Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

O maior porta-contentores do mundo chegou a Sines. “Começou uma nova era”

  • 333

Nuno Botelho

Maior porta-contentores do mundo - o MSC Zoe - marca o “disparo no crescimento do Terminal XXI de Sines, a que estará ligado o desenvolvimento da atividade ibérica da CP Carga, recentemente comprada pela MSC

Tem 395,4 metros de comprimento, 59 metros de largura e carrega o equivalente a 19.220 contentores de 20 pés de comprimento. Trata-se do MSC Zoe, um dos maiores porta-contentores do mundo - o seu dono, a companhia MSC, só tem mais dois navios com a dimensão do Zoe - e chegou esta terça-feira a Sines na sua viagem inaugural, vindo de Hamburgo.

Para o seu comandante - o italiano Pica Domenico -, Sines é apenas um dos muitos portos que o Zoe vai escalar até chegar à China. Mas para o presidente executivo da MSC Portugal, Carlos Vasconcelos, o "simbolismo da entrada do Zoe em Sines é muito maior, porque - diz - é "o marco decisivo na 'viragem' da atividade do terminal de contentores de Sines, cujo crescimento deverá disparar verdadeiramente a partir de agora".

O Expresso acompanhou toda a operação de chegada do MSC Zoe a Sines, efetuada na manhã desta terça-feira. Cerca das 11h00, a equipa do Expresso embarcou na lancha em que levou Miguel Vieira de Castro, responsável pela operação de pilotagem portuária, a bordo do Zoe.

Ao lado do comandante Pica Domenico, Miguel Vieira de Castro encaminhou o MSC Zoe para a entrada no porto de Sines, comandando a sua acostagem ao cais do Terminal XXI, com a ajuda de três rebocadores do grupo Svitzer. A primeira parte da operação de pilotagem do Zoe decorreu na enorme sala de comando situada no topo da torre central do porta-contentores - dotada de ecrãs digitais sofisticados, com toda a informação náutica disponível, de onde o porto de Sines se tornou visível em toda a amplitude a uma considerável distância do acesso portuário, deste os terminais petroquímicos, à esquerda, ao terminal de contentores, localizado à direita, próximo do fim do molhe de proteção exterior.

A segunda parte da operação foi comandada de um dos braços da torre de comando, a céu aberto, no posto de controlo externo lateral. "Geralmente é daqui de fora que comandamos toda a operação do navio, até estar junto ao cais", explicou o primeiro oficial do MSC Zoe. Lá em baixo, os rebocadores pareciam miniaturas e dificilmente se via as caras dos trabalhadores portuários que estavam no cais. Entretanto, a operação de entrada do gigante MSC Zoe decorria com uma facilidade quase desconcertante para um navio que tem quase 400 metros de comprimento.

Nuno Botelho

Depois de acostado, o gigantesco porta-contentores ocupou quase metade da frente de cais do terminal de contentores de Sines. Conhecido como Terminal XXI e concessionado desde 2004 ao operador de Singapura, PSA, esta infraestrutura portuária tem atualmente um cais com uma frente de aproximadamente 940 metros, operado por nove pórticos gigantes (que carregam e descarregam navios gigantescos, das classes post-panamax e super-post-panamax, que acedem facilmente ao porto de Sines graças aos fundos de mar naturais com 17,5 metros de profundidade).

"A capacidade do terminal de contentores de Sines, nos atuais 36 hectares disponíveis, é de 1,7 milhões de TEUS (cada TEU corresponde ao tamanho padrão de um contentor de 20 pés de comprimento), que devem estar esgotados ainda este ano", admitiu ao Expresso Carlos Vasconcelos.

Com o alargamento lateral em curso na plataforma do Terminal XXI, a sua capacidade será aumentada entre 2,1 e 2,5 milhões de TEUS, "mas também deverá ser totalmente utilizada em 2016, razão pela qual é pertinente começar a pensar no alargamento da operação de contentores em Sines", comenta o responsável da MSC Portugal.

