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Oferta de ‘experiências’ dispara no Algarve

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Ver golfinhos é uma atração crescente no Algarve. A Dolphins Driven quer levar 30 mil pessoas por ano nos seus passeios

Tiago Miranda

Nos últimos anos abriram mais de 100 empresas, especializadas em passeios a pé, de barco ou bicicleta

“Uau!”. O esperado momento em que o golfinho salta na água é celebrado com gritos de aclamação. “Sempre houve golfinhos nesta zona do Algarve, que é rica em sardinha e cavala e a qualidade da água é muito boa”, garante Hugo Modesto, sócio da Dolphins Driven, empresa especializada em passeios para observação de golfinhos. “Atendendo aos relatos de antigos pescadores, está igual ao que sempre foi”.

O que mudou foi a atração em que se tornou a observação de golfinhos no Algarve, visível na quantidade de empresas com esta oferta na marina de Albufeira e nas filas de turistas para fazer passeios. A Dolphins Driven, criada em 2006, decidiu este ano subir a fasquia e investir num catamarã de €1,2 milhões que irá permitir quintuplicar a atividade e levar 30 mil pessoas nos passeios. “O aumento da procura fez com que nos atrevêssemos a este investimento, e nos próximos anos esperamos alargar a frota”, adianta Carla Vaz, responsável de comunicação. “Com a instabilidade nas Tunísias e nas Turquias, o Algarve é um porto de abrigo e continua a ser um destino muito seguro”.

Num percurso de duas horas e meia, o passeio da Dolphins Driven percorre a costa de Albufeira até ao Carvoeiro, ruma ao alto-mar para avistamento de golfinhos e faz aproximação à costa para se apreciar a escarpa algarvia e as grutas. Para “o passeio ser mais rico”, os marinheiros são biólogos contratados na Universidade do Algarve. Até aqui era feito apenas em barcos semirrígidos até 12 pessoas, por €35, mas com o catamarã “Ocean Spirit”, inaugurado em julho, a capacidade elevou-se a 100 pessoas por passeio e o preço a €40.

Pescador da Culatra com “20 anos de mar”, Carlos da Cruz é agora guia dos passeios da Natura Algarve

Pescador da Culatra com “20 anos de mar”, Carlos da Cruz é agora guia dos passeios da Natura Algarve

TIAGO MIRANDA

“O catamarã é um salto qualitativo naquilo que se está a oferecer. Podemos fazer passeios temáticos, com complemento de sushi ou de música. Temos perceção de que há mercado para isso”, salienta Carla Vaz. “O Algarve começa a posicionar-se bem nas ofertas alternativas à praia. Os turistas gostam de destinos polivalentes e procuram cada vez mais experiências que permitam contacto com a natureza”.

Ver golfinhos está longe de ser a única ‘experiência’ em franco crescimento no Algarve, onde estão a explodir ofertas desde passeios nas grutas com barbecue na praia, barcos com DJ para ver o pôr do sol ou caminhadas para observação de aves guiadas por biólogos. Segundo a Região de Turismo do Algarve (que lançou este ano a iniciativa Algarve Nature Week, com 100 experiências diferentes além da praia), das 521 empresas de animação turística que abriram na região nos últimos anos, 118 são reconhecidas para turismo de natureza e a tendência aqui é de expansão.

Descobrir a Ria Formosa

Criada em 2009, a Natura Algarve é especializada em passeios de barco e “o mais popular” é o que parte de Olhão “à descoberta da Ria Formosa”, que dura três horas e meia e custa €30. Vai até às ilhas da Culatra e da Armona, permite ver o moinho de marés e a zona de areias desertas do Lavage “onde até se pode dar um mergulho”. O ideal é fazer o passeio na maré baixa para apreciar a atividade dos mariscadores nos viveiros de amêijoas e de ostras, além de “tudo o que a ria tem para oferecer”, como as suas aves aquáticas, desde flamingos a pilritos.
“Esta é a famosa amêijoa boa da Ria Formosa e aqui também está a maior produção de ostras em Portugal, 60% do parque natural já está transformado em viveiro”, vai explicando Carlos da Cruz, guia do passeio com “20 anos de mar”. “A Culatra formou-se há 200 anos com três famílias, e uma delas era a minha”, orgulha-se Carlos da Cruz, acenando a todos os pescadores que passam. “É o Bé, leva ali um robalo e dois ou três chocos. E ali em frente está um primo meu a trabalhar no viveiro de amêijoas”.

