos depois.

Em termos mais concretos, olhando para os vários canais de transmissão das medidas do BCE, notam-se efeitos do programa. O euro desvalorizou face ao dólar e às principais moedas dos seus parceiros comerciais, as taxas de juro da dívida obrigacionista dos membros do euro caíram para mínimos históricos, o contágio da nova fase da crise grega desde fevereiro foi contido, as bolsas subiram e as expectativas de inflação — o foco desta política — são hoje superiores ainda que não estejam no nível pretendido.
O QE tem alimentado a trajetória de desvalorização do euro face às moedas dos principais parceiros comerciais da zona euro que se regista desde o pico de valorização em final de 2008 e claramente desde novembro de 2009. O euro desvalorizou cerca de 3% nos últimos seis meses e a queda acumulada é de quase 11% nos últimos 12 meses.

E agora, Europa?

A zona euro viveu aquilo a que os economistas chamam um “double dip”, ou seja, uma dupla queda: teve uma recessão de quase 5% em 2009 na sequência da crise financeira e voltou a tombar em 2012 e 2013 com a onda de choque da crise das dívidas soberanas, nomeadamente dos cinco países periféricos. No ano passado, o PIB dos países da moeda única levantou a cabeça e cresceu 0,8%. Este ano e no próximo, dizem as previsões da Comissão Europeia e do FMI, deverá avançar, respetivamente, 1,5% e entre 1,7% e 1,9%.
O desemprego está em 11,1% (dados de junho publicados na semana passada pelo Eurostat), um valor que está ainda ao nível do início de 2012 e se mantém cerca de quatro pontos percentuais acima do nível pré-crise financeira. Teve uma descida, é certo, desde o máximo de 2013 ligeiramente acima de 12% mas continua a afetar 17,8 milhões de pessoas..

Vários riscos e incertezas podem, ainda, atrapalhar a estratégia de Mario Draghi, uns endógenos (como a Grécia, ver artigo ao lado) e outros derivados da situação internacional (ver caixas).

(Texto publicado na edição impressa do Expresso Economia de 8 de agosto de 2015)