Atualmente, com um comprimento de cais de 940 metros e dotado de 9 pórticos post-panamax e super post-panamax, o terminal tem uma área de armazenagem com 36,4 ha que permite disponibilizar uma capacidade total de 1.700.000 TEU por ano.

O crescimento da atividade do Terminal XXI levou o seu concessionário - a PSA Sines - a apostar no aproveitamento da zona lateral norte. Para tal, tem em construção um novo cais acostável destinado a navios de dimensão mais pequena (os designados "feeders", que alimentam a carga adicional que os grandes porta-contentores vão transportar para portos de vários continentes).

Este novo cais estará concluído antes do final de 2015 e terá uma frente acostável de 200 metros, o que fará aumentar a capacidade máxima da plataforma de contentores de Sines até aos 2,5 milhões de TEUS.

Além da MSC, a Maersk é a companhia global de transportes marítimos que tem vindo a utilizar o Terminal XXI. A capacidade local de receber e operar contentores é praticamente repartida em 50% para a MSC e 50% para a Maersk.

Nuno Botelho

Como a MSC Portugal - através da MSC Rail - ganhou recentemente a privatização da CP Carga, foi realinhada a estratégia da MSC para Sines. As duas atuais linhas de carregamento ferroviário vão duplicar (o terminal de contentores de Sines passará a ser servido por quatro linhas de comboio) e o mercado natural do porto de Sines (o designado "hinterland") vai ser alargado até Madrid.

O Expresso sabe que a a MSC pretende passar a operar em Espanha com a CP Carga, estando decidida em investir o que for necessário para tornar a CP Carga no lider do mercado ibérico. Para tal terá de ultrapassar a atividade da Renfe, servindo sobretudo a operação de contentores entre Sines e Madrid, tal como a atividade de transporte de contentores no triângulo compreendido pelos portos de Barcelona e Valência e as unidades lógísticas ferroviárias da região de Madrid.

É neste sentido que a chegada do MSC Zoe a Sines marca o ponto de viragem decisivo na atividade do Terminal XXI e da própria MSC Portugal. A MSC dispõe de mais dois porta-contentores com dimensão igual - os MSC Oscar e MSC Oliver, todos da "Classe Oscar" - e conta ter, a média prazo, mais três navios desta dimensão para fazer face ao crescimento do transporte marítimo entre a Europa e a Ásia.

Pica Domenico, comandante do MSC Zoe, explicou ao Expresso que o seu porta-contentores assegura o transporte intercontinental marítimo do serviço "Swan" da MSC entre a Ásia e o Norte da Europa.

Depois de realizar os previstos 1500 movimentos de carga em Sines (que colocarão no MSC Zoe mais 3000 TEUS) - utilizando quatro gruas gigantes de última geração, com braços tão longos que conseguem carregar contentores nas 23 filas laterais do Zoe, Pica Domenica explica que seguirá para Tanger, que fica "mesmo ao lado" de Sines.

Daí, o MSC Zoe seguirá para o Canal do Suez, para rumar em direção a Singapura. O porto seguinte será o de Xangai (o porto de Yangshan) e a seguir virão os portos de Busan, Xinghang, Quindao, novamente Xangai, Ningbo e Hong Kong. "Temos 75 dias de viagem pela frente com o MSC Zoe", refere Domenico.

Nascido em Sorrento, Pica Domenico é um veterano do transporte marítimo, trabalhando há 36 anos no sector - e há 26 anos que é comandante. Vai a Sines há cerca de oito anos e diz que todas as vezes que chega ao porto alentejano nota que a atividade cresceu.

A estratégia da PSA para Sines integra o porto alentejano na rede de 40 terminais de contentores que opera em 16 países, distribuídos pela Europa, pelo continente americano e pela Ásia - os dois principais terminais de contentores da PSA funcionam em Singapura e em Antuérpia.

Nuno Botelho

Saiba mais na edição desta quarta-feira do Expresso Diário. Sai às 18h