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Zona euro corre riscos até final do ano

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O presidente do BCE, Mario Draghi, o Presidente francês Francois Hollande e os primeiros-ministros espanhol, grego e italiano - Mariano Rajoy, Alexis Tsipras e Matteo Renzi, respetivamente - na cimeira da zona euro, a 7 de julho, nos arredores de Bruxelas

JOHN THYS / AFP / Getty Images

Evolução da crise política grega, eleições em Espanha, posição do FMI face ao resgate a Atenas, decisões de política monetária da FED, preço do petróleo e sinais de crise nas maiores economias emergentes são os principais riscos potenciais

Jorge Nascimento Rodrigues

A zona euro tem pela frente desafios importantes até final do ano. Um interno (crise grega) e vários externos (início provável das subidas das taxas diretoras pela Reserva Federal norte-americana, impacto global da crise nas economias emergentes, evolução do preço do petróleo, comportamento do Fundo Monetário Internacional no caso grego).

O primeiro, interno, diz respeito à evolução da concretização do terceiro resgate à Grécia, que se desenrolará em duas fases. Uma, em curso, de fecho de um memorando de entendimento (MoU) que permita a aprovação de um programa de resgate pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade e outros mecanismos europeus de financiamento. E outra, após o primeiro exame do andamento deste terceiro resgate, que avance, em novembro ou dezembro, com um processo de “alívio de dívida” em moldes a definir (há opções, de partida, distintas defendidas pela Alemanha e pelo FMI), que permita ao organismo chefiado por Christine Lagarde envolver-se com novo financiamento a Atenas.

Reputação do FMI
O FMI deixou, esta semana, muito claro que a discussão na sua direção sobre um novo empréstimo à Grécia só poderá ocorrer se a implementação do pacote por parte do governo grego for convincente e se – e este ponto é crucial em termos de garantia da sustentabilidade da dívida grega, um dos critérios de toque do Fundo – “um acordo explícito e concreto sobre como realizar um alívio da dívida [helénica]” existir.

Segundo um documento “estritamente confidencial” resumindo a discussão na direção do FMI realizada na passada quarta-feira, a equipa técnica tem sublinhado que há um risco de reputação se houver um novo envolvimento num país cuja análise revela insustentabilidade da dívida (caso não haja uma reestruturação profunda da dívida na mão dos credores oficiais europeus que detêm 58,9% m empréstimos do FEEF e bilaterais, como o FMI já recomendou publicamente). De acordo com as fugas de informação sobre essa reunião, vários membros não europeus da direção, entre eles o Brasil, Canadá e os asiáticos, sublinharam a importância de “proteger a reputação do Fundo”.

A Grécia enfrenta, entretanto, a 20 de agosto um novo risco de incumprimento (pois tem de amortizar 3,2 mil milhões de euros ao BCE e ao Eurosistema) e entre 4 e 21 de setembro a possibilidade de voltar a entrar em atraso de pagamento com o FMI (quatro pagamentos totalizando 1,5 mil milhões de euros), se o MoU não for assinado na primeira quinzena de agosto, ou se não houver um segundo empréstimo intercalar a Atenas (como ocorreu em julho permitindo ao Tesouro helénico pagar os atrasados ao FMI e amortizar as obrigações do BCE). Uma reunião do Eurogrupo (órgão informal dos ministros das Finanças da zona euro) está agendada para 11 de agosto. O jornal grego "Avgi" adiantou que uma primeira tranche de um pouco mais de 24 mil milhões de euros pode ser desembolsada pelos credores oficiais europeus, o que permitiria uma primeira ronda de recapitalização da banca (10 mil milhões num total de 25 mil milhões necessários), o pagamento do empréstimo intercalar de julho de 7,2 mil milhões de euros e as amortizações de dívida em agosto e setembro.

A crise política grega parece ter sido adiada até setembro, quando se realizará um congresso extraordinário do Syriza, o partido líder da atual coligação governamental. Em virtude da oposição de cerca de ¼ dos deputados do Syriza, o governo fez passar em julho dois pacotes de medidas necessários para o terceiro resgate com apoio dos deputados da anterior coligação (Nova Democracia e Pasok) e do novo partido Potami.

Prova dos nove para o BCE
Em virtude da importância da economia espanhola na zona euro, as eleições na Catalunha a 27 de setembro e as eleições gerais legislativas numa data a marcar entre 20 de novembro e 20 de dezembro poderão ter impacto significativo em função dos resultados.

A capacidade da política monetária do BCE em conter contágios na zona euro (no caso de se materializarem em virtude do reacender da crise grega ou do surgimento de outros focos de crise) e em conseguir um processo contínuo de subida da inflação (contrariando as quedas nos preços do petróleo e das commodities) será posta à prova.

Os conflitos políticos internos entre as principais potências na zona euro podem recrudescer face à proposta do ministro das Finanças alemão de enfraquecer os poderes da Comissão Europeia e de aumentar os poderes do Eurogrupo no controlo do resgate à Grécia.

No plano externo, além da posição final que o FMI vier a tomar sobre o envolvimento no resgate a Atenas, a zona euro tem de gerir os impactos globais dos sinais de crise nas grandes economias emergentes e o efeito nos mercados financeiros que poderá ter uma pimeira subida das taxas diretoras da Reserva Federal norte-americana (FED) no último quadrimestre do ano, acentuando a divergência entre, por um lado, a orientação da FED e, por outro, a estratégia mais “acomodativa” por parte dos bancos centrais da zona euro, do Japão e da China.

A evolução dos preços do barril de petróleo e das commodities agrícolas terá impacto na trajetória da inflação na zona euro. O FMI prevê que a inflação na zona euro se mantenha próxima de zero em 2015 e que só descole para um nível ligeiramente acima de 1% em 2016.

Os focos mundiais de tensão geopolítica, e nomeadamente nas bordas da União Europeia, estarão, sempre, no radar da zona euro.