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José Soares dos Santos. “Portugal pode ter no mar um projeto geracional”

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José Soares dos Santos foi fotografado pelo Expresso no dia em que esteve no Oceanário a apresentar aos trabalhadores o projeto da Fundação

João Lima

“O objetivo é que daqui a cinco anos a Fundação Oceano Azul tenha um reconhecimento internacional significativo”, diz José Soares dos Santos, administrador executivo da Sociedade Francisco Manuel dos Santos

A concessão do Oceanário de Lisboa foi apenas um primeiro passo no novo projeto da família Soares dos Santos. Os donos do Pingo Doce querem criar uma Fundação que ajude a colocar Portugal na liderança da discussão mundial sobre literacia, preservação e exploração sustentável dos oceanos. José Soares dos Santos explicou ao Expresso os eixos centrais de uma estratégia que assume ser ambiciosa.

Porquê o interesse no Oceanário?

A família tem uma política de cidadania que prevê investir em duas áreas: sustentabilidade social — com a Fundação Francisco Manuel dos Santos — e sustentabilidade ambiental. Nesta área, o clima e a ecologia estão muito bem cobertos, mas sobre os oceanos não havia nada. Começámos a trabalhar há 18 meses e foi nesse processo que se concluiu que uma Fundação que tivesse como montra o Oceanário poupava muito na instalação da sua reputação global.

O fracasso em garantir a concessão do Oceanário colocaria em risco a criação da Fundação?

Pô-la-ia em causa, porque o estabelecimento da reputação era muito importante. Se levássemos 10 anos a estabelecê-la, nessa altura o tema do mar já estaria definido e nós — a Fundação e Portugal — não seríamos um jogador importante. Temos de demonstrar rapidamente que vamos manter o Oceanário como serviço público e com a qualidade atual. Se possível melhorar, com mais investimento.

E qual é o projeto para o Oceanário?

Há duas ações distintas. Uma é o Oceanário per se e a sua missão enquanto aquário. Outra é a Fundação. No Oceanário, adquirimos a melhor equipa de gestão do mundo, porque a reputação internacional do Oceanário é incrível. O que vai acontecer numa primeira fase é um maior investimento na infraestrutura e na área comercial, para aumentar a notoriedade do aquário. Do ponto de vista técnico, para termos a certeza de que vamos no caminho certo, contratámos o Mark Smith — que foi quem idealizou o Oceanário no princípio — para liderar um grupo que tem a responsabilidade de garantir que estaremos na frente da inovação nesta indústria.

O Oceanário vai ter mais músculo financeiro?

De certeza. Até porque tudo quanto o Oceanário gerar vai ser para benefício do próprio Oceanário ou da Fundação. O Oceanário parqueado numa Fundação é um circuito fechado. Não há lucros. Todos os meios financeiros que forem gerados ficarão dentro da Fundação e do próprio Oceanário.

E o orçamento vai ser maior?

Espero que sim, se não falhámos.

Com que números estão a trabalhar? O Oceanário tinha lucros anuais na ordem dos 1,6 milhões.

Os lucros para nós não são relevantes. O que é importante é que o Oceanário liberte meios suficientes para se autossustentar, pagar a renda exigida ao Governo e, em cima disso, haver mais investimento.

Portanto tem de gerar mais receita.

Foi-nos indicado que num cenário conservador, num prazo de dois ou três anos era possível aumentar receitas em 15% a 20%.

Pode dividir-se as receitas como projeto de entretenimento e os custos como projeto científico?

A mensagem do aquário é muito importante para a Fundação. Esta gestão entende o conceito de serviço público e de literacia sobre os oceanos e nós não queremos adulterar isso, porque não queremos entrar na indústria do entretenimento. Queremos é garantir que se pega nesta mensagem e que se lhe dá escala.

E a mensagem é o quê? Diversidade de espécies, sustentabilidade dos oceanos?

Há uma mensagem ainda mais básica que é informar sobre a importância dos oceanos. A maior parte das pessoas gosta de ver o pôr do sol sobre o oceano mas não entende a riqueza, a importância e dinâmica que os oceanos têm no ecossistema. Existe essa primeira dimensão de literacia pura e dura. Temos o projeto de chegar a meio milhão de crianças nos próximos cinco anos. Depois há outros projetos fundamentais: a conservação dos oceanos e a concertação dos vários recursos que estão muito dispersos, para perceber o que se está a fazer, o que falta, o que está em aberto no plano do Atlântico Norte. Nas discussões com os parceiros estrangeiros que nos ajudaram a construir a nossa estratégia, eles acharam natural que Portugal assumisse uma liderança neste dossiê europeu.

E esta Fundação não substitui o papel que devia ser do Estado?

