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Crise grega abrandou, riscos “mudam-se” para economias emergentes

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Christopher Furlong / Getty Images

Com o acordo de princípio para um terceiro resgate à Grécia, o foco da volatilidade virou-se no imediato para as grandes economias emergentes e para a quebra nos preços das commodities

Jorge Nascimento Rodrigues

A turbulência amainou na frente grega, o foco de atenção desviou-se, por ora, da Zona Euro. Os riscos imediatos mudaram-se para as economias emergentes, nomeadamente para três grandes economias dos BRICS, China, Brasil e Rússia, e para todos os países que vivem da exportação de commodities, cujos preços sofreram uma quebra global de 10% em julho.

O mês que agora findou assistiu a um pico da crise helénica, com o risco iminente de um default na dívida externa grega e um colapso bancário se Atenas falhasse, no dia 20, a amortização das obrigações em carteira no Banco Central Europeu (BCE) e nos bancos centrais nacionais do Eurosistema.

‘Corralón’ evitado na Grécia
Esse incumprimento pontual ao BCE desencadearia um tremor de terra violento na maioria da dívida externa helénica, pois o principal credor, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), poderia decidir reclamar o pagamento imediato de mais de 130 mil milhões de euros de empréstimos ao abrigo dos resgates. O BCE fecharia, de vez, a torneira de euros ao Banco Central da Grécia e poderia empurrar o ‘corralito’ bancário helénico para um ‘corralón’.

Esse “acidente” levaria à tomada de medidas de exceção mais violentas e ao início de um caminho de saída da Grécia do euro (Grexit, na designação inglesa), “temporário”, segundo a opção defendida pelo ministro das Finanças alemão no Eurogurpo (órgão informal de reunião dos ministros das Finanças da zona euro). O colapso foi evitado com o acordo de princípio sobre um terceiro resgate à Grécia obtido na madrugada de 13 de julho.

Com o abrandamento da crise grega a partir de meados de julho, refletido na redução abrupta do preço dos seguros contra o risco de incumprimento (designados tecnicamente por credit default swaps e conhecidos pelo acrónimo cds) de 8870 pontos base em 6 de julho para 2082 pontos no final do mês, regressaram as descidas das yields no mercado secundário e dos prémios de risco da dívida obrigacionista grega e dos restantes periféricos.

No caso das Obrigações do Tesouro português, no prazo de referência a 10 anos, as yields desceram de 3% no final de junho para 2,39% no final de julho e o prémio de risco baixou de 226 para 174 pontos base. O mínimo histórico foi registado em março com as yields naquela maturidade a caírem para 1,5% e o máximo do ano, atá agora, verificou-se em meados de junho com mais de 3,3%.

Turbulência nos emergentes
O foco de atenção nas últimas semanas virou-se para Xangai com o índice composto da Bolsa a registar um crash a 27 de julho, que foi o segundo maior desde 2000. Julho acabaria por ser um mês negro para a Bolsa chinesa, o pior desde agosto de 2009. O índice composto de Xangai desceria em julho 14,34%, a pior quebra de capitalização no mundo das bolsas, seguida pela bolsa de Hong Kong (índice Hang Seng caiu 6,15%) e do Brasil (índice Bovespa desceu 4,17%).

O índice MSCI para as economias emergentes desceu 7,26% em julho e, no caso específico dos BRICS, a quebra foi de 8,7%, influenciada pelas quedas nas bolsas chinesas, brasileira e russa. Nos últimos três meses, as maiores quebras nos índices MSCI registam-se para a China (mais de 20%), Brasil (cerca de 20%) e Rússia (mais de 16%).

A crise política brasileira e o impacto da quebra dos preços das commodities levou a Standard & Poor’s a colocar o rating de BBB- (apenas um nível acima da situação de dívida especulativa) daquele país em perspetiva negativa. O Banco central do Brasil subiu a 30 de julho a taxa Selic em 50 pontos base para 14,25%, atualmente a mais alta na OCDE e no G20. No caso da Rússia, o Banco central viu-se obrigado a 31 de julho a cortar mais 50 pontos base na taxa diretora de juros que desceu para 11%, a quinta descida em 2015, que abriu com 17%.

Nos BRICS, a Índia escapa à tormenta e o governo do primeiro-ministro Narendra Modi pretende limitar a independência do Banco da Reserva da Índia (o banco central) cujo governador é o académico Raghuram Rajan. O índice da Bolsa de Mumbai subiu 1,96% em julho, uma performance similar à do S&P 500 de Wall Street que ganhou 1,98%.

Os preços das commodities caíram em julho mais de 10%. As principais quedas, na ordem de dois dígitos, registaram-se com os preços do barril de petróleo de Brent (mais de 17%), do trigo (15,3%), do milho (13%), do paládio (12%) e do cobre (10%).

As divisas que mais desvalorizaram (face ao euro) em julho foram o rublo (7,2%), o real (6,6%) e os dólares australiano (4,05%) e canadiano (3,4%).

Zona Euro bafejada
Com a crise grega contida, a zona euro tem sido bafejada pela convergência de três fatores positivos, como sublinhou ainda recentemente o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No recente relatório sobre a zona euro, ao abrigo do Artigo IV, o FMI aponta como fatores globalmente positivos:

- a descida dos preços do barril de Brent e das commodities particularmente agrícolas, com influência positiva nos custos empresariais e pressionando em baixa a inflação (0,2% em julho, similar ao mês anterior e inferior a 0,3% registado em maio), o que tem, no entanto, efeitos contraditórios (pode gerar novo processo de desinflação);

- a desvalorização do euro em relação a um cabaz de divisas dos 19 principais parceiros, que registou 0,3% em julho e 9,9% nos últimos 12 meses; em julho, em relação ao dólar caiu 1,98%, parecendo caminhar para a paridade, e em relação ao yuan chinês desceu 1,82%;


- e o programa de compra pelo Banco Central Europeu no mercado secundário de dívida pública dos membros do euro com maturidades entre 2 e 30 anos (que já soma cerca de 238 mil milhões de euros, desde o início em março) limitando o contágio grego (sempre que este recrudesce) e empurrando os juros da dívida pública na zona euro para mínimos, o que tem permitido aos países periféricos do euro (excetuando a Grécia) financiarem-se no mercado obrigacionista a taxas baixas.

  • Julho negro na Bolsa de Xangai

    O índice composto caiu mais de 14% registando uma segunda-feira negra a 27 de julho quando quebrou quase 8,5%, a maior perda diária de capitalização desde há 15 anos

  • Zona euro corre riscos até final do ano

    Evolução da crise política grega, eleições em Espanha, posição do FMI face ao resgate a Atenas, decisões de política monetária da FED, preço do petróleo e sinais de crise nas maiores economias emergentes são os principais riscos potenciais