Os mariscadores e a sua atividade nos viveiros de ostras e de amêijoas são um atrativo dos passeios de barco pela Ria Formosa, a partir de Olhão, cuja procura está a subir

Os mariscadores e a sua atividade nos viveiros de ostras e de amêijoas são um atrativo dos passeios de barco pela Ria Formosa, a partir de Olhão, cuja procura está a subir

TIAGO MIRANDA

A experiência do guia faz a diferença também para ficar a conhecer a flora da ria, como o cistanche, “uma planta que é um parasita e fazem chás com ela, é dez vezes mais potente que um viagra”, garante Carlos da Cruz. “Quando conto a história e mostro a planta, os velhos ingleses então dizem logo: vamos já apanhar. É um quebra-gelo muito bom”.

“Isto não é só um passeio de barco, mas uma experiência de conhecimento”, frisa Bárbara Abelho, gerente da Natura Algarve, que também faz passeios à medida, para observação de aves na ria, snorkeling (mergulho em águas rasas) em privado na baía da Culatra ou outros pedidos. “Agora surgiram muitas empresas nesta área. Parece que é uma mina de ouro mas é preciso trabalhar com consciência e saber os melhores locais onde ir”, faz notar. “Nós trabalhamos todos os dias do ano, mesmo nos meses mais fracos de inverno. Temos no Algarve um clima que nos abençoa e permite fazer isso”.

A dinâmica estende-se às caminhadas, como testemunha a ProActive Tur, criada em 2011 e sediada em Loulé. “Trabalhamos com operadores como a Viking Reisen, a maior agência da Alemanha especializada em caminhadas e passeios de bicicleta. Vendemos programas de uma semana ou mais, com alojamento, transporte e alimentação”, explica um dos sócios, João Ministro, que foi coordenador da Via Algarviana, a rota pedestre pelo interior algarvio. “Isto não é turismo de massas e é mais caro. Temos pessoas que pagam €250 por um dia de observação de aves, é quase o preço por uma semana inteira num empreendimento. Há também uma agência inglesa que traz grupos ao Algarve para ver orquídeas selvagens”, exemplifica. “E a fotografia já é aqui um nicho interessante, há quem faça viagens só para ver e fotografar aves, borboletas ou libelinhas”.

Caminhadas, sobretudo na serra, são uma especialidade da Proactive Tur, sediada em Loulé, que trabalha com vários operadores europeus. O pico da procura é fora do verão

Caminhadas, sobretudo na serra, são uma especialidade da Proactive Tur, sediada em Loulé, que trabalha com vários operadores europeus. O pico da procura é fora do verão

Tiago Miranda

A Proactive fez o diagnóstico do turismo de natureza para o plano estratégico da Região de Turismo do Algarve, concluindo haver “um grande crescimento de empresas, sobretudo fundadas desde 2009 e por jovens licenciados”. O negócio destas empresas aumentou 17% de 2012 a 2013, “estimando-se ser nessa altura da ordem dos €8 milhões”, o que é “um valor muito conservador”, e só inclui atividades como caminhadas, observação de aves, mergulho, passeios a pé, a cavalo, de bicicleta ou de barco, pondo à margem surf ou passeios motorizados, “que não consideramos ser turismo de natureza”.

“Estas iniciativas estão a trazer gente ao Algarve fora da época alta, e sobretudo ao interior”, frisa João Ministro. “Isto nunca terá a dimensão do sol e praia, não enche os hotéis nem vai resolver os problemas de sazonalidade. Mas na serra já há muitos turismos rurais e empresas a singrar com esta atividade. E começa a abrir outra imagem do Algarve, muito mais rica e interessante”.