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Caixa até nem fica mal na fotografia...

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Passos Coelho expressou “preocupação” na semana passada e reafirmou-a esta semana, 
abrindo a porta a críticas ao banco. José de Matos e a sua equipa não reagiram

Luís Barra

Passos Coelho mostrou cartão amarelo, mas o banco público não compara mal com os principais concorrentes

Têm sido anos difíceis para a banca portuguesa, que só no primeiro semestre de 2015 voltou a dar lucro, e a ser, timidamente, rentável. É a herança dos anos de euforia e de empréstimos de muitos milhões de euros a grupos que deixaram de pagar, que se revelaram desastrosos e penalizaram capitais e resultados com pesadas imparidades. Das obrigações contingentes (CoCo’s), lançadas em 2012, a Caixa não pagou nada — o que levou o primeiro-ministro a manifestar publicamente “preocupação”, dando origem a algumas críticas ao desempenho do banco público. O BCP já pagou uma parte e o BPI pagou tudo, ambos com recurso a aumentos de capital. As melhorias registadas no primeiro semestre devem-se a ganhos em operações financeiras e contribuições do exterior. Os melhores desempenhos vão claramente para o Santander e o BPI. A gestão da Caixa podia ter feito diferente? Nem por isso, dizem analistas. Se uma crítica lhe podem fazer é a de não ter acelerado, como outros bancos, a reestruturação e emagrecimento. Vai fazê-lo agora, com o plano de saída de 1000 pessoas através de pré-reforma.

Porque é que BPI e BCP já pagaram a ajuda do Estado e a CGD ainda não?

Há uma resposta imediata: fizeram aumentos de capital e a Caixa não. Mas BPI e BCP são casos diferentes. O primeiro já pagou os €1,5 mil milhões que recebeu em CoCo’s, e o segundo recebeu €3 mil milhões mas ainda vai ter de pagar €700 milhões. As diferenças não ficam por aqui. O BCP reembolsou €2,25 mil milhões no verão de 2014, mas avançou na mesma altura com um aumento de capital de precisamente €2,25 mil milhões. Já o BPI foi pagando aos poucos e recorreu a um aumento de capital de apenas €200 milhões. A Caixa recebeu em ajuda pública €1,65 mil milhões, sendo €900 milhões através de CoCo’s e outros €750 milhões sob a forma de capital. Ainda não pagou, mas também não fez aumentos de capital desde então: para fazê-lo está refém do Governo e precisa da luz verde da Concorrência Europeia. Por fim, o Banif recebeu €1,15 mil milhões, e a maior parte da ajuda (€700 milhões) chegou através da entrada direta do Estado no capital, situação que assim permanece. Os outros €450 milhões foram entregues através de CoCo’s, faltando devolver €125 milhões.

A Caixa vendeu o negócio dos hospitais e a Fidelidade, porque não usou a receita para pagar?

Foram vendas feitas em 2013 e 2014. A Fidelidade gerou mais--valias de €287 milhões e os hospitais de €36,5 milhões. Dinheiro que foi usado, em grande medida, para reforçar o balanço face à deterioração da carteira de crédito. A administração de José de Matos herdou uma série de empréstimos problemáticos, onde se incluem casos mediáticos como o de Joe Berardo e Vale de Lobo. Os custos associados a provisões e imparidades atingiram €1,125 mil milhões em 2013 e €950 milhões em 2014.

O Estado fica a perder por a CGD ainda não ter reembolsado a ajuda?

Não necessariamente. A Caixa (tal como os outros bancos que receberam CoCo’s) paga um juro superior a 10% ao ano pela ajuda pública, ou seja, mais de €90 milhões anuais. Desde 2012 já entregou aos cofres públicos perto de €300 milhões. Se não antecipar o pagamento dos CoCo’s — o prazo termina em junho de 2017 —, entregará ao Estado um total de €600 milhões em juros. A ajuda recebida irá transformar-se em capital se a Caixa não a reembolsar.

A Caixa é menos rentável do que os outros grandes bancos?

Em 2014, ano de prejuízos, a Caixa esteve melhor, mas este ano, com o regresso aos lucros, ficou atrás dos maiores concorrentes. A rentabilidade do capital medida pelo ROE foi no ano passado, em termos consolidados, de -6,3% para o BCP, -7,2% para o BPI e -3,6% para a Caixa. No primeiro semestre deste ano, o ROE passou a ser positivo para os três bancos: 2,7% para a CGD, 6,8% para o BPI e 11,4% para o BCP.

A CGD está a financiar as empresas?

Os últimos anos foram marcados pela redução do crédito às empresas, e a Caixa não escapou à tendência. Não obstante, o banco público ganhou quota de mercado no crédito às empresas desde 2011, subindo de 16,4% para 18,1%, em 2013, o que significa que fechou menos a torneira do que os outros. Porém, em 2014, perdeu quota, descendo para 17,8%. Já no primeiro semestre deste ano o novo crédito concedido a pequenas e médias empresas aumentou 37,1% em termos homólogos.

A Caixa já reestruturou o negócio como os outros grandes bancos fizeram?

Nem por isso, foi o banco que menos reduziu emprego desde 2011, o campeão foi o BCP. A Caixa tinha na atividade doméstica 8858 trabalhadores em 2014, ou seja, menos 651 do que em 2011. Já o BCP reduziu 2164 postos de trabalho, para 7795, e o BPI cortou 884, para 5962 trabalhadores. A CGD foi também quem menos balcões fechou: 73 contra 110 do BPI e 190 do BCP.

Quem escolheu esta administração da CGD?

Foi Vítor Gaspar, então ministro das Finanças, quem escolheu José de Matos para liderar a CGD. Foi buscá-lo em julho de 2011 ao Banco de Portugal, com a anuência de Passos Coelho. O mandato foi renovado dois anos depois, transitando para a atual equipa apenas o presidente, José de Matos, e Nuno Fernandes Thomaz, administrador. O mandato acaba este ano.