Não substitui, complementa. Observámos com muita atenção o trabalho fundacional nos Estados Unidos e os pensamentos profundos de médio e longo prazo vêm normalmente de fundações com quem o Estado depois se relaciona. Aqui o Estado pode ou não querer. Mas cabe à Fundação demonstrar que tem a qualidade e independência suficiente para ser benéfica para o país, com um pensamento válido para o interesse público.

Ouvimos falar da importância do mar há anos, do ponto de vista económico ou de posicionamento estratégico do país, mas nenhum projeto cristalizou essa oportunidade. A Fundação tem a ambição de assumir esse protagonismo?

O objetivo é daqui a cinco anos ter um reconhecimento internacional significativo. Como é que vamos medir isso? Através do número de projetos e financiamento internacional que a fundação terá. Se a ideia é boa ela tem de se traduzir nalguma atividade e investimento. Existem muitos parceiros internacionais disponíveis para financiar bolsas de investigação, programas de conservação dos mares, de educação ou conferências.

Vão ter subsídios do Estado?

Não. Não sei se haverá programas a nível europeu para o aumento do conhecimento do mar, a que a Fundação se candidate para patrocinar uma ação. A Fundação tem ambições e para isso tem de ter condições financeiras. A família garante o dinheiro suficiente para ter os corpos gerentes, estrutura e começar a trabalhar.

Em que modelo é feito esse financiamento pela família?

Tal e qual como fazemos na Fundação Francisco Manuel dos Santos, com um financiamento anual. Nesta comprometemo-nos a investir €30 milhões nos primeiros dez anos, ou seja, €3 milhões por ano.

O resultado atual do Oceanário também ronda os €3 milhões por ano, não é?

Os meios libertos pelo Oceanário rondam os €4 milhões. É uma bela operação. No futuro parte disso irá para o Estado sobre forma de rendas — €1,3 milhões por ano, mais 5% das receitas — e o que sobrar daí é reinvestido no Oceanário.

Consegue explicar aos cidadãos e contribuintes os benefícios desta concessão? Porque é que o Estado se desfaz de uma estrutura que até dá lucro?

Sobre as razões do Estado, terá de perguntar ao Estado. Eu posso é dizer às pessoas o benefício de o Oceanário estar numa Fundação com sede em Portugal. Uma Fundação de serviço público preserva a missão do Oceanário das crises política e económicas que pudessem vir a afetar o seu funcionamento. Num ambiente fundacional, se bem gerido, o Oceanário ganha uma independência própria que lhe vai permitir viver o potencial para o qual foi feito, que é o serviço público.

Além da questão política e territorial do mar, estamos a falar também de uma questão económica com a exploração dos recursos marítimos. A economia azul cruza uma série de perspetivas que são por vezes conflituantes: política, económica, ambiental...

... e a forma como exploramos o oceano, para que seja sustentável. Ninguém hoje tem dúvidas de que ou arranjamos uma forma de ter atividades económicas sustentáveis ou vamos ter um problema enorme neste planeta. Mas no mar ainda vamos a tempo de, à partida, entrar já com a tecnologia correta.

Disse no início que nos próximos 10 anos o tema do mar estará definido. O que é que está a ser definido?

Nos últimos 100 a 150 anos dedicámo-nos à exploração dos recursos terrestres. Nos próximos 100 a 150 vamos dedicar-nos à dos fundos marítimos. As grandes nações estão a posicionar-se para comandar essa agenda. Com a nossa plataforma continental e zona económica exclusiva, temos o terceiro maior território da União Europeia e estamos no topo do mundo. Portugal tem aqui uma possibilidade única de ter um projeto geracional. É muito importante que os países tenham centros que garantam que a importância deste assunto se mantenha do ponto de vista político. E durante este processo notámos que os dois partidos do arco do Governo estão de acordo neste tema.

Falaram com o PS e o PSD antes de avançar?

Claro. Não queríamos entrar em controvérsia política. Não seria benéfico. Comunicámos as nossas intenções e ideias.

E o feedback foi de apoio e incentivo?

Não diria de apoio e incentivo, porque isso é complicado para os partidos, mas foi de agrado sobre a existência de um projeto desta natureza no processo de concessão.

Tem a convicção de que não será acionada a cláusula do contrato de concessão que prevê a possibilidade de o Oceanário ser resgatado pelo Estado após os primeiros 10 anos?

O Estado deve aplicá-la se falharmos. E eu espero não falhar. Espero não só ao fim de 10 anos, mas ao fim dos 30 anos da concessão, que o Estado português e o povo português estejam suficientemente satisfeitos com o trabalho para continuarmos.

Vai ser o presidente da Fundação?

Não sei ainda.

Mas não está pensada ou definida a administração, por exemplo?

Existe um corpo de ideias que será materializado em agosto, porque gostaríamos de avançar com a Fundação em setembro. Mas não posso divulgar nomes porque as pessoas ainda não sabem.