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“CP só faz sentido se for mantida a gestão em rede das linhas atuais”

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José Carlos Carvalho

Presidente da CP, Manuel Queiró, defende que a sustentabilidade futura da empresa só será garantida se mantiver as linhas atuais - com as mais rentáveis a compensarem as que são deficitárias

A sustentabilidade futura da CP - e até "a possibilidade de ser uma empresa com lucro" - depende da manutenção da gestão em rede, com as linhas mais rentáveis a compensarem as que têm menos tráfego e que, por isso, são tendencialmente deficitárias. Esta é a convicção do presidente da CP, Manuel Queiró.

Numa entrevista ao Expresso - feita no comboio que liga Lisboa a Tomar - Manuel Queiró considera que a CP deverá concorrer às futuras concessões de operações ferroviárias que vierem a ser lançadas. O objetivo será o de a CP manter a lógica da gestão em rede e continuar a gerir as linhas que atualmente opera.

No mandato de Manuel Queiró, a CP tem feito um esforço de restruturação dos seus serviços de transporte, adaptando a oferta de comboios às necessidades da procura.

Isso foi feito nas linhas de Cascais e de Sintra e, segundo o presidente, os resultados já estão à vista. Foram reduzidos os custos de operação e aumentaram os proveitos.

Ao mesmo tempo, a CP desenvolveu uma política comercial mais agressiva, praticando vendas antecipadas de bilhetes e descontos para vários segmentos de passageiros.

Em termos homólogos, os proveitos globais da CP cresceram 2,8% no primeiro semestre, ascendendo a 105,4 milhões de euros. "De janeiro a junho transportámos 55,4 milhões de passageiros, mais 2,4% em termos homólogos", diz.

O resultado desta estratégia que conjuga a otimização da oferta de comboios com a nova política comercial foi, segundo Manuel Queiró, particularmente visível no mês de junho, que registou um aumento homólogo de 6,4% no número de passageiros (comparativamente a junho de 2014, que já tinha sido um mês de forte crescimento na CP).

Ou seja, em junho de 2015 a CP transportou 9,47 milhões de passageiros, registando proveitos globais de 19,63 milhões de euros.

Esta evolução foi pautada pela inversão na tendência de quebra de passageiros que a CP teve até setembro de 2013. A partir desta altura, o número de passageiros aumentou, de 106,5 milhões para os níveis que a CP prevê registar em 2015, e que serão, segundo Manuel Queiró, mais de 113,2 milhões de passageiros.

No entanto, a grande alteração vivida no operador público de transporte ferroviário tem a ver com o fim das indemnizações compensatórias em 2015.

Este ano, a CP deixou de receber apoios do Estado, ou seja, "as Indemnizações compensatórias passaram a zero", diz Manuel Queiró.

Depois de reconquistar a paz social na CP, conseguida através da manutenção de uma diálogo laboral permanente, Manuel Queiró defende que a empresa deve começar a pensar no crescimento, mas para isso precisa de ter linhas mais eficientes e comboios mais modernos e rápidos.

Um dos objetivos estratégicos de Manuel Queiró é resolver os constrangimentos atuais da linha do Norte, para assegurar uma ligação Lisboa-Porto mais rápida - "desejavelmente em 2h20 de viagem", diz - e também para poder oferecer uma viagem diurna entre as duas capitais ibéricas.

Para esse efeito, acordou com a sua homóloga espanhola Renfe uma estratégia que visa acelerar todos os contactos necessários com as autoridades de Portugal e Espanha para que seja efetuada a eletrificação da linha entre Salamanca e Fuentes de Oñoro e, do lado português, para que sejam concluídos os investimentos na linha que vai até Vilar Formoso. Desta forma, CP e Renfe conseguiriam oferecer um serviço ferroviário melhor entre o centro de Lisboa e o centro de Madrid.

Estas alterações permitiriam igualmente viabilizar outro tipo de ligações ferroviárias entre Portugal e Espanha, alargando aos dois mercados ibéricos os serviços mais competitivos da CP e da Renfe. Nesse caso, diz, "vamos precisar de mais alfas para entrarmos no serviço internacional".

Para estes projetos será imprescidível manter uma coordenação estratégia entre a CP e a Infraestruturas de Portugal (IP), que integrou recentemente a Refer - Rede Ferroviária Nacional.

No entanto, como os estatutos da IP admitem que seja esta empresa a efetuar as futuras concessões das operações ferroviárias atualmente geridas pela CP, a relação entre o operador (a CP) e o gestor da infraestrutura (a IP) ainda terá de mostrar que, na prática, consegue ser pacífica.